1. Retomando o debate.

Vimos, então, que a sensualidade, em nós, existe, mas não tem o controle, ou não deveria ter. Ela se submete à razão, pela prudência, e pela vontade, que dá sua anuência. É certo que o pecado e os vícios podem distorcer esta ordem, e por isto a vida humana é um dom e uma tarefa. É uma tarefa que não podemos realizar sozinhos: não somente é necessário o apoio dos outros e da sociedade, como, fundamentalmente, a graça de Deus, para possibilitar esta integração entre a sensualidade e a inteligência. Isto tudo será examinado mais detidamente quando estudarmos a seção II desta primeira parte da Suma.

Examinemos, agora, as respostas de Tomás aos argumentos objetores

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o concupiscível e o irascível são partes daquele apetite ligado à esfera sensorial, aos sentidos, ou seja, são partes da sensualidade.

Mas Santo Agostinho, diz o argumento, na obra sobre a Trindade, costumava lembrar que a sensualidade é simbolizada pela serpente, no segundo relato bíblico da criação. Mas a serpente, naquele relato, não obedece à razão; antes, persuade os nossos primeiros pais a desobedecê-la, praticando o pecado.

Ora, se a sensualidade não obedece à razão, tampouco o fazem o irascível e o concupiscível, que são partes dela, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A serpente é uma alegoria que representa a sensualidade como conduzida pelos prazeres sensoriais, ou seja, independentemente da ordenação pela razão. Mas o irascível e o concupiscível, bem integrados ao ser humano, são, na verdade, impulsos ou tendências fundamentais que devem ser ordenados pela razão, para resultarem em atos verdadeiramente humanos, conclui Tomás. Portanto, o fato de que a serpente, na Bíblia, pode ser alegoricamente lida como uma sensualidade desordenada, não implica a conclusão de que a sensualidade não se submete à razão.

O segundo argumento objetor.

Há uma exclusão entre obediência e resistência, entre integração e oposição. Aquilo que é obediente e integrado não pode ser, ao mesmo tempo, resistente e oposto. Ora, prossegue o argumento, a própria Bíblia, na Carta aos Romanos (7, 23), testemunha que a sensualidade é oposta e resistente à razão, quando nos relata, nas palavras de São Paulo, “sinto nos meus membros outra lei que se opõe à lei do meu espírito”. Portanto, o irascível e o concupiscível não obedecem à razão, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Somos animais, lembra Tomás. Animais racionais, mas, ainda assim, animais. Como animais, somos seres compostos, formados de uma estrutura imaterial, que chamamos de “alma”, e uma estrutura material, que chamamos de corpo. Mas, como diferença específica cm relação a todos os animais, temos, em nossa alma, uma esfera sensorial, com um apetite próprio, que chamamos de sensualidade”, e uma esfera intelectual, com um apetite próprio ao qual chamamos de “vontade”.

Portanto, temos uma relação de razão com os membros do nosso corpo, além de uma relação entre a esfera sensitiva, com seus apetites, e a esfera intelectual em nossa alma.

Segundo Aristóteles, na sua obra sobre a Política, há, em nós, uma dupla maneira de integração:

1. A integração entre nossa alma e nosso corpo, que ele descreve como uma integração “despótica” ou “autoritária”. De fato, quando queremos, por exemplo, caminhar, sem nem sequer pensar nossos pés se movem, nossas pernas se movem, sem resistência. Quando queremos acenar para alguém, nossa mão se move espontaneamente. O controle que temos do nosso corpo é real, instantâneo e automático. Por isto é chamado, por Aristóteles, de “despótico” ou “autoritário”.

2. A integração entre nossa sensualidade e nossa razão, que Aristóteles chama de “negociada” ou “política”. Aqui, a relação entre a razão e a sensualidade não é automática, mas como que debatida, negociada, política, porque a sensualidade pode resistir à razão, pode opor-se a ela e pode induzi-la, inclusive, a erro. Vemos, por exemplo, como é difícil resistir a uma bela fatia de torta, mesmo quando o médico recomendou evitar doces e guloseimas. Há necessidade de um verdadeiro ‘debate interno” em nós, para nos convencer a uma dieta alimentar; muito diferente da obediência que a mão nos presta quando queremos acenar.

Isto ocorre porque a sensualidade não obedece apenas à capacidade cogitativa da razão (a nossa razão prática, que equivale, em nós, ao sentido interno da estimativa, nos animais), mas sofre influência da imaginação e pelos próprios sentidos. Assim, sabemos, por experiência própria, como é difícil resistir a imaginar os doces prazeres de uma sobremesa açucarada e achocolatada, ou vencer a resistência a submeter-se a uma cirurgia eletiva necessária. A imaginação, que antecipa os prazeres e as dores relacionadas a estes eventos, atrapalha a relação entre a sensualidade e a razão.

Mas esta dificuldade, este jogo político que existe dentro de nós, não pode ser reduzido a nada, como uma desistência de controlar apetites sensoriais. Eles existem, são fortes, mas podem ser integrados à razão com esforço e até com a ajuda da graça de Deus. Este é o papel das virtudes morais.

O terceiro argumento objetor.

Os nossos sentidos não obedecem à razão. A visão não escolhe o que vê, o ouvido não esclhe o que ouve, mas os sentidos simplesmente respondem aos estímulos próprios, concretos, externos, que recebem. Ora, a sensualidade é apetite sensorial; também responde a estes mesmos estímulos, porque está na mesma esfera da alma que os sentidos. Assim, os apetites irascíveis e concupiscíveis estão em relação com os sentidos, não com a razão, e não se submetem a ela, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não se pode comparar o funcionamento dos sentidos com o funcionamento dos apetites sensuais (ou sensualidade).

Os sentidos são potências de apreensão. Precisam dos estímulos do mundo externo para funcionar, e não temos controle sobre estes estímulos; não controlamos o que vamos ver, ouvir, aprender, porque não é a nossa razão que cria o mundo. O mundo externo é um dado.

Mas as nossas potências tendenciais, ou seja, as nossas capacidades de tender, de nos inclinar, recebem seus estímulos internamente, a partir das coisas que chegamos a conhecer. São as imagens, formadas na nossa memória, na nossa imaginação, que estimulam os apetites a nos inclinar ao bem conhecido. Ora, estes estímulos internos se submetem ao controle da razão: de fato, podemos anuir ou dissentir das nossas imagens internas, das nossas emoções, das nossas paixões, de tal modo a mitigar ou estimular os respectivos apetites. A razão pode, por exemplo, ampliar uma pequena ofensa recebida, transformando-a numa grande ameaça a ser enfrentada, ou pode diminuir as imagens que parecem nos informar sobre algum grande perigo a ser evitado, capacitando-nos a enfrentá-lo com coragem. Diferentemente dos estímulos cognitivos recebidos pelos sentidos, os estímulos internos recebidos pela sensualidade podem submeter-se à razão.

3. Conclusão.

Estudamos, assim, o apetite sensual. E compreendemos o seu jogo dinâmico de estímulo e controle, de integração e separação, de tal modo a nos permitir caminhar para uma vida virtuosa.

Na próxima questão, estudaremos a vontade, ou seja, o apetite intelectual em nós.