1. Introdução.
Quando nós estudamos a parte da Suma Teológica que trata dos anjos, fizemos uma descoberta interessante: os anjos não aprendem; eles já são criados com todo o conhecimento intelectual que precisam. Eles já sabem. A própria essência da alma angelical traz em si o conhecimento das coisas criadas. Por isto, para se relacionar com algum objeto, o anjo olha para si, para sua própria alma, porque ele tem, em si, este conhecimento, do qual foi dotado pelo próprio Criador. O problema está, aqui, na alma humana: como podemos saber? Como pode acontecer que as coisas possam ser assimiladas por nossa inteligência?
Como veremos neste artigo, a solução passa por uma reta compreensão do que é conhecer. Se conhecer é ter as próprias coisas assimiladas em nossa alma, então é necessário que haja alguma similaridade entre as coisas e a nossa alma. Isto poderia implicar, então, que esta similaridade é algo da essência da alma: ela é, em si mesma, similar a tudo o que existe e, por causa disto, conhecer as coisas é, de certo modo, conhecer a própria essência da alma. Então, de carto modo, nossa alma intelectual seria similar à dos anjos: já teria em si todo o conhecimento, antes mesmo de nascer para este mundo. Esta é a concepção que vamos debater neste artigo, no caminho de descobrir o que significa, de fato, conhecer. Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida, que é proposta logo no início para provocar o debate, é a de que o conhecimento das coisas materiais por nossa alma intelectiva ocorre porque a essência de nossa alma já tem, em sua essência mesma, a semelhança de todas as coisas, de tal modo que conhecer é simplesmente relembrar, acessar a própria essência da nossa alma. Há três argumentos iniciais que tentam fundamentar e comprovar esta hipótese.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor vai citar Santo Agostinho que, na obra sobre a Trindade, descreve o processo de aprendizagem assim: a alma recolhe as imagens das coisas corporais e se apossa delas, assimilando-as a si mesma por si mesma, ou seja, formando-as em si mesma da sua própria substância. É como se aquela flor, que existe materialmente na natureza, ao ser conhecida passasse a existir em mim, mas formada pela substância da minha alma mesma. Ora, só podemos conhecer as coisas porque elas se tornam similares à alma, ou a alma se torna similar a elas, de modo que uma se torna da mesma substância que a outra. Portanto, esta similaridade implica dizer que a essência mesma da alma forma, em si, a similaridade com as coisas conhecidas. Logo, é pela sua essência mesma que a alma conhece as coisas.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento traz Aristóteles, que, na obra Sobre a Alma diz que “a alma é, de certo modo, todas as coisas”. Ora, se a alma é, de certo modo, todas as coisas, e se o conhecimento consiste, justamente, em assimilar em si todas as coisas, então todas as coisas que existem no mundo, ao serem conhecidas por nós, são constituídas em nossa alma mesma. Assim, é por sua essência, que possui em si a similaridade de todas as coisas conhecidas, que a alma conhece as coisas do mundo.
O terceiro argumento objetor.
Aqui, lembramos que a alma humana é a estrutura mais complexa do mundo material. Assim, de certo modo, pode-se dizer que ela contém em si todas as coisas inferiores e as supera: nós, humanos, temos em nós a matéria inerte das coisas inanimadas, a vida vegetativa das plantas, a vida sensorial dos animais e a inteligência própria aos anjos. Portanto, na nossa superioridade estrutural, trazemos em nós, impressos em nossa essência, tudo o que nos é inferior. Portanto, de certo modo, as coisas que estão em nossa alma, por serem inteligidas, estão num lugar ainda mais nobre do que aquele corpo material pelo qual existem na natureza, fora de nós. Assim, a essência de nossa alma, pela sua nobreza, conhece em si todas as coisas, que existem na alma de modo mais perfeito do que existem no mundo natural, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra também vai buscar em Santo agostinho um apoio para negar que a alma conheça todas as coisas em sua essência mesma. Se as coisas conhecidas existissem na alma, por sua essência mesma, então teríamos que imaginar que as coisas conhecidas têm as mesmas propriedades, tanto no mundo natural quanto na alma. É como se a alma fosse alguma espécie de “matéria-prima” na qual as coisas passassem a existir, quando assimiladas pelo conhecimento.
Ocorre que a alma conhece as coisas naturais (que a interpelam) valendo-se dos sentidos, que as exploram, que obtém sobre elas as informações que serão, depois, assimiladas pela alma como conhecimento intelectual. Ocorre que os sentidos não podem vir a conhecer a própria alma; assim, se as coisas conhecidas existissem na alma pela própria essência da alma, seria possível aos sentidos entrar em contato com a própria alma, tocar as coisas conhecidas, cheirá-las, vê-las e assim por diante. Portanto, o modo pelo qual as coisas chegam até a alma, mediado pelos sentidos, e o fato de que o conhecimento intelectual que há na alma não pode ser percebido pelos sentidos parece revelar que a essência da alma e a essência das coisas conhecidas não é a mesma, e que as coisas conhecidas não estão na alma por sua essência, mas de algum outro modo, conclui o argumento.
5. Palavras de encerramento.
Este debate parece muito estranho para nós. Mas ele tem uma enorme profundidade, porque diz respeito ao modo pelo qual as coisas que conhecemos existem de fato em nós. Quando conheço uma flor, eu de fato conheço a flor, não uma imagem de flor, nem um conceito de flor, mas a flor mesma. Para explicar este fato, muitos propuseram que, de algum modo, a flor, quando conhecida, passa a existir em mim como que incorporada na minha alma. É por isto, por exemplo, que Platão imaginava que não conhecemos diretamente as coisas materiais, mas um “mundo de ideias” que existe no além e que existe também em nossa alma. Tudo isto nos coloca alheios ao mundo, estranhos às coisas, incapazes de contemplar. É verdade que as coisas conhecidas existem no mundo natural e existem também em nossa alma. Mas não do mesmo modo, nem por alguma “incorporação” ou “transmutação” da alma, nem pela assimilação de “puras formas” ideais. Como isto se dá, é o que veremos no próximo texto.
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