1. Introdução.

Existe, em nossos tempos, um certo “freudianismo popular” (uma extrapolação do pensamento de Sigmund Freud, famoso criador da psicoterapia), também ligado a interpretações de David Hume e outros iluministas, de que defendiam que as emoções e as paixões sensíveis não são controladas pela razão. No caso de Freud, ele entendia que o “inconsciente”, ou o “subconsciente”, era mais dirigido pelas paixões e sensações do que admitiríamos, e que, na verdade, a nossa inteligência funcionaria depois, apenas para justificar aquilo que as nossas inclinações sensíveis já tinham determinado que faríamos. O resto seria apenas “repressão interna” e “justificação posterior”, que levariam às neuroses e aos desequilíbrios, porque, no fundo, é apenas hipocrisia. Nada mais distante da visão de Tomás.

Aqui, em Tomás, temos uma visão muito mais sólida do poder da razão, da responsabilidade ética e da confiança na possibilidade da virtude. É claro que o pecado original feriu nossa natureza, e por isto a integração entre a nossa alma sensorial e a nossa alma racional não é mais perfeita. Mas existe. Temos, realmente, a possibilidade de sopesar racionalmente as nossas paixões, a nossa sensualidade e as nossas emoções, educá-las, escolher nosso modo de atuá-las e consentir ou dissentir delas. No limite, temos o sacramento da confissão para devolver a retidão rompida pelo pecado.

Eis o que examinaremos neste artigo, e que será essencial para compreender a própria possibilidade de ética e virtude: examinaremos a capacidade da razão de sopesar e comandar a sensualidade, e, portanto, a possibilidade de agir humanamente.

Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, aqui, é bem moderna, para nós: é justamente a hipótese de que nossa sensualidade, nossas paixões, nossas emoções, nos guiam de uma maneira tão poderosa que, no fundo, a razão não tem nenhum poder sobre elas, senão o de inventar, posteriormente, desculpas e justificativas para o nosso agir. Parece, portanto, segundo a hipótese, que o irascível e o concupiscível não obedecem à razão. Há três argumentos no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o próprio Santo Agostinho, na obra sobre a Trindade, diz que a sensualidade é simbolizada, no relato bíblico da criação, pela serpente.

Ora, no relato bíblico, a serpente é capaz de determinar o comportamento dos primeiros pais, levando-os a agir contra a razão e pecar. Assim, fica evidente que a sensualidade não obedece à razão, mas, na verdade, é capaz de dirigir diretamente o próprio comportamento humano, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

A obediência envolve uma harmonia, e não a oposição. Quem obedece a outro não se coloca numa posição de conflito, de oposição e resistência. Mas a Bíblia mesma atesta que as inclinações sensoriais, ou seja, a nossa sensualidade, está em oposição à razão, quando, na Carta aos Romanos 7, 23, São Paulo nos ensina: “percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei de minha razão”. Ora, está atestado, diz o argumento, que a sensualidade não obedece à razão.

O terceiro argumento objetor.

O nosso apetite sensorial, ou sensualidade, é algo que compartilhamos com os animais. Também nossos sentidos, ou alma sensorial, são compartilhados com eles. Portanto, tanto os sentidos quanto a sensualidade são comuns, com referência à racionalidade, que é especial, porque nos é exclusiva.

Ora, os sentidos, embora sejam inferiores à razão, não estão submetidos a ela. Não ouvimos ou vemos quando queremos, ou seja, vemos o que nossos olhos enxergam, ouvimos o que nossos ouvidos escutam, não o que queremos ver ou ouvir.

Se a sensualidade, pelo concupiscível e pelo irascível, é o apetite sensorial, e é inferior à esfera racional, deve obedecer à mesma lógica que os sentidos obedecem. Assim, se os sentidos funcionam independentemente da razão, também a sensualidade deve funcionar assim. Se não vemos e ouvimos o que queremos, mas o que temos que ver e ouvir, então tampouco nos inclinamos para o que queremos, mas para o que os sentidos apresentam à nossa apreensão. Deste modo, a sensualidade, tanto nas capacidades concupiscíveis quanto nas irascíveis, não está submetida à razão, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai buscar apoio numa citação do pensamento de São João Damasceno; este santo diz que “a parte obediente à razão, e que se deixa por ela persuadir, se divide em concupiscência e ira”. Ora, conclui o argumento, parece claro que a sensualidade, por suas capacidades da concupiscência e da ira, pode submeter-se à razão.

5. Encerrando.

Não há dúvida de que o irascível e o concupiscível, nos seres humanos, obedecem tanto à razão quanto à vontade, diz Tomás; e é isto que torna possível que haja a ética e que sejamos humanamente virtuosos ou reprováveis: em uma palavra, que torna possível haver responsabilidade pelo nosso agir.

Estudaremos isto no próximo texto.