1. Retomando.
Vimos, no texto passado, como é fácil cair no erro de que nossa inteligência é similar à dos anjos, e na verdade já teria em si, como que gravado, todas as informações sobre aquilo que aprenderá na vida. Neste caso, para os que pensam assim, aprender não seria mais do que lembrar, e o processo de educação seria um processo de recordação.
É a opinião de Sócrates e Platão, de que o conhecimento já estava em nós, e que apenas seria como que despertado pelo processo de aprendizagem.
Vimos, no começo da resposta sintetizadora de Tomás, que ele fala em ato e potência, e vimos também uma comparação com um balão: um balão vazio está em potência para flutuar, mas um balão cheio está em ato para voar, porque já atingiu a condição de ser mais leve que o ar. Vimos que nossa inteligência é como uma página em branco, ou seja, está em potência para aprender, mas está vazia de conhecimentos. Como aquele balão murcho.
Agora veremos, então, a maneira pela qual Tomás responderá à posição platônica.
2. A resposta sintetizadora.
Um balão vazio não sobe. Está em potência para flutuar. Uma mente humana recém nascida nada sabe. Está em potência para aprender. Parece simples assim.
Platão e a alma que já sabe, mas esqueceu
Mas Platão parece defender que a nossa mente não seria como um balão vazio; ela seria análoga a um balão cheio de ar quente, mas preso no chão por cabos. Neste caso, o balão está atualizado, seria capaz de voar, mas há uma força externa, um impedimento, que faz com que ele não voe. Para a nossa mente, diz Platão, este impedimento seria a conexão com o corpo. Nossa alma, para Platão, preexiste ao corpo, e vivia num reino das ideias, onde aprendeu tudo sobre todas as coisas. Mas veio a ficar presa no corpo e, por isto, não consegue ter acesso àquilo que já aprendeu. Seríamos, então, na verdade, anjos presos na matéria: não haveria diferença entre nossa alma, por um lado, e os anjos, por outro. Ambos são entes completos como realidades espirituais, mas, no nosso caso, por alguma razão, fomos castigados a ficar presos na matéria, que é o corpo, o que nos impediria de ter acesso ao nosso conhecimento intelectual. Portanto, nossa mente, para ele, seria completamente atual quanto ao saber, mas potencial quanto ao uso do que sabemos. E, de modo análogo ao balão de ar quente que não flutua porque está impedido pelos cabos de amarração, nós só não usamos nossos conhecimentos porque estamos impedidos pela prisão à matéria, pensam os platônicos. Mas eles estão em nós.
Esta posição, portanto, transforma o corpo num acidente que não pertence à nossa essência, e que, aliás, nos prejudica. Nos nossos dias, muitas religiões espiritistas e reencarnacionistas têm crenças semelhantes a esta, que defendem que a alma é um ente perfeito e independente do corpo, e o corpo é uma espécie de prisão, punição ou purificação, que prejudica a alma.
Os argumentos de Tomás contra Platão.
Mas esta concepção não pode ser verdadeira, diz Tomás; e ele dará três simples razões pelas quais as coisas não podem ser como Platão acreditava.
A primeira razão é que, se sabemos alguma coisa, não poderia acontecer que nós simplesmente esquecêssemos até o fato de que sabemos. Ou seja, muitas vezes acontece de não conseguir lembrar de alguma informação, mas, pelo menos, sabemos que este conhecimento existe em nós, ainda que não lembremos com exatidão naquele momento. Eu posso até não lembrar, num instante, que o resultado da multiplicação de sete por oito é cinquenta e seis, mas eu tenho consciência de que sei fazer esta conta. No caso dos supostos conhecimentos que Platão acredita existir latente em nosso intelecto, nós não temos sequer a consciência de que este conhecimento existe, muito menos sabemos como acessá-lo. Assim, não há nenhuma evidência, de fato, de que esta concepção possa ser verdadeira.
Em segundo lugar, diz Tomás, o corpo não é algo estranho à nossa essência, como se fôssemos anjos aprisionados na matéria. Não somos. Somos animais racionais, isto é, somos entes essencialmente materiais capazes de atividades espirituais. Portanto, a união entre corpo e alma é natural, é a união de dois elementos que nos constituem, dois princípios do nosso ser. Não faria sentido, portanto, que o resultado desta união fosse algo em que um dos elementos atrapalha o outro. Ao contrário, a alma deve ser favorecida, não impedida, pela sua união essencial com o corpo. Portanto, se o intelecto é como uma folha em branco, e o corpo, por seus sentidos, é quem fornece a ele os meios de aprendizagem, esta união faz sentido. Mas se a alma fosse um ente que já sabe de tudo, e o corpo fosse um obstáculo ao conhecimento, seríamos entes contraditórios, e a morte nos seria mais natural do que a vida; na morte, a alma se livraria do corpo e passaria a ter acesso incondicional a todos os conhecimentos. Mas isto não pode ser assim. A vida não pode ser pior para nós do que a morte.
