1. Retomando.
Conhecer não é algo como ter todas as coisas, fisicamente, dentro de si. Nem é simplesmente ser similar, ter a mesma estrutura que a outra coisa. A partir destas duas constatações, muitas teorias sobre o conhecer foram criadas; especialmente aquelas que, sem poder negar o fato de que conhecemos, e que conhecer envolve imaterialidade, simplesmente negou a própria materialidade do mundo. É o caso de certas correntes espiritualistas como as platônicas. Outros, ainda, concederam a nós um verdadeiro poder criador, afirmando que é nossa mente que cria o mundo ao conhecê-lo. São os idealistas modernos alemães, por exemplo.
Tomás não cai nessas armadilhas. Ele segue simplesmente a linha aristotélica, que afirma que as formas (ou estruturas imateriais) existem de dois modos diferentes: como indivíduos na matéria e como conhecimento numa mente. Os modos de existir são diversos, mas são dois modos de existir das mesmas coisas.
Foi um pouco sobre isto que falamos no último texto, acompanhando a resposta de Tomás.
Há um outro aspecto importante: de todos os seres inteligentes (Deus, os anjos, os humanos), apenas nós, humanos, é que passamos por um processo de aprendizagem. Deus concebe tudo por sua mente; os anjos são criados sabendo. Só nós aprendemos. E aprender é um caminho nada simples. São as coisas que nos ensinam. E de fato passam a existir em nós como conhecimento, de modo análogo àquele pelo qual existem em Deus como concepção e nos anjos como informação. E nas coisas como formas individualizadas. É sobre isto que falaremos agora.
2. Prosseguindo na resposta sintetizadora de Tomás.
As coisas conhecidas estão em nós imaterialmente.
As formas são sempre recebidas na matéria como individualizadas. A matéria tem o poder de individualizar, inserir na história, ou seja, dar coordenadas espaciais e temporais bem específicas a alguma coisa. Por isto, as formas que são recebidas na matéria são sempre indivíduos, diferentes entre si. Mesmo, digamos, um carimbo que se aplicasse a uma folha em branco, diversas vezes, produziria, a cada vez, uma imagem diferente, porque cada imagem está situada num ponto geográfico e cronológico diferente.
Portanto, quando existe na matéria, cada forma existe na condição de indivíduo, concretizado na história, impresso na matéria; a matéria tem, portanto, a capacidade de receber uma e apenas uma forma de cada vez, que dá inteligibilidade à matéria e a faz ser alguma coisa.
No conhecimento, porém, várias formas podem coexistir no mesmo indivíduo. De fato, na nossa mente, temos as formas de tudo aquilo que conhecemos. Se, por exemplo, vamos a uma aula de geometria e aprendemos o que é um cubo, nosso corpo não vira um cubo. Nem precisamos esquecer, digamos, o conhecimento que tínhamos sobre as pirâmides para abrir espaço para o conhecimento sobre o cubo. Conhecimento não ocupa lugar, diziam os antigos. A forma do cubo passa a existir em nossa mente, como uma forma apreendida. Mas os outros conhecimentos continuam em nossa mente; e nosso corpo continua a ser um corpo humano. Isto demonstra que conhecer é receber uma forma sem individualizá-la. Esta é a diferença entre a existência de uma forma na matéria, concreta, individualizada, e a existência de uma forma na mente, universal, abstrata e cumulada com todas as outras formas que existem ali.
Assim, as propriedades do modo de conhecer são opostas às propriedades do modo de ser na matéria.
Portanto, a matéria não pode conhecer. Ela pode apenas receber a forma que a faz ser alguma coisa. E ela não pode conhecer simplesmente porque uma determinada quantidade de matéria, que forma um corpo, é capaz de receber apenas uma forma de cada vez, a forma que a faz existir como isto ou aquilo. Pensemos, por exemplo, num bloquinho de argila: é possível moldá-lo para que seja um jarro ou uma pequena estátua de elefante, mas ele não pode ser um bonequinho e um jarro ao mesmo tempo. Alguém poderia até moldar um jarro em forma de elefante, mas aí seria ainda um jarro, não um bonequinho.
