1. Retomando.
Para nós, hoje, é muito difícil entender o que significa perguntar se “a alma conhece as coisas por sua essência”. Nossa visão das coisas – e nossa visão do processo de conhecimento, hoje em dia, torna esta pergunta incompreensível. Já não temos noções como essência, substância, acidente, já não conseguimos ver a lógica como instrumento de conhecimento das coisas, mas apenas como um ramo da matemática. Precisamos, pois, de algum tipo de preparação para abordar este debate.
De fato, na visão clássica, conhecer seria ter em si, na sua própria inteligência, algo do objeto de conhecimento. Não se tratava de ter um conceito, uma descrição, uma visão, nem mesmo a memória da aparência da coisa, mas de ter, em sua própria inteligência, algo da coisa mesma. Se a inteligência não possui algo da coisa, então ela não conhece a coisa, mas alguma noção, alguma aparência, algum conceito, algum nome; estaríamos inteiramente isolados do mundo exterior, em nossa mente. E algumas filosofias do nosso tempo pregam justamente isto. Não era assim no tempo de Tomás.
Aqui entra o debate: como pode ser que algo da coisa esteja em nós? Será que a essência de nossa alma tem a capacidade de transformar-se, de algum modo, naquilo que conhecemos? Quando olhamos, por exemplo, para um pequeno pedregulho, será que a essência de nossa alma vira pedra, ao conhecer a pedra? É este o debate que estamos acompanhando, e é isto que Tomás vai esclarecer agora.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Os inícios da filosofia grega.
No início da filosofia grega, os velhos pensadores se encontravam com o seguinte problema: como é possível explicar que nós conheçamos as coisas que estão no mundo? A solução que pensaram seria a de que as coisas existem no mundo, e devem, de algum modo, existir em nossa mente também. Assim, a nossa alma deveria ser feita da mesma coisa da qual as coisas são feitas no mundo, pois elas se formam tanto no mundo quanto em nossa alma. Assim, quando nós olhamos e contemplamos uma árvore, por exemplo, esta árvore deve surgir em nossa alma exatamente como ela existe no mundo. Portanto, imaginavam eles, se as coisas existem materialmente no mundo, então a nossa alma, em sua essência mesma, devia ter algum tipo de estrutura que permitisse que as coisas existissem materialmente em nós. A pedra que conhecemos como coisa material passaria a existir em nossa alma como coisa material. Assim, pensavam eles, a essência da alma seria algum tipo de matéria-prima capaz de ir se transformando nas coisas que ia progressivamente conhecendo.
O pensamento de Platão.
É certo que Platão e seus seguidores perceberam que seria absurdo imaginar que, ao conhecer as coisas, elas surgissem materialmente dentro de nós. Não faz sentido que estivéssemos a carregar em nossa alma as árvores, as montanhas, as estrelas e assim por diante, ou seja, não seria mesmo possível. Então Platão propôs que, uma vez que as coisas deveriam existir em si mesmas e, de algum modo, em nossa alma, e uma vez que nossa alma é essencialmente espiritual, então as coisas deveriam ser, também, essencialmente espirituais em si mesmas; portanto, aquelas coisas materiais com que nos deparamos não seriam as coisas verdadeiras, mas apenas sombras, cópias malfeitas das verdadeiras coisas, que existiriam espiritualmente num lugar ideal; as coisas, portanto, existiriam espiritualmente num reino das ideias, mais real e fundamental do que o mundo material, e também existiriam espiritualmente em nossa alma. Nosso conhecimento, portanto, segundo Platão, não nasce do contato com as coisas; elas apenas servem para nos lembrar de um conhecimento que já está gravado na própria essência espiritual de nossa alma, desde antes que nascêssemos. Portanto, para negar que as coisas existissem materialmente dentro de nós, Platão foi obrigado a negar que a existência material das coisas fosse o modo mais real de sua existência, e defendeu que elas existem mais realmente num reino espiritual transcendente e na nossa alma do que aqui no nosso universo material.
Os princípios do universo.
Se, por um lado, perceber que há uma dimensão espiritual nas coisas e em nós foi uma grande conquista do platonismo, por outro a simples negação da consistência das coisas materiais não parece uma solução aceitável. Por isto, os filósofos continuaram especulando sobre qual seria o princípio do universo (“arché” da “physis”), porque, se houver algum princípio que seja responsável pela existência do próprio universo e constitua também a essência da alma, estaria resolvido o problema do conhecimento. A ideia é a de que o semelhante existe do mesmo modo que o semelhante, e, portanto, se o mesmo princípio forma as coisas e a alma, explicado está o conhecimento.
