1. Retomando.

O voluntarismo é um mal; o intelectualismo também. Mas conhecer os caminhos da alma é sempre algo muito adequado para o ser humano.

Vimos, no texto anterior, como a noção de “fim” levou os argumentos objetores a colocarem a vontade adiante do intelecto; e como o argumento sed contra simplesmente citou Aristóteles para repor o intelecto como prioridade.

Há, aqui, duas ambiguidades a serem resolvidas.

Uma é o fato de que a revelação bíblica claramente coloque o amor como prioritário, uma vez que ele é a própria essência de Deus. Não somente na passagem de 1 Coríntios 13, já citada pelo terceiro argumento, mas 1 João 4, 8, expressamente ensina que Deus é amor. Ora, se o próprio Deus se identifica com esta virtude associada à vontade, teríamos que concluir que a vontade está acima do intelecto.

Por outro lado, quando Aristóteles fala que a parte mais elevada do ser humano é o intelecto, ele não parece excluir a vontade da sua noção de “parte intelectiva da alma”. Ainda no primeiro livro da Ética a Nicômaco, no capítulo 13, ele parece opor a parte intelectiva (que envolve a inteligência e a vontade) à parte sensorial e à parte vegetativa. Assim, a vontade não seria algo distinto do intelecto, neste sentido.

Em suma, o problema não é simples, e por isto Tomás vai nos brindar com uma daquelas suas distinções tão ricas. Vamos à resposta sintetizadora.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Há duas maneiras de afirmar que uma coisa tem prioridade:

1) Ela pode ter prioridade num sentido absoluto, porque ela é a melhor, em si mesma. Assim, o rei tem a prioridade sobre todos os cidadãos do Reino, absolutamente.

2) pode-se dizer que alguma coisa é prioritária num sentido relativo, por comparação com outra. Assim, por exemplo, uma criança que salvou a população inteira de um desastre, por ter evitado o rompimento de uma barragem, torna-se, naquele momento, mais admirável que o próprio rei, em função daquilo que fez. Circunstancialmente, portanto, de modo relativo, esta criança se torna a primeira pessoa daquele reino, em honra.

Teremos, pois, que examinar a relação do intelecto com a vontade, quer sob o ponto de vista da prioridade absoluta, quanto da prioridade relativa.

A prioridade absoluta.

Do ponto de vista da prioridade absoluta, diz Tomás, o intelecto é prioritário; absolutamente, ele é a potência humana mais elevada. E isto é assim por causa do seu objeto.

Dentre todas as potências humanas, sem dúvida as potências da esfera intelectual são as mais elevadas, porque funcionam independentemente da matéria e são capazes de operações reflexivas e de conhecimento universal.

Mas, na esfera intelectual, a intelecto tem o objeto absolutamente mais elevado. Cabe ao intelecto identificar e conhecer o ser, e, portanto, identificar e conhecer o bem, que é transcendental do ser. O bem é, justamente, o ser sob a razão de desejável. Esta noção está, portanto, no intelecto, e não na vontade.

Por outro lado, a vontade tem por objeto o bem desejável, tal como apreendido pelo intelecto. Assim, o objeto do intelecto determina a vontade. Neste sentido, ele é mais simples, mais elevado e prioritário. Pode-se dizer, simplesmente, que a vontade quer porque o intelecto conhece. Neste sentido, o intelecto tem a prioridade absoluta, no ser humano, porque, em si mesmo, é a mais nobre das potências.

A prioridade relativa.

No entanto, há uma outra forma de ser prioritário, que é a relativa. Como no caso daquele menino humilde que, verificando que a barragem do rio estava rachada, alertou as autoridades e salvou a população, tornando-se, por isto, a pessoa mais importante do povoado naquele momento, também pode acontecer que alguma potência humana, mesmo não sendo em si mesma a mais importante, venha a estar numa posição de destaque, em comparação com as demais, por alguma circunstância relativa.

Tomás nos dá o seguinte exemplo: imaginemos alguém que está preso num lugar muito escuro, mas, guiando-se pelo som, consegue sair daquele labirinto. Ora, diz ele, sabemos que a visão é, de modo absoluto, o sentido mais importante, principalmente quando se trata de guiar o sujeito para fora de alguma situação perigosa. Mas, neste caso concreto, o ouvido exerceu um papel mais importante, porque o objeto da audição foi mais nobre do que o da visão, para guiar o sujeito para fora da situação perigosa. Assim, relativamente, a audição foi mais nobre, mais importante que a visão, aqui.

Quanto à vontade e ao intelecto, é preciso lembrar, aqui, uma velha e corretíssima noção que a filosofia clássica e o pensamento escolástico adotavam, quanto ao conhecimento. Conhecer é assimilar em si a species, quer dizer, de cero modo a própria coisa passa a existir na inteligência. Quando se conhece alguma coisa, não é apenas o conceito, a imagem ou a semelhança da coisa que está em nós, mas a coisa, em sua inteligibilidade, passa a existir em nossa inteligência. A verdade, portanto, consiste em que a mesma coisa exista na mente de Deus como concepção, nos entes concretos como realidade material e em nós como intenção, como forma assimilada. A verdade, que é um dos transcendentais do ser, existe, portanto, em nossa inteligência que assimila.

A vontade, por outro lado, reconhecendo a bondade da coisa, faz com que nos inclinemos a ela. O bem, que move a vontade, existe antes na coisa do que em nós.

Assim, olhando relativamente, vemos que é próprio do intelecto conter a verdade da coisa, mas a vontade não contém o bem da coisa; reconhece-o e nos inclina a ele.

Assim, quando o bem, ao qual a vontade nos inclina, é mais elevado do que o bem que há em nós mesmos, tão mais nobre é a vontade. Quando ela reconhece, por exemplo, o bem que há em Deus, e o amor pelo próximo como consequência do amor de Deus, ela pode aceitar até mesmo o martírio, a eliminação da própria existência física, para não renunciar a esta inclinação.

Neste caso, ou seja, quando tem um objeto mais nobre do que a sua própria existência, e move-se para este objeto, inclusive sob risco pessoal, a vontade passa a ser, relativamente, a potência mais nobre do ser humano. Ou, como dizia o próprio Jesus, “não há maior prova de amor do que doar a vida pelo amigo” (João 15, 13).

Portanto, quanto mais elevado for o objeto ao qual a vontade se inclina, tão mais nobre, relativamente, ela se torna. Quando o bem que é objeto dela é mais nobre que a alma, ela é a potência mais nobre. Mas quando o bem que a atrai é inferior à alma, a inteligência permanece sendo, de modo absoluto, a principal potência humana.

Assim, é melhor amar a Deus do que conhecê-lo, porque o conhecimento de Deus, nesta vida, é sempre limitado em sua verdade, mas a inclinação a ele é a inclinação ao bem infinito que há nele. Mas qualquer conhecimento de Deus é melhor do que qualquer inclinação a qualquer bem material, conclui Tomás.

3. Encerrando.

Linda e profunda explicação de Tomás. Emocionante mesmo.

No próximo texto examinaremos as suas respostas aos argumentos objetores iniciais.