Por isto, conhecer é sempre ter em si, imaterialmente, a forma conhecida. De fato, existe a possibilidade de haver um conhecimento incompleto, imperfeito, como aquele que os animais têm a respeito de coisas individuais. O meu cão conhece a mim, conhece o meu cheiro, a minha figura, o timbre da minha voz. Mas ele conhece este ser humano concreto, com este cheiro, esta figura, esta voz. Ou seja, mesmo conhecendo minhas características de um modo imaterial (porque ele as tem em sua memória, de modo diferente daquele pelo qual eu tenho estas características concretas em mim mesmo), ele não é capaz de extrair, deste conhecimento, as condições concretas com as quais estas informações estão relacionadas. Como o meu corpo material individualiza em mim o modo de ser humano (de pertencer à espécie humana universal), o meu cão é capaz de conhecer apenas o que está individualizado, porque é o que ele é capaz de receber pelos sentidos. Nós também temos este tipo de conhecimento, quando, por exemplo, sentimos um cheiro que nos remete a algum lugar ou situação do passado, sem que possamos definir que cheiro é este. É um conhecimento, sem dúvida, mas um conhecimento concreto, condicionado ainda pelas circunstâncias de tempo e lugar em que foi assimilado. Por isto, o conhecimento intelectual, aquele que é propriamente espiritual, é tão mais perfeito quanto mais ele seja capaz de abstrair seu conteúdo das circunstâncias concretas de tempo e lugar nos quais foi adquirido. O conhecimento intelectual abstrai não somente da própria matéria (isto os animais também fazem, porque são dotados de conhecimento sensorial), mas abstrai também das próprias circunstâncias de tempo e lugar em que foi adquirido. Sei que dois mais dois são quatro, mesmo que não me lembre exatamente onde nem com quem aprendi isto.
Dentre os modos de conhecer, mesmo sensoriais, diz Tomás, há uma gradação; a visão, diz ele, seria o mais “espiritual” dos modos sensoriais de conhecer, porque pode perceber semelhanças e atingir seu objeto à distância, sem proximidade física. Ainda assim, é inferior a qualquer conhecimento intelectual, que independe de meios físicos para existir. A semelhança da visão com o conhecimento intelectual leva a nossa linguagem a designar de “visão espiritual” a capacidade de contemplar intelectualmente algum objeto de conhecimento.
Assim, o conhecimento se torna mais perfeito na medida que se torna mais espiritual, isto é, menos condicionado às circunstâncias concretas de tempo e lugar. Neste sentido, o nosso conhecimento humano é mais imperfeito do que o conhecimento angélico. Nós, humanos, sempre dependemos do conhecimento sensorial para chegar ao conhecimento intelectual, e nunca nos desligamos completamente das condições concretas de intelecção, quando precisamos pensar. Quando pensamos, por exemplo, num triângulo, sempre vem à nossa mente alguma imagem concreta de triângulo, mesmo que saibamos que a forma do triângulo é abstrata e universal. Os anjos não precisam da imaginação para contemplar.
Mas os anjos têm, em comum conosco, o fato de que seu conhecimento espiritual é, em primeiro lugar, recebido, não concebido. Por isto, mesmo nos anjos, o conhecimento é algo que se acrescenta à sua essência. Essencialmente, os anjos são entes espirituais criaturais, como nós somos entes espirituais corporais. Em nós e neles, o conhecimento é sempre, primeiro, recebido. Por isto é que dizemos que o conhecimento, em nós, é algo que se acrescenta à nossa essência. Portanto, não é pela essência que alma humana conhece. Nem os anjos.
Mas com Deus não é assim. Todas as coisas existiram nele, na mente divina, antes de existirem em si mesmas. E só existem em si mesmas, materialmente, porque Deus as criou. Portanto, as coisas estão contidas na essência de Deus antes mesmo de estarem em si mesmas. O que nos leva a concluir que somente em Deus é que conhecimento e essência coincidem: Deus conhece todas as coisas pela sua essência, porque ele as concebe e faz existir simplesmente por pensar nelas. Nenhum conhecimento, em Deus, é recebido ou adquirido de fora. Portanto, só Deus conhece tudo essencialmente, e conhece todas as coisas nas essências delas, porque nele é que tudo existe. Isto não pode ser assim nem para os anjos, nem para os seres humanos.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que, ao descrever o processo de aprendizagem, diz que, de alguma maneira, as coisas são absorvidas na nossa mente e formadas em nós, de tal modo que, como existem na natureza pela matéria, passam a existir em nós, em nossa alma, pela nossa alma mesma, que dá como que a “matéria” para que passem a existir em nós. Ora, quando as coisas passam a existir em nós, como que formadas pela nossa alma, o que lhes dá existência, portanto, é a essência de nossa alma, que funcionaria como um tipo de “matéria” da qual essas formas apreendidas se constituem para existir como aprendidas. Logo, é pela essência da alma que conhecemos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás dificilmente contestará de modo frontal a uma afirmação de Santo Agostinho, embora a concepção de aprendizagem e conhecimento de Santo Agostinho seja diferente da de Tomás.
