1. Introdução.
A questão da inclinação da vontade para o bem é um dos pontos que nós perdemos, hoje em dia. De fato, parece que nós temos resistência a admitir que a vontade seja naturalmente inclinada para o bem, porque queremos incluir, na nossa liberdade, a possibilidade de escolher deliberadamente o mal. Para nós, hoje, parece muito claro que só há liberdade se isto incluir a possibilidade de escolher deliberadamente o mal. O que, para Tomás (e, com ele, toda a filosofia clássica) é uma propriedade da liberdade – a busca do bem – para nós seria o fim da própria vontade. Se o bem fosse uma inclinação necessária da vontade, como querem os clássicos, então toda vez que a nossa inteligência identificasse algo como bom, não teríamos escolha senão aderir àquilo. Nossa vontade seria, apenas, um reflexo de adesão necessária ao bem e, portanto, não haveria nenhum livre arbítrio.
Este é o tema do debate, agora: será que a presença do bem leva a nossa vontade à adesão necessária e sem escolha, a ele? Então, neste caso, no fundo não seríamos livres, mas como que programados necessariamente a uma coisa só? Entre o bem e o mal, sempre queremos necessariamente o bem? A vontade seria, então, ilusória e condicionada desde fora? Vamos acompanhar este debate interessantíssimo.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida é a de que a vontade, no fundo, não tem opção: tem que querer sempre o bem, a que ela está naturalmente inclinada. É uma opinião que manifesta o necessitarismo, que é a ideia de que a vontade, quando se depara com o bem, não tem escolha senão aderir a ele necessariamente.
Ora, como já foi dito na introdução, a tendência, hoje em dia, é muito mais no sentido do indiferentismo completo: a maioria dos pensadores defende que a liberdade pressupõe que a vontade não esteja inclinada ao bem, mas que possa escolher indiferentemente entre o bem e o mal. Assim, se a vontade estiver de qualquer modo inclinada para o bem, pensam os indiferentistas. No limite, alguém que está, digamos, no céu, vivendo a beatitude eterna, já não é livre, porque será obrigada a querer sempre o bem, e já não terá o poder de escolha. A vida de Deus seria, portanto, muito menos livre do que a vida do pior dos pecadores. Por outro lado, se a liberdade é a possibilidade de alcançar o bem não por necessidade, mas por amor ao bem, ninguém pode ser mais livre do que Deus, e só a santidade nos daria a liberdade plena.
Por outro lado, a hipótese controvertida, aqui, tende para o extremo oposto do indiferentismo, caindo num necessitarismo radical: pela proposta desta hipótese, a liberdade tem uma inclinação natural irresistível para o bem; logo, quando o bem se apresenta, ela está determinada a querê-lo necessariamente, e, por natureza, não tem escolha. Ou seja, a vontade quer aquilo que quer não por uma opção, mas por necessidade. Há três argumentos objetores neste sentido.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento cita o Pseudo-Dionísio, que, na obra sobre os Nomes Divinos, afirma que o mal está fora do âmbito da vontade. Portanto, a relação entre a vontade e o bem não envolve nenhuma liberdade: a vontade quer necessariamente o bem, quando o encontra, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor vai estudar a relação entre a vontade e seu objeto, isto é, entre a própria vontade e aquilo que é capaz de movê-la. Como sabemos, aquilo que é movido é chamado, tecnicamente, de “móvel”, e aquilo que move é chamado de “motor”. Mas o motor não é simplesmente uma causa eficiente, como seria o guindaste que eleva uma pedra enorme: neste caso, o guindaste seria o motor, como causa eficiente, e a pedra seria o móvel. Há outra hipótese da relação entre motor e móvel, que é a de causa final: um belo prato de comida nas mãos do garçom é capaz de mover os pescoços de todos os clientes esfomeados do restaurante, pela atração que exerce em razão de sua aparência e de seu aroma. Neste caso, o prato de comida é o motor, porque, por ser apetitoso, ele move os pescoços como a causa final move o agente.
Ora, prossegue o argumento, o objeto, como causa final, por sua bondade, ou seja, por ser “apetitoso” (em qualquer sentido), vai mover necessariamente o móvel em sua direção, como uma causa final irresistível. Logo, o móvel, que é a vontade, move-se sempre necessariamente para o seu objeto, que é obrigado a querer quando percebe que é bom, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A alma tem uma esfera sensorial, em que estão os sentidos, como potências apreensivas, e a sensualidade, como potência apetitiva. Já estudamos sobre isto nas questões 80 e 81. No caso da nossa esfera intelectiva da alma, a capacidade de apreensão está na potência racional, e a capacidade apetitiva, na vontade. A vontade, portanto, tende às coisas que a razão apreende.
Na sua obra sobre o Gênesis, prossegue o argumento, Santo Agostinho ressalta que os animais são movidos pelas coisas. Assim,as coisas que os sentidos vêm a conhecer são objeto imediato e direto da inclinação do apetite sensorial, a que chamamos de “sensualidade”. O animal não tem escolha: aquilo que os sentidos apreendem move necessariamente o seu apetite sensual. Um parceiro sexual no cio, o aroma de um alimento fresco, um córrego de água fresca são objeto de apreensão e de inclinação necessária para um animal faminto, sedento ou apto à reprodução.
O argumento faz, então, uma analogia com a esfera intelectual da alma. Se aquilo que os sentidos apreendem move necessariamente a sensualidade, então aquilo que o intelecto apreende como bom deve mover necessariamente a vontade, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra recorre também a Santo Agostinho, que é uma grande autoridade em matéria de vontade.
Agostinho, nas suas Retratações, afirma que é a nossa vontade que nos leva a pecar, como é também a nossa vontade que pode nos fazer caminhar retamente e viver bem. Logo, há uma indeterminação na vontade, que a faz apontar inclusive para objetos opostos, e mostra que ela não está sempre determinada pela necessidade, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Nem um indiferentismo, que coloca a vontade num relativismo mesmo quanto ao seu fim último, nem um necessitarismo, que tira dela toda a capacidade de acertar e errar livremente, podem nos satisfazer, aqui. É o que veremos no próximo texto.
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