1. Retomando.

Não somos intelectos isolados no mundo, não existimos apenas em função de acumular conhecimentos; somos seres que querem, somos seres que amam. Mas querer e amar pressupõem o saber. Eu só posso querer e amar aquilo que conheço; mas, por outro lado, posso querer conhecer isto ou aquilo. Posso, por exemplo, escolher alguém, sem conhecê-lo adequadamente, para ser um companheiro de vida, e forçar-me a conhecê-lo melhor ao longo da caminhada. É esta relação complexa entre o querer e o saber que estudaremos aqui.

Vamos à resposta sintetizadora de São Tomás.

2. A resposta sintetizadora.

Há duas maneiras pelas quais as coisas podem mover outras coisas. Como causa eficiente e como causa final. Esta distinção, importantíssima, foi, de certa forma, perdida por nós, hoje em dia. Para a nossa cultura contemporânea, a causa eficiente é muito mais importante do que a causa final, se é que chegamos a considerar a causa final como força motriz. Mas ela é, e é a mais importante; precisamos resgatá-la.

Em primeiro lugar nós nos movemos por um fim, muito mais do que por empurrões. Quem tem filhos sabe o quanto é importante que o filho saiba por qual fim nós estamos nos movendo: quando chamamos um jovem, de manhã cedo, para ir à escola, se isto é simplesmente um empurrão, se o jovem não entende qual o sentido da escola, ele pode até ir, mas vai desmotivado e aproveita muito pouco. Mas se ele sabe qual é o fim, ele sabe qual é o sentido pelo qual ele vai à escola, ele se torna uma causa eficiente para si mesmo, e já não precisamos forçá-lo com ameaças e castigos, nem arrancá-lo da cama com empurrões.

Assim, os pais são causa eficiente para o filho ir para a escola, porque são os pais que o matriculam, acordam-no e levam-no fisicamente até lá. Os pais são os agentes, as forças que modificam o filho de tal modo a fazê-lo ir à escola. Mas a causa final, o sentido pelo qual ele vai à escola, é o de obter uma boa educação e, eventualmente, uma boa formação pessoal e profissional.

É neste sentido que a causa final move: ela atrai o agente, que aplica suas forças, ou procura forças externas, capazes de conduzi-lo ao fim. Conhecendo a causa final, ela ativa as causas eficientes que movem o sujeito até o respectivo objetivo, que é o fim, ou causa final.

De fato, aquilo que a inteligência apreende como bom, como coisa boa a ser perseguida, torna-se o objetivo, a causa final da vontade. Eu apreendo que aquela fruta é nutritiva e, tendo fome, coloco, como finalidade adequada para matar a fome, comer aquela fruta. Isto inclina a vontade para aquele fim, comer a fruta para matar a fome. É neste sentido que dizemos que a inteligência move a vontade como causa final.

Mas a vontade nos move como causa eficiente. É ela que nos impulsiona, nos faz agir, nos modifica fisicamente (ou impede que nós nos modifiquemos), escolhe os meios e os efetiva, de tal modo que possamos atingir os nossos fins. É como causa eficiente que a vontade move o intelecto e todas as capacidades e potências da nossa alma.

De fato, diz Tomás, quando os movimentos das causas eficientes são ordenados, há sempre uma força universal que coordena o movimento das forças particulares. Isto, tanto nas realidades naturais como nas realidades humanas; pensemos, por exemplo, num ecossistema: existem muitas forças individuais agindo ali, como mamíferos, insetos, seres microscópicos, seres inanimados; mas há, sem dúvida, uma coordenação entre todas estas forças, de modo que, numa cadeia de alimentação e reprodução, aquele ecossistema se mantenha equilibrado. Desde as formigas até o maior dos predadores, todos os movimentos se coordenam pelo bem do conjunto.

Assim também no mundo da política, compreendida esta como a grande estrutura social que se encaminha ao bem comum. De fato, se não houver uma coordenação política de uma sociedade, de tal modo que o bem comum possa ser perseguido por todos os seus integrantes, esta sociedade se desintegrará no caos e na anomia e deixará de existir. Assim, numa sociedade organizada politicamente, há um governo que coordena os movimentos particulares, de tal modo que o bem comum seja alcançado.

Nas pessoas humanas, este papel é realizado pela vontade. É ela que, sendo dirigida ao bem universal, coordena todos os movimentos da pessoa no sentido do bem para ela toda, evitando, por exemplo, que a inclinação para comer leve à obesidade, ou que a inclinação para o lazer leve à ociosidade.

Nós sentimos, em nós, muitas inclinações, muitos apetites, muitos estímulos, e até mesmo muitas informações inteligíveis que nos são apresentadas pelo intelecto, todas clamando nossa atenção, nossa decisão, nossa atuação. Cabe à vontade coordená-los, movê-los, ordená-los, incluída, aí, a inclinação da inteligência para o seu bem, que é aprender. Num determinado momento, podemos escolher aprender uma determinada profissão ou habilidade que nos serão necessários, abrindo mão de aprender alguma coisa que será simplesmente útil ou agradável.

Portanto, a vontade dirige também a inteligência, como causa eficiente, para conhecer o bem; por outro lado, o bem conhecido pela inteligência move a vontade como causa final.

A vontade só não pode mover, como causa eficiente, aquelas nossas funções estritamente corporais da nossa esfera vegetativa, como a digestão e a circulação sanguínea. Estas não estão submetidas à nossa escolha.

No mais, ela é, digamos assim, a nossa gestora pessoal, que nos governa eficientemente na busca do bem que perseguimos.

3. Palavras de encerramento.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.