No presente caso, Tomás nos ensinará que Agostinho está fazendo referência à imaginação, que depende da nossa memória para formar as imagens das coisas que conhecemos. Neste caso, a memória (como sabem os neurologistas de hoje) de fato tem uma base material, ou seja, depende do cérebro para armazenar fisicamente as informações recolhidas pelos sentidos. O nosso conhecimento intelectual depende sempre de recorrer a esta memória, chamada de “imaginação” porque se constitui das imagens recolhidas pelos sentidos, para viabilizar o conhecimento intelectual. Mas não é a alma quem fornece o “estofo”, a base material para a memória, mas o corpo humano mesmo – como sabemos hoje, é o cérebro quem retém essas imagens. Assim, o intelecto recorre às imagens, mas isto não significa que o nosso conhecimento intelectual venha da “essência” da alma. Mesmo porque os animais também têm esta capacidade limitada, material, de conhecer, que é o conhecimento por imagens concretas retidas na memória, embora eles não tenham, como nós temos, alma espiritual capaz de conhecimento intelectual.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor lembra que Aristóteles afirmou que a alma humana é, de certo modo, todas as coisas. Ou seja, temos, em nós, em nossa essência espiritual mesma, como que gravadas as imagens de todas as coisas, e é assim que conhecemos, conclui o argumento.
A reposta de Tomás.
Não podemos ler a frase de Aristóteles fora do contexto. Ele não estava querendo ensinar algum tipo de panteísmo da alma humana, nem mesmo estava querendo dizer, como disseram alguns filósofos mais antigos, que a alma seria capaz de conhecer por ser composta essencialmente dos mesmos princípios que todas as outras coisas. Ele estava simplesmente ensinando que a nossa alma possui uma abertura potencial para assimilar em si o conhecimento de todas as coisas. Ou seja, considerando que o conhecimento é uma assimilação espiritual, ela não ocupa espaço em nossa alma: somos espiritualmente abertos a receber, potencialmente, infinitos conhecimentos. Não se pode, portanto, ler a resposta de Aristóteles como se ele estivesse defendendo que a alma conhece por sua essência.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor também parece conter algum tipo de panteísmo, numa visão altamente hierarquizada dos seres.
De fato, o argumento diz que as coisas superiores contêm as coisas inferiores de um modo mais perfeito do que elas estão em si mesmas. Por exemplo, a pedra é corpórea, mas a planta contém a corporeidade da pedra e mais a vida vegetativa; portanto, tem uma corporeidade ainda mais perfeita do que a pedra. O animal possui a corporeidade da pedra e a vida vegetativa da planta, e ainda possui a sensorialidade. Por isto, a corporeidade e a vida vegetativa estão, no animal, de modo mais perfeito do que nos seus inferiores. O ser humano, por fim, possui tudo isto e mais a capacidade de conhecer intelectualmente. Logo, aquilo tudo que pode ser conhecido deve estar no ser humano de modo mais perfeito do que está em si mesmo, dentro dessa visão hierarquizada do ser. Logo, conclui o argumento, a alma humana tem, em sua essência mesma, tudo o que conhece, e é por ter as coisas em sua essência, de modo superior àquele pelo qual elas estão em si mesmas, que a alma humana conhece.
A resposta de Tomás.
Isto é verdade apenas para o conhecimento que Deus tem das coisas. Ele contém, em sua essência mesma, tudo o que as coisas são, foram e serão, de modo muito mais perfeito do que as coisas têm em si mesmas. O conhecimento de Deus causa as coisas, não é causado por elas. Por isto, conhecer, em Deus, é essência.
Mas em nós, que somos seres criaturais, finitos, determinados, limitados, o conhecimento é sempre causado, conquistado, adquirido, e não faz com que as coisas existam em nós melhor do que existem em si mesmas: ao contrário, todo conhecimento que temos é sempre incompleto e aperfeiçoável.
Por outro lado, o fato de que as perfeições superiores, como a vida comparada com a simples corporeidade das pedras, não significa que as pedras estejam nas plantas: cada coisa, embora tenha as perfeiçoes que tem, que englobam e superam as coisas inferiores, tem o seu ser determinado pelo seu gênero e espécie, e não por algum tipo de identidade hierárquica sucessiva.
4. Conclusão.
Não há dúvida de que o tema do conhecimento é um dos mais árduos na Suma. No próximo texto continuaremos nele, examinando o artigo terceiro desta questão.
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