1. Introdução.

Se o intelecto, ordinariamente, é a potência humana mais elevada, e a vontade depende daquele bem que o intelecto conhece e apresenta, para mover-se, então seria de imaginar que o intelecto tem a prioridade sobre a vontade, quer dizer, é o intelecto que faz a vontade mover-se.
Mas será que a vontade não move o intelecto?
Podemos querer conhecer? Podemos mover nosso intelecto para buscar o conhecimento?
De fato, quando estudamos o intelecto, descobrimos que, sendo uma faculdade espiritual, o intelecto funciona de modo independente da matéria. Assim, ele não somente pode conhecer, mas pode refletir sobre si mesmo, ou seja, pode saber que conhece. A pergunta, agora, é sobre a reflexividade da vontade. É se nossa vontade pode mover nosso intelecto a querer conhecer. Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial é a de que, uma vez que a prioridade, em nós, ordinariamente, é do intelecto sobre a vontade, então a vontade não pode mover o intelecto, mas é sempre o intelecto que, conhecendo e apresentando o bem à vontade, move-a. Em suma, a hipótese é, aparentemente, a vontade não pode mover o intelecto.
Há três argumentos objetores iniciais, no mesmo sentido que esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor parte da ideia de que a parte ativa, dinâmica, capaz de imprimir o movimento, e que chamamos de “motor”, é a parte mais nobre de qualquer ente. De fato, diz o argumento, aquilo que age é sempre primeiro, é sempre mais importante do que aquilo que sofre a ação. Ora, no artigo anterior desta mesma questão, vimos que o intelecto é, ordinariamente, mais nobre e prioritário sobre a vontade. Assim, é o intelecto que move a vontade, e nunca a vontade que move o intelecto, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor segue a mesma linha: lembra que é sempre o motor que age, que causa o movimento daquilo que é movido. Só acidentalmente é que o movido move o motor, quando, por exemplo, tropeçamos, e o nosso peso arrasta nossas pernas ao chão.
No caso da relação entre o intelecto e a vontade, sabemos que é o fato de que o intelecto é capaz de conhecer as coisas boas que faz com que a vontade, apresentada àquilo que o intelecto apreendeu como desejável, sofra a inclinação que a leva a desejar o que é bom.  Portanto, o objeto do conhecimento, quando é desejável, é o motor da vontade: move-a mas não é movido por ela, enquadrando-se na noção de “motor imóvel”, porque altera a vontade, atraindo-a, mas não é alterado por ela.
Assim, é a vontade que é movida, e, portanto não é ela que move o intelecto, conclui o argumento.

 O terceiro argumento objetor.
A vontade é o apetite do intelecto. Portanto, para que a vontade se mova, é preciso que o intelecto apresente a ela, primeiro, algum objeto conhecido, para que ela possa querê-lo.
Mas se a vontade puder mover o intelecto, isto significa que é ela quem move o intelecto, primeiro, a inteligir algum objeto.
Ora, se a vontade leva o intelecto a inteligir, e o intelecto, por sua vez, leva a vontade a querer, haveria aí um regresso infinito, semelhante àquele paradoxo do ovo e da galinha. Não saberíamos quem vem primeiro, se a vontade ou o intelecto, o que seria uma aporia, isto é, um beco sem saída. O imtelecto intelige porque a vontade quer, mas a vontade quer aquilo que o intelecto intelige. Não podemos cair nesta armadilha.
Assim, já que a inteligência é a primeira capacidade, então é ela quem move a vontade, e não o contrário, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Finalmente, o argumento sed contra cita São João Damasceno, que diz que nós somos capazes de conhecer ou ignorar qualquer técnica ou arte que quisermos.
Ora, prossegue o argumento, se nós podemos querer aprender, isto significa que nossa vontade pode mover nosso intelecto a aprender, porque querer é próprio da vontade, ao passo que aprender é próprio do intelecto. Assim, a vontade é capaz de mover o intelecto, conclui este argumento.

5. Palavras de fechamento.

No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de São Tomás.