1. De volta.

Vimos, então, a função de governo, como causa eficiente universal, que a vontade tem, em nós, similar àquela que o governante exerce na sociedade: é pela sua coordenação que mantemos a nossa própria unidade existencial. É assim que ela move nosso intelecto para que busque seu próprio bem, conhecendo aquilo que, mais convenientemente, nos conduzirá ao nosso fim e dará sentido ao nosso agir.

Agora examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor parte da ideia de que aquilo que causa o movimento, ou seja, o motor (filosoficamente falando) é mais importante e anterior, logicamente, àquilo que é movido, ou seja, que recebe passivamente o empuxo do movimento. De fato, aquilo que é capaz de doar empuxo, de transformar as outras coisas, é prioritário, mais perfeito e mais rico, existencialmente, do que aquilo que simplesmente é levado, é conduzido, é movido.

Ora, prossegue o argumento, o intelecto é prioritário com relação à vontade, e ocupa o lugar de destaque na hierarquia das capacidades humanas, como vimos no artigo anterior desta mesma questão 82.

Logo, o intelecto deve se comportar como motor, e não como movido, porque é mais perfeita do que a vontade. Portanto, é o intelecto que move a vontade, e não o contrário, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Aqui, mais uma vez, Tomás, como excelente professor que é, fará uma de suas distinções tão esclarecedoras. De fato, uma das maiores fontes de confusão, em filosofia, como em teologia e em todos os aspectos da vida, é quando não percebemos que uma noção pode ter mais de um sentido, e imaginamos que ela é unívoca. Muitas vezes não é. Outras vezes, ela tem sentidos análogos, ou mesmo mais de uma ótica a ser considerada. É o caso da noção de “intelecto”.

Podemos considerar o intelecto sob dois pontos de vista diferentes, diz Tomás.

1) Sob o primeiro ponto de vista, e sob uma visão mais abstrata, o intelecto é definido como aquela capacidade apreensiva humana capaz de interessar-se pelos entes universalmente, e mesmo pela universalidade dos entes, e até mesmo pela verdade universal, ou seja, pela inteligibilidade que fundamenta a própria realidade na qual estamos inseridos. É por ser dotado de intelecto que o ser humano se abre ao conhecimento da realidade como um todo.

2) Sob uma visão mais concreta e particular, o intelecto é uma capacidade da qual cada ser humano é dotado, e que está, em cada um de nós, em potência para o conhecimento concreto. Ou seja, nosso intelecto particular está, em nós, como uma página em branco (tabula rasa) que vai sendo escrita quando vamos conhecendo concretamente as coisas que nos cercam. Aqui, o intelecto é visto como uma capacidade individual de conhecimento que passa progressivamente da potência ao ato na medida que vamos conhecendo os objetos que nos interpelam pela vida afora.

Também a vontade pode ser descrita sob estes dois pontos de vista.

1) Por um lado, abstratamente, ela se abre ao bem comum, ou seja, à totalidade do bem, ao bem capaz de preencher todas as inclinações sob todos os aspectos. A vontade humana se inclina, portanto, ao bem universal.

2) Por outro lado, concretamente, ela é uma potência presente em cada indivíduo, capaz de desejar o bem presente em cada objeto apresentado a ela, e seu ato consiste em nos mover até este bem concreto com o qual nos deparamos em nosso cotidiano.

Assim, sob a primeira razão acima (o intelecto em sua abstração, comparado com a vontade em sua abstração), o intelecto é mais elevado e tem prioridade sobre a vontade.

Ainda quando consideramos o intelecto como capacidade humana abstrata, por um lado, e a vontade como potência humana concreta e individual, por outro, percebemos que a inteligência é mais elevada e tem prioridade sobre a vontade. Porque a inteligência tem, dentre suas capacidades, a capacidade de conhecer a vontade, saber como ela funciona, notar que ela se inclina para o bem e, portanto, apreender e assimilar a verdade da vontade como algo que é. Do mesmo modo que é capaz de apreender o que é uma pedra, o que é a madeira, a inteligência é capaz de aprender o que é a vontade e o que é o bem ao qual ela se inclina. A inteligência humana, como uma capacidade abstrata do próprio ser humano, tem por objeto o ente e sua verdade, e, portanto, inclui, em seu objeto, a capacidade de conhecer a vontade e seu objeto, o bem.

Mas, se consideramos a vontade do ponto de vista abstrato, universal, por um lado, e, pelo outro, o intelecto concreto de algum indivíduo humano, então vemos que este intelecto tem, por objeto, conhecer a verdade do ente. Podemos, dizer, então, que o intelecto, em concreto, é uma potência humana com um bem próprio, especial, que é o conhecimento da verdade. Ora, neste caso, a vontade, sendo aquela capacidade que leva cada potência a seu próprio bem, dirige o intelecto, como potência concreta, a seu bem, que é a verdade. Assim, se tomamos a vontade em sua universalidade e o intelecto em sua concretude, vemos que a vontade tem prioridade sobre o intelecto, porque é capaz de conduzir o intelecto a seu fim, a seu bem, que é conhecer a verdade. Sob este prisma, a vontade pode mover o intelecto, e de fato o faz.