Assim, alguns filósofos afirmaram que a água seria o princípio de tudo. Todas as coisas seriam feitas de água. À água seria a essência de tudo. Assim, a pedra é feita, essencialmente, de água, e a nossa alma também é feita essencialmente de água. Portanto, a pedra existe como água na natureza e existe como água em nossa alma. Houve quem propusesse que este princípio seria o fogo, e todas as coisas seriam essencialmente feitas de fogo, e a nossa alma também. Houve quem propusesse que seriam quatro elementos (fogo, terra, ar e água), além de duas forças (amor e ódio) que explicariam o universo (e também a nossa alma). Assim, todo o conhecimento (inclusive o conhecimento sensorial) nada mais é do que as próprias coisas existindo na natureza e na alma, já que a própria alma, em sua essência, é constituída pelos mesmos princípios que a natureza.
Conhecimento não é mera semelhança física.
Não é possível concordar com esta ideia de que o conhecimento é simplesmente uma espécie de existência que duplica, em nossa alma, a mesma existência que as coisas têm em si mesmas. E há muitas razões pelas quais esta concepção seria absurda.
Ainda que seja possível admitir que todas as coisas são constituídas por princípios (e de fato o são), as coisas estão nos princípios apenas potencialmente, não atualmente. Vamos pensar num exemplo; tomemos um diamante. O princípio químico do diamante é o carbono. De fato, o diamante é composto de uma determinada matéria (o carbono) estruturada sob determinada forma (ligações altamente estáveis) que o caracterizam. Por isto, o carbono pode formar diamantes, se submetido a temperaturas e pressões extremas. Mas nem todo carbono é diamante. Se eu tenho em minhas mãos, digamos, um pedaço de carvão vegetal próprio para fazer churrasco, eu tenho a matéria que é princípio do diamante (o carbono), mas o diamante está ali apenas potencialmente, isto é, este material tem a potência, a capacidade de formar carbono, mas ainda não é, atualmente, um diamante.
Ora, se eu quiser conhecer de fato o que é um diamante, não adianta estudar o carvão de churrasco. Uma vez que ele não é atualmente um carbono, embora tenha a potencialidade de virar um, ele não pode me ensinar nada sobre os diamantes. Apenas o que é atual pode gerar conhecimento; e os princípios são sempre e apenas potenciais. Eu nem sequer saberia que algo é um princípio, ou seja, que está em potência para alguma coisa, se eu não conhecesse aquela coisa em ato. É preciso estudar um diamante em ato para saber que o carbono é um dos seus princípios.
Assim, mesmo que imaginássemos que um único elemento, ou ainda quatro elementos fundamentais, ou mesmo a tabela periódica inteira, constituíssem a essência da alma humana e também a essência de todas as coisas, isto não seria suficiente para determinar que a alma humana conhecesse as coisas. Porque as coisas não são formadas apenas pelos princípios materiais, mas também pelo modo pelo qual esses elementos se estruturam, ou seja, por aquilo que os gregos chamavam de “forma”. Seria necessário, pois, que nós, humanos, tivéssemos, dentro de nós, a matéria e a forma de todas as coisas que existem no universo, ao conhecê-las. Ou então só poderíamos conhecer coisas como ossos, músculos e sangue, que são as estruturas que nos formam. Mas, como podemos perceber, não é pelo fato de que somos formados de ossos, carne, pele e sangue que determina que conheçamos alguma coisa sobre ossos, carne e sangue e assim por diante. Não é, portanto, o fato de que alguma coisa existe em nós em matéria e forma que torna esta coisa conhecida para nós.
Se o simples fato de haver identidade de matéria e forma entre duas coisas fosse determinante para fazer surgir o conhecimento, então a água conheceria a água, o fogo conheceria o fogo, e assim por diante. Portanto, este princípio de que somente o semelhante conhece o semelhante, embora seja verdadeiro, não é suficiente: não basta ser semelhante para conhecer. O conhecimento pressupõe outra coisa além da semelhança. E esta outra coisa é a capacidade de receber a semelhança de um modo imaterial!
3. Breves palavras de encerramento.
O que estávamos a dizer é: conhecer é possuir as semelhanças das coisas conhecidas, mas possuí-las não materialmente, mas imaterialmente.
Vale, aqui, fazer uma pequena advertência: possuir a semelhança não é ter alguma informação, ou uma noção, ou uma figura, mas assimilar a própria estrutura da coisa, a própria forma universal e abstrata da coisa, em si, espiritualmente.
Mas este é um assunto que precisa ser aprofundado. Veremos isto mais detalhadamente no próximo texto.
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