Mas há um terceiro problema. Temos a questão (aliás já confirmada pela ciência de nosso tempo) de que um ser humano a quem falte, desde o nascimento, um determinado sentido, não terá nenhum conhecimento quanto às informações que deveriam ser fornecidas por aquele sentido. Um surdo de nascença não forma nenhuma ideia sobre o que é um som, como um cego de nascença é incapaz de conceber imagens visuais. Ora, se houvesse informações inatas na alma, este fenômeno não ocorreria: seria simples fazer com que o sujeito simplesmente “lembrasse” das informações que já estariam (segundo Platão) em sua alma desde antes de nascer. Portanto, mais uma evidência de que não há informações intelectuais inatas na alma.
Disto tudo, conclui Tomás que não temos informações inatas em nosso intelecto.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Se o ser humano tem o mesmo inteligir que os anjos, e os anjos têm species inatas em sua inteligência, também nós devemos tê-las, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Temos um intelecto similar ao dos anjos, mas que não funciona do mesmo jeito. O intelecto do anjos é superior ao nosso, porque já é criado com todas as informações intelectuais de que vai precisar por toda a sua existência. O intelecto humano, por outro lado, é muito mais simples, porque é criado vazio, apenas com a capacidade potencial de aprender. Assim, não podemos comparar os dois intelectos quanto a estes aspectos.
O segundo argumento objetor.
A matéria-prima é o princípio mais simplório da realidade. No entanto, ele traz em si a capacidade de receber qualquer forma, e não existe sem estar atualizado por alguma forma; mesmo estando atualizado por alguma forma, ele ainda é potencial para qualquer outra forma material.
Ora, se a matéria-prima, que é tão inferior em termos de existência do que a inteligência, não existe sem ter recebido, desde a sua criação, alguma forma, e tem a potencialidade de receber qualquer outra, não poderíamos admitir que o intelecto humano, que é uma realidade muito mais nobre do que a matéria-prima, não tivesse recebido, desde a sua criação, as formas que o tornam atual. Logo, o argumento conclui que o intelecto humano tem as formas como inatas em si.
A resposta de Tomás.
A matéria-prima não existe em si mesma, mas subsiste apenas como princípio de algum ente material que tem a respectiva forma. Não vemos nenhuma matéria-prima sem forma por aí, porque ela precisa de alguma forma para existir. As outras formas, para as quais ela é potencial, não estão nela de modo algum; ela precisa sempre perder uma forma para adquirir outra, como no caso da argila que deixa de ser jarro para ser boneco.
O intelecto humano, porém, existe como um atributo do ser humano, que a possui. Assim, ela não precisa ter em si nenhuma forma, substancial ou acidental, para existir numa alma humana. E de fato não possui: o intelecto humano nasce como uma folha em branco, conclui Tomás.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento parte da ideia de que um interrogador habilidoso consegue extrair, do examinado, coisas que ele não tinha consciência de que sabia. Ou seja, uma vez que seria impossível que alguém seja capaz de responder corretamente quanto àquilo que ignora, o fato de que um examinador possa conduzir alguém a responder uma verdade que ignorava saber parece comprovar que a alma tem conhecimentos inatos gravados nela, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Quando um interrogador hábil parte de princípios comuns, que são evidentes por si mesmos (como o princípio da identidade e o da não contradição), ele pode caminhar dos princípios até as noções próprias das coisas, de tal modo que conduza o interrogado para conhecer aquilo que não conhecia antes, deduzindo as coisas próprias dos princípios comuns. Na verdade, nesse percurso de interrogatório, é o próprio interrogador quem está ensinando, habilmente, aquilo que o interrogado desconhecia. É por isto que o interrogado, transformado, na prática, em aluno, pode responder e deduzir coisas que não sabia antes: não porque já as conhecesse, mas porque é ensinado pelo próprio interrogador no percurso do interrogatório. Como é o próprio interrogado que é levado a chegar às conclusões certas, pode dar impressão a um observador que ele já tinha as respostas. Isto não é verdade. Ele foi ensinado pela própria técnica de interrogar mediante raciocínios.
4. Conclusão.
Muito interessante a aula de Tomás! Este processo de conhecimento humano é capaz de nos levar ao autoconhecimento. Mas vamos devagar: temos muito o que aprender.
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