1. Retomando o tema.

Existe alguma ira espiritual? Existe alguma concupiscência espiritual? Será que toda ira e toda concupiscência são paixões sensoriais, ou seja, reações àquilo que nos afeta sensorialmente, com alteração de nossas funções biológicas?

Não podemos negar as paixões, elas existem e fazem parte de nós; e, como já debatemos, elas não são más em si, mas devem ser guiadas pela razão, e não o contrário. Por outro lado, sabemos que há uma alegria que não nasce dos sentidos, que é a alegria no Espírito Santo, a plenitude decorrente da contemplação espiritual. Existe, também, uma ira que não nasce dos sentidos, que é a ira contra tudo que se rebela contra Deus. A pergunta que estamos debatendo aqui não quer negar estas realidades, mas apenas determinar se elas determinam uma divisão na vontade, como ocorre na alma sensorial. É a mesma vontade, em sua unidade, que pode se alegrar e irar, ou devemos imaginar subdivisões na vontade, de tal modo que a capacidade espiritual de irar-se seja diversa da capacidade espiritual de alegrar-se?

A importância desta discussão é enorme. De fato, na Ética a Nicômaco, Aristóteles já reconhecia (Livro I, capítulo 13) que há, em nós, potências que, embora não sejam estritamente intelectuais, são capazes de participar de algum modo da razão, e sobre elas incidem as virtudes morais. Quer dizer, virtudes morais são aquelas que envolvem a alma sensorial e a dominam, dirigindo-a. Por outro lado, a alma intelectiva está sujeita às virtudes intelectuais em sentido estrito; vale dizer, a alegria e a ira que podemos vivenciar intelectualmente têm referência direta com a sabedoria que nos aperfeiçoa a racionalidade.

Mas tudo isto será debatido na segunda parte desta primeira parte da Suma, e estamos nos adiantando. Voltemos, então, ao tema da unidade da vontade, examinando as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor vai justamente no sentido de reconhecer que há uma ira e uma alegria que são puramente espirituais, e que, portanto, devemos identificar, na vontade, como apetite intelectual, uma subdivisão numa potência volitiva irascível e outra concupiscível. Segundo o argumento, a própria Bíblia testemunha que há uma alegria estritamente espiritual, e portanto intelectual, quando diz, em Sabedoria 6, 20: O desejo da sabedoria conduz ao Reino eterno. Ora, esse desejo leva à felicidade espiritual, e, portanto, pertence à vontade e não à sensualidade. Trata-se, portanto, de uma concupiscência da vontade, não do apetite sensorial.

Além disso, prossegue o argumento, São Jerônimo nos exortava a desenvolver um verdadeiro ódio ao pecado, aos vícios, e este ódio, esta ira que nos impulsiona para longe do mal, é essencialmente intelectual. Assim, há fundamento para declarar que há um concupiscível e um irascível na vontade, e não somente no apetite sensual, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Mais uma vez, Tomás vai fazer uma de suas maravilhosas distinções, fundamentadas na analogia, que permitirão compreender e vencer a ambiguidade das expressões “ira” e “concupiscência”, quando relacionadas com o intelecto e a vontade.

De fato, a ira e a concupiscência, como paixões que envolvem as emoções, são fenômenos sensoriais e corporais. Envolvem a experiência de ser afetado por estímulos sensoriais advindos de fora e são, neste sentido estrito e literal, fenômenos sensoriais. Portanto, estão propriamente no apetite sensorial.

Mas, num sentido analógico, também podemos ser afetados por realidades puramente espirituais; neste sentido, há afetos puramente espirituais, como a alegria de encontrar-se com Deus ou a ira contra o maligno, que não são sensíveis fisicamente, mas que envolvem o nosso espírito, causando nele alegria ou ódio. Neste último caso, porém, como vimos na resposta sintetizadora no último texto, a capacidade que a vontade tem de lidar com o bem em sua dimensão universal faz com que ela não precise se dividir para lidar com o amor e o ódio, como acontece com o apetite sensual. É que a sensualidade só consegue lidar com o bem sob uma razão particular, e, portanto, precisa de uma potência para lidar com a ira e outra para lidar com a concupiscência. O que não ocorre com a vontade, que lida com essas duas afecções por si mesma.

O segundo argumento objetor.

O argumento lembra que é um conhecimento comum, é um ditado popular que a caridade envolve a concupiscência, porque desperta o amor, e a esperança é uma realidade irascível, porque traz a força para enfrentar os obstáculos no caminho até a santidade.

Ora, tanto a caridade quanto a esperança são virtudes teologais, e portanto aperfeiçoam o intelecto. Ambos têm por objeto o próprio Deus, que não é um objeto para os sentidos, mas para o intelecto. Portanto, se estas virtudes aperfeiçoam o intelecto, e incidem sobre o concupiscível e o irascível, devemos concluir que há uma potência concupiscível e uma potência irascível na própria vontade, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Na verdade, diz Tomás, a vontade mesma é que se inflama de ira contra o mal, enfrentando-o em razão da virtude da esperança, ou se inclina de amor pelo bem, pela virtude da caridade. Ela não se divide para ter estas posturas, mas estas reações estão dentro do âmbito de sua capacidade. Portanto, há uma ira e um amor dentro da própria vontade, que não a dividem, mas levam-na a posturas diferentes em cada contexto. É a estas reações da vontade, movidas pela intelecção do bem e do mal, que as pessoas costumavam chamar de irascível e concupiscível da vontade, por analogia.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento cita aquela obra tão popular no tempo de Tomás, e da qual ele não gosta: o livro “Do Espírito e da Alma”. Nesta obra, há uma ideia da preexistência da alma humana, com relação ao corpo; e mais, a obra diz que, mesmo antes de se juntar ao corpo, a alma já tem as potências irascível e concupiscível. Assim, o argumento conclui que a potência irascível e concupiscível não são da esfera sensorial, que depende do corpo, mas da esfera intelectiva, que independe dela.

A resposta de Tomás.

Tomás não concorda que a alma possa existir antes do corpo, e não vê autoridade neste livro. Mas ele sabe que as capacidades intelectivas independem do corpo, não no sentido de que existam antes dele, mas no sentido de que funcionam para além dele, dominando-o.

3. Conclusão.

Estudamos, então, a estrutura da potência apetitiva intelectual, ou seja, a vontade; a partir do próximo texto, estudaremos a questão 83, que diz respeito ao livre arbítrio; ainda envolve, portanto, a questão profunda da liberdade. São textos muito importantes para o estudo da ética.