1. Introdução.

Um intelecto sem vontade está doente, apático, deprimido. Uma vontade sem intelecto está louca. A relação entre estas duas potências é tão entrelaçada que seria difícil defender que uma das duas tenha a primazia sobre a outra. Mas esta missão difícil deve ser enfrentada; não é indiferente que uma das duas tenha a prioridade.

De fato, em nossa cultura hoje, a vontade parece ter a primazia sobre o intelecto. Vivemos sob a sombra da “vontade de poder”; imaginamos que, de algum modo, a nossa liberdade pode determinar, apenas por nossa vontade, a nossa natureza mesma. O voluntarismo leva o ser humano a becos sem saída, como aqueles quadros de comédia em que alguém começa a pintar o chão da sala pelo lado errado e termina preso em um dos cantos.

Mas o puro intelectualismo se transforma em gnosticismo, como lembra o Papa Francisco, numa das grandes intuições de seu pontificado. Aqueles que acham que estudar, teorizar, acumular conhecimentos, torna-os melhores que os outros, não entenderam a verdadeira natureza do intelecto. Se hoje, para muitos, a razão tem como missão dominar, como creem os gnósticos, os antigos sabiam (ou, pelo menos, os grandes santos sabiam) que a inteligência existe, em primeiro lugar, para contemplar, não para dominar.

Portanto, não identificar a ordem certa traz grandes problemas. Há quem imagine que inteligir está em primeiro lugar, outros defendem que é preciso querer inteligir, para começar a inteligir, e que, portanto, a vontade vem primeiro.

Não há dúvida de que o querer tem a mesma extensão do inteligir. Mas haverá uma prioridade lógica (e mesmo cronológica) entre os dois, de tal modo que a vida humana possa ter sentido? É exatamente o que vamos debater agora.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida parece muito contemporânea, porque é muito voluntarista: coloca a vontade em primeiro lugar, em comparação com a inteligência. Ela propõe que, aparentemente, a vontade é mais elevada do que o intelecto, e portanto tem prioridade sobre ele. Primeiro queremos, propõe a hipótese, depois pensamos, justificamos, tentamos compreender. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Na teoria aristotélica das quatro causas, o fim é considerado como a causa mais elevada. De fato, como Aristóteles diz no início da Ética a Nicômaco, o fim é aquilo a que todas as coisas tendem e, portanto, é o bem delas. Tudo que se move, se move por um fim. Tudo o que existe, existe porque tem uma finalidade. Assim, dentre as causas, a causa final é a que tem maior poder de explicação da realidade.

Ora, com base neste princípio, tão verdadeiro, o primeiro argumento objetor lembra que o objeto da vontade é o bem; ora, o bem tem razão de fim, porque, como vimos em Aristóteles, o bem é exatamente a nossa causa final.

Ora, se o objeto da vontade é o bem, e se o bem tem razão de fim, e portanto é a nossa causa final, então o objeto da vontade é o mais elevado de todos, diz o argumento. Como as potências são identificadas pelo objeto, então a potência que tem a causa mais alta como objeto certamente será a potência mais elevada. E esta potência é a vontade, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Em tudo o que existe há um caminho natural, que parte daquilo que é inferior e segue para aquilo que é superior. A perfeição pressupõe a existência daquilo que é imperfeito. Então, se estudarmos o processo de aperfeiçoamento humano, veremos qual capacidade humana é a mais perfeita: será aquela que se segue às imperfeitas e as realiza, aperfeiçoando-as.

Ora, quando examinamos a alma humana em seu processo de atuação, vemos que as potências sensoriais fornecem o material para que a potência intelectual possa exercer-se, porque o conhecimento intelectual depende dos sentidos: nada há no intelecto que não tenha passado pelos sentidos. Logo, o intelecto é mais perfeito que os sentidos, porque recebe deles dados imperfeitos e se encaminha para o conhecimento intelectual, que é mais perfeito que o sensorial.

Ora, o conhecimento intelectual destina-se a ser recebido pela vontade que, identificando o bem, inclinar-nos-á a ele, aperfeiçoando-nos. Portanto, o intelecto existe para a vontade, e está para ele como o imperfeito para o perfeito; assim, a vontade é uma potência mais perfeita e mais nobre que o intelecto, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

As potências humanas são aperfeiçoadas pelos hábitos, que se transformam em virtudes quando levam a capacidade humana à sua perfeição. Assim, o intelecto é aperfeiçoado pelas virtudes intelectuais da ciência ou da sabedoria, encontrando seu ápice na virtude intelectual teologal da fé; e a vontade chega à sua perfeição pela virtude teologal da caridade.

Ora, as virtudes podem ser comparadas entre si, quanto à sua perfeição. Mas as virtudes mais perfeitas ocorrem nas potências mais perfeitas. Assim, comparando as virtudes, seríamos capazes de identificar qual a potência mais perfeita; é aquela com a qual a virtude mais perfeita se relaciona.

A identificação da virtude mais perfeita é realizada pela 1ª Carta aos Coríntios, na qual São Paulo nos ensina que, ainda que tivéssemos toda ciência, toda a sabedoria e toda a fé, se não tivéssemos amor, que é a virtude teologal da caridade, não seríamos nada. Portanto, a virtude da caridade é a virtude mais elevada de todas.

Ora, a virtude mais elevada deve aperfeiçoar a potência mais elevada.

Uma vez que sabemos que a caridade é a virtude que aperfeiçoa a vontade, então temos que concluir, diz o argumento, que a vontade é a potência humana mais elevada. Portanto, a vontade é a potência humana mais elevada, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra cita Aristóteles, que, na Ética a Nicômaco, Livro X, expressamente diz que o intelecto é a potência humana mais elevada.

5. Encerrando.

O problema colocado não é fácil; e sempre que um problema não é fácil, ficamos ansiosos pela resposta sintetizadora de Tomás, que estudaremos no próximo texto.