1. Retomando.

Há uma clássica divisão entre as virtudes morais e as virtudes intelectuais, que se fundamenta num trecho do Livro I da Ética a Nicômaco, em que Aristóteles afirma que há, na alma, além da parte propriamente intelectual, uma parte que não é intelectual mas participa da razão, porque é capaz lhe obedecer. Esta parte, que se constitui justamente dos apetites sensoriais ou sensualidade, envolve o irascível e o concupiscível. Mas estamos nos adiantando. Examinemos agora a resposta de Tomás ao nosso problema.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Na parte superior da alma humana estão a inteligência, que, no nosso caso, é a razão (inteligência processual, que depende de aprendizagem) e a vontade, que é o apetite da razão. Na parte intermédia da alma humana está a esfera sensorial, cujo instrumental de aprendizagem se constitui em cinco sentidos externos e cinco sentidos internos, e o apetite é a sensualidade, subdividida em concupiscível e irascível. A esfera inferior é a vegetativa, pela qual nos nutrimos e reproduzimos. Esta não obedece à razão de nenhum modo: não digerimos ou crescemos porque queremos.

Mas a sensualidade pode obedecer tanto à razão quanto à vontade. Mas isto se dá de dois modos diferentes.

A sensualidade e a razão.

O primeiro modo é o modo pelo qual os apetites irascível e concupiscível obedecem à razão.

Isto se dá do seguinte modo: nos animais, o apetite concupiscível e o irascível estão ligados ao sentido da estimativa, que é aquele sentido interno capaz de calcular para antecipar os estímulos externos. Assim, o cão pula no ar para apanhar a bolinha que eu arremesso, e pula de tal modo que estará, ao final do salto, exatamente no ponto em que a bolinha estará, dada a sua velocidade e a inclinação do arremesso. Mas isto não se dá de modo consciente, como se o cão soubesse geometria e fosse capaz de calcular instantaneamente a parábola do arremesso da bolinha para colocar-se no lugar exato em que ela estará.

No caso do ser humano, o sentido da estimativa, como já vimos, chama-se cogitativa, porque integra este sentido interno instintivo, verdadeira “sabedoria corporal”, com a capacidade da razão de antecipar e avaliar concretamente a situação. Assim, se, durante uma partida de futebol, arremesso uma bola para o meu companheiro de equipe, e, durante o salto, ele percebe que há um outro jogador numa posição melhor para atingir o gol, ele modifica o seu salto para deixar a bola passar para o outro jogador; e este movimento envolve o controle instintivo do corpo mas, ao mesmo tempo, a estratégia decidida em frações de segundos pela razão prática.

Ora, diz Tomás, esta razão particular, ou prática, que lida com o concreto da vida, não é diversa da razão universal, que conhece, por exemplo, as regras do jogo de futebol, as cores dos uniformes e o comportamento cinemático de uma bola arremessada, de tal modo a permitir tirar conclusões particulares, concretas, individuais e localizadas a partir desses fatores, determinando um comportamento que, nos animais, seria puramente instintivo. É por isto que a estimativa, nos seres humanos, chama-se cogitativa. Porque as reações, mesmo sabendo-se que são estimuladas sensorialmente, podem levar em conta a razão, para acontecer. Registre-se, no entanto, que elas não são simplesmente estimuladas pela inteligência, porque o conceito de inteligência é mais amplo que o conceito de razão. Aqui, há uma especificação: é sempre a razão, e não simplesmente a inteligência, quem influencia o comportamento humano concreto, porque as situações concretas são sempre contingentes, e, portanto, não podem ser diretamente influenciadas pelo conhecimento universal e abstrato. Sempre há um raciocínio que leva do universal ao concreto, e que influencia as nossas reações passionais, sensuais.

A sensualidade e a vontade.

Mas a influência da inteligência nas reações sensoriais não se dá somente no processo de formação da reação; também a execução da reação sensorial deve submeter-se, no ser humano, à vontade, quer dizer, ela deve passar por alguma aprovação do apetite intelectual para executar-se.

O exemplo de Tomás é o de uma ovelha que vê um lobo; a sua reação imediata é fugir, porque o seu apetite concupiscível é capaz de movê-la diretamente. Mas não é assim no ser humano.

Em nós, o apetite sensorial não move diretamente. De fato, nossas potências motoras dependem da vontade para passar ao ato, porque a vontade condiciona o próprio estímulo sensorial. Quando há dois motores, diz Tomás filosoficamente, o segundo motor não pode mover de fato o ente, senão em virtude do primeiro. Ora, em nós o primeiro motor é a vontade. Portanto, o segundo motor, que é a sensualidade ou apetite sensorial, não pode nos mover diretamente, salvo quanto a atos reflexos (que não são propriamente atos humanos, mas apenas “atos do homem”, no sentido de originarem-se em nós, mas não como verdadeiros autores; veremos isto quando chegarmos ao estudo da ética).

Assim, diferentemente da ovelha, quando vemos um animal feroz vindo em nossa direção, a reação de fuga deve passar pela aprovação da vontade para executar-se. Portanto, se fujo do lobo, faço isto porque quis, mesmo que o estímulo seja sensorial.

Assim, vemos que a sensualidade se submete à razão, quer na formação, quer na execução de suas inclinações.

3. Encerrando.

Mais uma vez, estes conceitos estabelecidos aqui devem permanecer em nossa memória, quando estudarmos a parte propriamente ética da Suma.

No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.