1. Introdução.
A discussão, aqui, diz respeito àquilo que, classicamente, era chamado de “paixões”, ou seja, nosso modo de reagir aos estímulos externos. Vimos que, na nossa esfera sensorial (que compartilhamos com os animais) temos duas potências, que nos levam a reagir diferentemente aos estímulos que recebemos. Aqueles estímulos sensíveis que nos atraem incondicionalmente despertam em nós a inclinação concupiscível, como aquela do animal faminto que se depara com alimento fresco e abundante. Por esta potência, somos incondicionalmente inclinados ao objeto dos nossos sentidos.
Mas há um outro tipo de estímulo, que nos afasta, que nos inclina a fugir ou lutar, ou seja, que desperta em nós uma inclinação de ira. A esta potência, que nos leva a reagir a um estímulo desagradável, de modo a superá-lo para atingir o bem do qual ele é um obstáculo, chamamos de potência irascível. A pergunta é: esta subdivisão do apetite sensorial se repete no apetite intelectual, que chamamos de “vontade”? A vontade se subdivide numa “vontade irascível” e uma “vontade concupiscível”?
Veremos agora a resposta de Tomás a estas perguntas.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
O irascível e o concupiscível, como potências de nossa alma, estão apenas no apetite sensorial ou sensual; a vontade não tem esta subdivisão. Há apenas uma potência apetitiva intelectual indivisa, que é a própria vontade. E isto se dá, diz Tomás, porque as potências capazes de se relacionar com um objeto comum não se subdividem quando este objeto varia. O que isto quer dizer?
Vamos imaginar um aparelho capaz de fotografar, digamos, apenas as coisas azuis. Se precisássemos fotografar alguma coisa amarela, precisaríamos de um outro aparelho fotográfico.
Mas se tivéssemos uma máquina fotográfica capaz de registrar todas as cores, não precisaríamos de outros aparelhos. Apenas ela seria suficiente para tirar fotografias de tudo que fosse visível, independentemente de ser desta ou daquela cor.
Assim, as potências que são capazes de se relacionar com seu objeto de forma geral não se subdividem quando o objeto se subdivide. Nossa visão é capaz de identificar todo o espectro de cores, e, portanto, temos apenas um sentido da visão.
No entanto, a potência do apetite sensorial não é assim. Observando a relação do apetite sensorial com o bem, vemos que ele somente é capaz de identificar as coisas boas sob um único aspecto, ou seja, ele é atraído por objetos que se apresentam como bons sob apenas um aspecto. Deste modo, quando este bem se apresenta diretamente (um alimento, um parceiro sexual disponível), há uma potência ou capacidade que nos dirige diretamente a este bem. Mas quando o bem se apresenta sob um obstáculo ou ameaça, há uma outra capacidade em nós, que nos levará a fugir ou enfrentar aquilo que é mau, e que se apresenta como obstáculo ou impedimento ao bem. O objeto, aqui, é diferente, e não está sob a mesma razão; uma é a razão que nos dirige a desfrutar um bem que nos atrai; outra, a razão que nos leva a reagir a um mal que nos ameaça ou paralisa. Logo, isto determina a existência de mais de uma potência na esfera do apetite sensorial ou sensualidade. É por causa desta divisão que é tão fácil apanhar os animais em armadilhas, com iscas e outros atrativos: como eles não conseguem julgar as diversas razões de bem e mal numa dada situação, são presa fáceis para armadilhas que atraem seu concupiscível, em situações que deveriam despertar, ao invés, o seu irascível.
Mas a vontade não é assim. Ela consegue avaliar o bem, que é seu objeto, sob uma razão universal, e não apenas pela sua dimensão concreta e sensível. Animais famintos não fazem jejum por motivos religiosos ou culturais. Mas o ser humano, por ser inteligente, é capaz de perceber, por exemplo, no alimento, mais do que simplesmente o bem de saciar sua fome. Ele pode, por exemplo, rejeitar um belo pedaço de carne, mesmo estando faminto, porque é sexta-feira e ele é católico, sendo convidado a abster-se de carne neste dia. Assim, um bem que, para a sensibilidade, é concupiscível, pode levar a uma inclinação oposta da vontade. Um outro exemplo seria a presença de um parceiro sexual disponível: a vontade pode inclinar-nos ao afastamento, à negação da relação, pela ausência doo sacramento do matrimônio ou por algum voto de castidade, ali onde o concupiscível nos levaria a buscar a satisfação da inclinação reprodutiva. Ou ainda, durante uma guerra, o sotaque característico do inimigo pode levar-nos a descobrir um espião, despertando nossa repulsa contra alguém que, por estar vestindo o uniforme do nosso exército, não parecia ser, à primeira vista, um inimigo, e não despertou reações irascíveis em nossa sensibilidade.
É interessante notar que, na esfera do sensorial, a nossa capacidade de aprender se subdivide em diversas potências sensoriais diversas, de conformidade com seus objetos particulares; assim, a verdade da cor é objeto de nossa visão, a verdade do aroma, do nosso olfato e assim por diante. Mas, na esfera intelectual, uma vez que nosso intelecto busca a verdade sob uma razão universal, nossa apreensão não se subdivide em várias potências, mas está unificada num único intelecto que tem a verdade universal como objeto, e, por isto, é capaz de inteligi-lo sob todas as razões de verdade. De modo similar, a sensualidade, por buscar o bem sob razões particulares, pode ser subdividida em potências apetitivas diferentes, conforme se depare com um objeto que atraia ou outro objeto que repugne. Mas a vontade, que tem por objeto o bem sob a razão universal, e pode, portanto, avaliar seu objeto sob diversos pontos de vistas de bondade ou maldade, não se multiplica em diversas potências apetitivas. A vontade é uma só.
3. Encerrando.
No próximo texto, enriqueceremos nossos conhecimentos com a análise das respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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