1. Introdução.
Como nós vimos ao estudar os anjos, no tratado que é dedicado a eles, Deus os cria já com todas as espécies, quer dizer, com todas as informações sobre todas as coisas impressas em seu espírito, de tal modo que não precisam aprender; apenas recordam, ao entrar em contato com as coisas, aquilo que já sabem sobre elas. É isto que significa, tecnicamente, o termo espécies (species): é exatamente a assimilação da essência universal das coisas, que fica em nossa alma quando as conhecemos intelectualmente.
Então, diante do mistério que é a capacidade humana de aprender, ou seja, de assimilar em si o conhecimento das coisas com que se depara, alguns imaginaram que aprender, também em nós, não seria mais do que recordar conhecimentos que trazemos, de modo inato, em nossa alma: as species impressas em nós por Deus desde a nossa concepção no seio materno, que seriam ativadas na medida que caminhamos pela vida afora. É exatamente isto que vamos debater aqui.
2. A hipótese controvertida inicial.
Como sabemos, cada artigo propõe, no início, uma hipótese a ser debatida, que normalmente é uma ideia equivocada e aligeirada sobre o problema, a ser devidamente enriquecida e corrigida no decorrer do diálogo.
No presente artigo, a hipótese propõe que nós já nascemos com todos os conhecimentos, sobre todas as coisas, inscritos em nossa alma, de tal modo que vamos nos lembrando deles ao longo da vida, na medida que nos deparamos com as coisas. Há três argumentos que tentam comprovar esta hipótese e interromper o debate, com a pretensão de justificar que a hipótese é verdadeira; costumamos chamar estes argumentos de “argumentos objetores iniciais”, porque eles se opõem ao prosseguimento do debate, sob o pretexto de que já provam suficientemente a hipótese inicial (embora, como veremos na resposta sintetizadora, eles não a provam).
Examinemo-los.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
São Gregório, numa homilia, afirmou que os seres humanos têm a capacidade de inteligir de tal modo que nos assemelha aos anjos. Mas a capacidade de inteligir dos anjos decorre do fato de que as informações de todas as coisas (suas species) estão nas suas inteligências desde a sua criação. É por isto, diz o argumento, que o livro “De Causis” diz que é próprio das inteligências estarem “Cheias de formas”, ou seja, das species das coisas que conhece. Logo, o argumento deduz que também a alma humana tem, desde a sua concepção, as species das coisas gravadas em si.
O segundo argumento objetor.
Quando Deus criou a matéria-prima, diz o argumento, ele colocou nela a potencialidade de vir a compor qualquer coisa corporal. Ou seja, a matéria-prima possui, em si, a potência para todas as formas. Isto desde a sua criação. A mesma matéria pode ser, por exemplo, uma pedra, uma galinha, uma árvore e assim por diante.
Ora, a nossa alma intelectiva é, sem sombra de dúvida, muito mais rica existencialmente, muito mais nobre do que a matéria-prima. Assim, se a matéria-prima foi criada com a potencialidade para todas as formas, com muito mais razão temos que admitir que nossa alma intelectiva, que é capaz de receber em si todas as formas (como conhecimento delas), deve conter em si todas as formas em potência para o conhecimento. Assim, em nossa alma, há, digamos, a potência para conhecer a pedra, para conhecer a galinha, para conhecer a árvore, e assim por diante.
Assim, é por ter em si as formas, isto é, as ideias ou species de todas as coisas que poderá conhecer, que a alma conhece, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor parte da concepção socrática, defendida por Platão, de que qualquer pessoa, mesmo a mais ignorante, se for devidamente questionada por alguém com habilidade, será capaz de responder a verdade sobre qualquer assunto, mesmo que o ignore. É a ideia da maiêutica, isto é, a ideia de que temos, de maneira inata, todos os conhecimentos dentro de nós, e precisamos apenas ser devidamente lembrados deles pelo processo de educação. Ora, se é assim, então todas as informações e ideias, ou seja, as species que nos permitem conhecer a realidade, estão em nossa inteligência desde a nossa concepção, conclui o argumento, e é por elas que inteligimos o mundo.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra vai resgatar Aristóteles, que na obra Sobre a Alma, afirma categoricamente que nossa alma é como uma folha em branco, uma tabula rasa, ou seja, que nascemos sem nada conhecer, e a nossa inteligência está vazia de informações.
5. A resposta sintetizadora.
Tomás vai iniciar dando uma pequena aula sobre ato e potência. Na verdade, a ideia de potência é a ideia de alguma coisa que ainda não é outra, mas que tem a capacidade de vir a ser. Assim, o ovo tem a potência de se transformar, digamos, em galinha; a galinha seria, então, o ovo em ato, e o ovo seria a galinha em potência.
Assim, a galinha, sua estrutura corporal, suas características, estão inscritas, potencialmente, no ovo, ou, como Tomás diz, a forma da galinha é o princípio da ação do ovo. Quando o ovo caminha, ele caminha para ser galinha.
Imaginemos um balão. Um balão vazio tem a potência de subir para o céu, ou seja, de se tornar mais leve que o ar e ascender. Mas, enquanto está vazio, ele não exerce essa potência. Quando ele se enche de ar quente, atualiza-se sua potência e ele se torna atualmente mais leve que o ar, e sobe.
A nossa inteligência se parece, então, com esse balão vazio: ela tem a potência para conhecer, mas não tem o conhecimento atual. É pelo contato dos sentidos com as coisas, ou pela educação recebida dos mestres e dos livros, que vamos adquirindo conhecimento, e nossa inteligência se aperfeiçoa. Não há, pois, conhecimento atual em nós que não tenha vindo pelo processo de aprendizagem, direto ou guiado; o fato de que nossa inteligência está em potência para aprender não significa que ela já tenha, em si, o próprio conhecimento como que adormecido ou desligado, mas significa apenas que, como o balão vazio pode receber o ar quente e flutuar, nós podemos receber as informações e aprender.
E a opinião de Sócrates e Platão, de que o conhecimento já estava em nós, e que apenas seria como que despertado pelo processo de aprendizagem? Estudaremos isto no próximo texto.
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