Assim, não podemos esquecer que o bem e a verdade são transcendentais do ser, isto é, são o próprio ente visto sob determinadas razões. A verdade é o ente visto sob a razão do conhecimento, e o bem é o ente visto sob a razão do desejo. Neste caso, podemos dizer que a verdade é um certo bem, já que ela é o bem do intelecto. E o bem é uma certa verdade, já que ele é a verdade da vontade. Temos vontade de conhecer intelectualmente a verdade do bem que desejamos, como desejamos aquilo que nossa inteligência apresenta a nós, verdadeiramente, como bem. Por isto, tanto o intelecto pode conhecer a vontade e apresentar-lhe a verdade do bem, quanto a vontade pode dirigir o intelecto para o conhecimento daquele bem ao qual se inclina.

O segundo argumento objetor.

Aqui, ainda estamos no campo dos moventes (motores) e dos movidos. Normalmente, por sua própria essência, é o motor que deve mover o movido; apenas por acidente é que o movido move o motor. Pensemos num automóvel: o motor do automóvel existe para movê-lo; acidentalmente, o motor está fixado no automóvel e pode mover-se com ele, mas, se pensarmos, por exemplo, num carro de mineração, que trafega por dentro de uma caverna, o motor pode estar fora do carro, fixo em algum lugar, e transmitir-lhe o movimento, por exemplo, por um sistema de trilhos e correias. Portanto, é da essência do motor fazer mover, mas não é da sua essência ser movido; Isto é apenas um acidente.

Analisando, agora, a estrutura da inteligência humana, vemos que o intelecto apreende as coisas como boas e as apresenta à vontade, movendo-a. O intelecto não se move, neste processo, mas faz mover a vontade; a vontade, movendo-se, move as outras faculdades humanas. Assim, o argumento conclui que, uma vez que é um motor que não se move, o intelecto não pode ser movido pela vontade.

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás, aqui, é breve e precisa: não é do mesmo modo, não é pela mesma causa, que o intelecto move a vontade e a vontade move o intelecto. O intelecto, como vimos, move a vontade apresentando a ela as causas finais, que deve perseguir. A vontade move o intelecto como causa eficiente, isto é, impulsionando-o a buscar seus próprios fins. Não há, portanto, contradição em propor que a vontade pode mover o intelecto.

O terceiro argumento objetor.

O querer, que é o ato da vontade, pressupõe que o seu objeto, a ser perseguido, seja conhecido como bom. Ora, se a vontade pode mover o intelecto, devemos admitir que o faz porque o intelecto lhe apresentou, antes, alguma coisa inteligida como boa; neste caso, para que ele fosse capaz de inteligi-la como boa, a vontade teve que querer que o intelecto a inteligisse; mas, para que pudesse querer, deve ter obtido, antes, o conhecimento de que aquilo era bom, e assim há um regresso ao infinito: antes de cada conhecer haveria um querer, mas antes de cada querer haveria um conhecer. Ora, todo regresso ao infinito é impossível, porque é sempre necessário começar de algum lugar. E se o intelecto tem prioridade sobre a vontade, é ele que começa inteligindo, e, portanto, não é a vontade que o move para esse inteligir, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não existe este “regresso ao infinito” que existiria se o inteligir fosse sempre precedido de um ato de vontade, e o ato de vontade fosse sempre precedido de um ato de inteligência. Na verdade, diz Tomás, o próprio Aristóteles, na Ética a Eudemo, já propunha que o ato de inteligir é fundamental, no sentido de que ele vem em primeiro lugar, e não é precedido por nenhum ato anterior de vontade, em nós. De fato, a inteligibilidade do mundo decorre de Deus, não de nós, e nos a recebemos como um dom. Assim, inteligimos, em primeiro lugar, simplesmente porque nosso intelecto se percebe inserido num mundo inteligível, e percebe a si mesmo como inteligível; além disso, é capaz de intuir os primeiros princípios, tanto os da lógica ou da razão especulativa (identidade, não contradição, terceiro excluído, etc.), quando os da razão prática, como aquele que determina que o bem deve ser feto e buscado, e o mal deve ser evitado. Uma vez que aceitamos este inteligir como um dom de Deus, o resto decorre naturalmente, e nossa vontade pode dirigir o intelecto na busca da verdade.

3. Concluindo.

A posição de Tomás não é intelectualista, como aqueles que entendem que, uma vez que o intelecto descobre a verdade sobre o bem, a vontade fica como que obrigada a ir para onde o intelecto determinou. Ele sabe sobre a liberdade da vontade e sua capacidade de dirigir o intelecto (com todos os riscos que decorrem daí).