1. Para retomar.

O intelecto, em si mesmo, é mais nobre que a vontade, e tem a prioridade em nós. Mas, em razão do seu objeto, a vontade pode vir a se tornar mais nobre que o intelecto, quando seu objeto é mais nobre do que o sujeito. Belo pensamento, que pode explicar os grandiosos gestos de amor que vemos resultar de uma vontade inclinada a um objeto nobre. A caridade, que é o próprio amor de Deus infundido em nós teologicamente, torna a nossa vontade aquilo que há de mais nobre em nós.

Portanto, há um belo equilíbrio, em nós, entre inteligência e vontade, que brilha com toda a sua força nas virtudes teologais.

Iluminados por esta resposta sintetizadora tão profunda, voltamos nosso olhar, agora, aos argumentos objetores iniciais, e às belas respostas que Tomás nos oferece.

2. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que o objeto da vontade é o bem, em sua razão de fim. Ora, dentre as causas que explicam as coisas, o fim é a causa mais elevada, lembra o argumento. As coisas são definidas, antes de mais nada, pelo fim a que se destinam. Ora, se as potências se definem pelo seu objeto, e se o objeto da vontade é a causa mais elevada e mais nobre, então a vontade é a potência mais nobre, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás vai usar, aqui, a noção de “prioridade absoluta” e “prioridade relativa”, que foi exposta na resposta sintetizadora deste artigo, e que estudamos no texto anterior. De fato, ali nós vimos que as coisas podem ter prioridade de modo absoluto (como no caso do rei, que é o mais nobre de um país, de modo absoluto), ou relativo (como no caso daquela criança que, por um gesto heroico, avisou do rompimento da barragem e salvou a vida da população).

Assim, de modo relativo, realmente a noção de bem é a melhor, quando o bem envolvido é mais alto do que as outras causas em jogo.

Por exemplo, quando a causa final envolve o resgate de uma pessoa, a destruição de equipamentos e recursos materiais está justificada; pensemos na situação de um bombeiro que estraga suas ferramentas para tirar uma pessoa de dentro de um poço. O fim, que é o resgate da pessoa, é mais nobre, relativamente, do que as ferramentas perdidas no processo.

Por isto, o fim é, relativamente, a causa mais nobre.

Mas não podemos esquecer que o fim deve ser conhecido, para ser objeto da vontade. Por isto, o conhecimento do bem é, de modo absoluto, o objeto mais nobre do ser humano. Neste sentido, podemos dizer que o bem tem que ser verdadeiro! A vontade, quando não é guiada pelo intelecto, pode se enganar gravemente na busca do bem. É exatamente neste sentido, de que o conhecimento do bem, ou seja, a verdade do bem, é o objeto mais elevado, e, portanto, isto faz do intelecto, em sentido absoluto, a potência mais elevada.

Pode-se dizer, assim, que, o bem é, sob certa razão, uma verdade. Mas também podemos dizer que a verdade é, sob certa razão, um bem: o bem do intelecto. De fato, o fim do intelecto é conhecer a verdade. Ora, tudo o que tem razão de fim, tem razão de bem. Ora, se a causa mais alta é a causa final, temos que concluir que a causa final, o bem, da inteligência, é a mais elevada: a apreensão da verdade.

Portanto, mais uma vez, vemos aqui que a inteligência é, de modo absoluto, a potência mais elevada; mas, de modo relativo, é a vontade, quando voltada para um bem maior do que o da alma.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento lembra que há sempre um processo que conduz do imperfeito ao perfeito. Logo, aquilo que existe por causa do degrau seguinte deste processo é menos perfeito do que o posterior.

Ora, as potências sensíveis, que são os sentidos, fornecem material para que a inteligência possa exercer a razão. Logo, as potências sensoriais são menos elevadas do que a inteligência. Mas a inteligência fornece material para que a vontade exerça seu ato; logo, conclui o argumento, a vontade é a potência mais elevada, mais do que a inteligência.

A resposta de Tomás.

Existem duas maneiras de falar deste processo: existe a antecedência cronológica e existe a antecedência lógica. De fato, aquilo que é anterior cronologicamente, diz Tomás, é sempre posterior logicamente, e vice-versa. Do ponto de vista lógico, o ato sempre precede a potência, embora, cronologicamente, as coisas sejam ao inverso: é preciso que o projeto inteiro da casa esteja pronto, antes de começar a construção. Assim, a perfeição da casa, sua concepção integral, precede logicamente a sua construção, que é a passagem da potência ao ato. Por isto, embora a planta arquitetônica preceda a casa, ela não é, apesar disso, algo mais imperfeito ou inferior.

De modo análogo, a inteligência deve conhecer e conceber o bem, para que a vontade possa querê-lo e mover o sujeito para ele. Portanto, o fato de que o conhecimento do bem seja anterior ao ato da vontade, ele não é inferior, e se relaciona com a vontade como o ato para a potência.

O terceiro argumento objetor.

Os hábitos ou virtudes podem ser classificados em inferiores e superiores. E as potências que estas virtudes aperfeiçoam serão inferiores ou superiores, conforme tenham relação com uma virtude inferior ou superior.

Ora, segundo o testemunho bíblico de 1 Coríntios 13, a caridade é a virtude mais elevada, e ela aperfeiçoa a vontade. Logo, a vontade é a virtude mais elevada, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Na resposta sintetizadora, ficaram estabelecidas as duas maneiras pelas quais se pode dizer que uma capacidade é mais elevada do que a outra: ou absolutamente, quando, em si mesma, ela tem o objeto mais nobre, ou quando, relativamente, no seu exercício, ela vem a lidar com um objeto mais nobre do que as outras.

No caso da inteligência e da vontade, a inteligência é, absolutamente, a capacidade mais elevada, porque é ela que conhece e apresenta o bem à vontade. Mas, quando a vontade se inclina para um bem que é maior do que a própria alma (como é o caso da vontade que se inclina para Deus), ela passa a assumir a posição relativa de potência humana mais elevada. Isto se dá, como vimos, no caso do amor caridade, ou seja, do amor divino que inclina o sujeito para Deus, e ao qual São Paulo se refere no trecho citado.

3. Concluindo.

Agora que colocamos em ordem as nossas potências intelectuais, estudaremos, no próximo artigo, a capacidade que a vontade tem de mover a própria inteligência.