1. Introdução.

Vimos, então, esta relação entre o objeto do intelecto, que é o verdadeiro universal (ou seja, a nossa tendência a conhecer tudo sobre tudo, verdadeiramente), e que nos move como causa final, por um lado, e o objeto da vontade, que é o bem universal (isto é, tudo o que é bom, sob a razão do bem mais alto e mais completo, nos atrai, e não estaremos satisfeitos enquanto não possuirmos todo o bem), que nos move como causa eficiente.

A discussão, agora, diz respeito a distinguir, em nós, as reações sentimentais, próprias do apetite sensorial (que nos toca como animais, e que compartilhamos com os animais), das reações inteligentes da vontade, que é o apetite intelectual.

Sabemos que o apetite sensorial reage com dois padrões básicos, que são os dois padrões de reação passional em nós: a ira e a concupiscência. A ira diz respeito àquele objeto do apetite sensorial que, para ser obtido, demanda lutar contra o mal, a ameaça, o obstáculo; a ira nos leva, por exemplo, a enfrentar o lobo para salvar um bebê. A concupiscência, por outro lado, não é, como pensamos muitas vezes, sinônimo de “pecado”; é simplesmente a inclinação sensível aos objetos que são necessários ou convenientes à nossa sobrevivência e ao nosso desenvolvimento. A concupiscência não é pecado, apenas a desordem da concupiscência o será. Assim, a concupiscência nos inclina ao alimento que nos mantém, e o pecado nos leva à gula. A concupiscência nos inclina ao ato sexual que nos une e perpetua, mas a luxúria nos leva ao pecado de instrumentalizar o outro para nossos próprios prazeres desordenados e pecaminosos.

A pergunta é se estas duas ordens de reação, estes dois padrões de inclinação sensível, que são a ira e a concupiscência, encontram-se também em nossa vontade, ou se são próprios apenas do apetite sensorial. Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, aqui, é a de que aquela divisão das potências do apetite sensorial, que denominamos de ‘irascível” e “concupiscível”, também existiria no apetite intelectual que chamamos de “vontade”: isto é, também a potência intelectual da vontade seria subdividida numa “vontade irascível” e numa “vontade concupiscível”, conforme seu objeto despertasse, em nós, a ira ou o amor. Há três argumentos no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que a ideia de uma “apetite sensorial irascível” decorre do fato de que, às vezes, o objeto de nossa inclinação sensível nos provoca a ira, vale dizer, a inclinação a enfrentar, a lutar ou a adotar alguma estratégia para sobreviver ao perigo, enquanto o apetite sensorial concupiscível nos leva a desejar, amar, apropriar-nos do seu objeto, que nos é necessário ou útil à sobrevivência ou ao nosso desenvolvimento, como o alimento, a atividade sexual ou mesmo o lugar seguro e aprazível para o repouso.

Ora, prossegue o argumento, existe também uma concupiscência intelectual, como o nosso amor pela sabedoria, que inclina nossa vontade a amá-la e persegui-la, conforme testemunha a Escritura Sagrada, no Livro da Sabedoria 6, 20: “Assim o desejo da sabedoria conduz ao Reino!”.

Há, igualmente, diz o argumento, uma forma de ira que não pertence apenas à esfera sensorial da nossa alma, mas envolve a nossa vontade, conforme testemunha São Jerônimo. Este santo nos aconselha a possuir um verdadeiro ódio aos vícios, no irascível. Ora, os vícios são perversões das virtudes, e, portanto, envolvem o intelecto. Assim, este seria um ódio intelectivo, e não apenas sensorial.

Assim, também na vontade existiria concupiscência e ira, e não apenas na esfera sensorial, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra das chamadas virtudes teologais, que existem em nossa inteligência e em nossa vontade, mas não em nossa esfera sensorial.

Sabemos, diz o argumento, que a virtude da caridade, que é o amor divino em nós, é um tipo de concupiscência, porque nos leva a amar o bem de Deus no outro. Por outro lado, a virtude teologal da esperança desperta em nós o ódio ao mal e a ira contra tudo que pode nos afastar da vida eterna, que esperamos.

Assim, a nossa vontade também possui uma potência irascível e uma potência concupiscível, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor vai citar, como autoridade, um livro que era muito popular naquela época mas, como já vimos em outros debates, Tomás não admirava e não defendia, mas, ao contrário, tinha muitas ressalvas; era a obra “Do Espírito e da Alma”. Neste livro, está dito que a alma, independentemente do corpo, tem em si as potências irascível e concupiscível, que, portanto, não dependem do corpo para existir. Ora, todas as potências sensoriais dependem do corpo para existir, mas as potências intelectuais existem independentemente do corpo. Logo, o argumento conclui que as potências irascível e concupiscível são existentes na nossa vontade, que é o apetite intelectual, e não na sensualidade, que é o apetite sensorial.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita São Gregório Niceno, que nos ensina que a parte irracional da alma está dividida em concupiscível e irascível, e, no mesmo sentido, é o que nos ensina também São João Damasceno. Isto também é o que ensina Aristóteles, que, no Livro III da obra Sobre a Alma, diz que a vontade está na razão; o que está na parte irracional da alma é a concupiscência, além da ira e do ânimo. Assim, o argumento conclui que a ira e a concupiscência não estão na vontade, mas na parte sensorial.

5. Encerrando.

Colocados os termos do debate, debateremos, no próximo texto, a concepção de Tomás sobre este assunto. Que é muito interessante, porque tem implicações éticas óbvias, e nos ajudará a organizar nossa própria existência.