1. Voltando.

Vimos, no texto anterior, como este movimento da inclinação, de simples atração ou repulsa (chamado de inclinação concupiscível) ao bem ou mal diretamente presente, não explica todas as inclinações do apetite sensível.

Cabe, neste momento, uma digressão. A inclinação concupiscente não é sinônimo de pecado. Não se pode imaginar que a apatia aos estímulos dos sentidos seja uma espécie de ideal cristão: não é. O apetite concupiscente, porém, deve submeter-se à virtude, para ser adequado. Mas isto é assunto para a segunda seção desta primeira parte da Suma, que examinaremos em breve.

Por agora, devemos lembrar que há algumas inclinações, em nós, que levam à audácia, à cólera dirigida a algum obstáculo que se coloca entre nós e o bem sensível: eis o chamado “apetite irascível”. É por ele que a mãe loba enfrenta a leoa, na defesa de sua cria, ou que o pequeno esquilo arrisca-se para alcançar a noz que está num lugar perigoso, e esforça-se para quebrar sua casca, de modo a alimentar-se de sua polpa.

Vimos, ainda no texto anterior, que este padrão de vencer obstáculos, de até mesmo inverter suas inclinações naturais em razão da necessidade de superar algum desafio, existe até nas coisas inanimadas. A água, se barrada no caminho natural da gravidade, é capaz de acumular-se, subindo de nível, até transbordar. O fogo, ameaçado por algum corpo sólido capaz de extingui-lo, tende a aquecer e queimar este corpo, de tal modo a manter-se na existência.

Há, portanto, duas inclinações, uma que leva diretamente ao bem presente, ou afasta diretamente do mal presente, e a outra que faz vencer obstáculos para alcançar o bem percebido ou fugir do mal detectado.

Este padrão existe, de maneira ainda mais visível, nos seres vivos dotados de sensibilidade. É neste ponto que retomamos o exame à resposta sintetizadora de Tomás.

2. Retomando a resposta sintetizadora de Tomás.

Temos um apetite sensorial, ou sensualidade, diz Tomás. Mas ela não é um conjunto unitário: a sensualidade é um gênero, que pode ser subdividido em duas subespécies de potência: a potência concupiscível e a irascível. Assim, elas são subdivisões da potência maior, que é a sensualidade.

Mas por que a sensualidade não pode ser apenas uma potência, indivisa?

O estímulo sensorial muitas vezes nos apresenta um bem que nos atrai incondicionalmente, e está ao nosso alcance. Uma fruta madura, uma água fresca, uma sombra repousante, tudo isto atrai diretamente a sensibilidade, porque é percebido como bom. Do mesmo modo, um predador enfurecido, um líquido venenoso e malcheiroso, um espinheiro ao sol, são exemplos de estímulos desagradáveis, que incitam a fuga. Tudo isto causa uma reação sensorial direta, de atração ou repulsa, que chamamos de “apetite concupiscível”.

Mas há outra ordem de estímulos, que opõe um obstáculo entre nós e o bem. Um predador que ataca a prole, um enxame vivo de abelhas agressivas, no caminho da única fonte de água, um fruto de casca duríssima, com polpa nutritiva, tudo isto levaria à fuga, se houvesse apenas a resposta concupiscível. Mas há uma outra ordem de reação, que leva a enfrentar o mal, a dor, o desprazer, em razão do bem árduo que é necessário ao ente.

Portanto, há, de modo genérico, nas duas ordens de reação, apenas uma potência sensorial de inclinação, a sensualidade. Mas, no caso do bem que se apresenta facilmente, o objeto é exatamente a relação de concordância entre o bem ou o mal presentes, por um lado, e a atitude de aproximação ou fuga, do outro.

No caso dos estímulos que despertam a ira, o objeto é exatamente o obstáculo ao bem, percebido sensorialmente como impedimento aos fins de sobrevivência, nutrição ou reprodução, por exemplo. Há, portanto, também uma busca ao bem, mas sob outro objeto, que leva a uma resposta que é oposta à concupiscível: aqui, o mal percebido como obstáculo provoca o enfrentamento, não a fuga. Logo, conclui Tomás, não pode se tratar da mesma espécie de potência, porque não há o mesmo objeto específico.

O objeto geral, porém, é o mesmo: o bem sensível, que, num primeiro momento, ativa o apetite concupiscível; percebendo-se o obstáculo, o apetite irascível é despertado e o enfrenta. Quando o obstáculo é vencido, o apetite concupiscível, agindo diretamente, pode, então, aproximar-se e repousar no bem, ou fugir e evitar o mal. É por isto que são dois apetites do mesmo gênero, embora não da mesma espécie. São do mesmo gênero porque o irascível é despertado pelo concupiscível e se resolve neste. Por exemplo, é a fruta que atrai o animal à árvore na qual está o enxame, e é a fruta que ele comerá, quando o enxame for afastado. O irascível, diz Aristóteles, leva à luta pelas coisas do concupiscível, como a alimentação e a reprodução.

3. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor diz que os contrários são objeto da mesma potência, e não a diversificam. Assim, o silêncio e o ruído são objeto da audição, o claro e o escuro, da visão e assim por diante. Portanto, a tendência para reagir ao bem, que é objeto do concupiscível, ou reagir ao mal, que é objeto do irascível, são reações a objetos da mesma espécie, mas contrários. Logo, o irascível e o concupiscível não são duas potências diversas, mas a mesma potência reagindo a estímulos contrários, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A potência sensorial concupiscível tem por objeto tanto o estímulo bom quanto o mal, mas apenas sob a razão de deixar-se atrair pelo bem e fugir do mal. A potência irascível, porém, leva a resistir ao que é sensivelmente visto como mal ou ameaçador, para alcançar o bem árduo que se apresenta após a luta. Não se trata, pois, apenas de estímulos contrários da mesma espécie, mas verdadeiramente de objetos diferentes, que determinam potências diversas.

O segundo argumento objetor.

O apetite sensorial, ou sensualidade, é o apetite que responde aos estímulos recebidos pelos sentidos, inclinando-nos a eles. Ora, aquilo que nos inclina aos estímulos sensoriais é objeto concupiscível. Logo, o apetite sensorial, ou sensualidade, é o próprio concupiscível, não se havendo de falar que o irascível seja um apetite à parte, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Quando nós estudamos a estrutura da parte sensorial da alma, lembra Tomás, nós vimos que havia, ali, uma potência chamada de “estimativa”, que se apresenta como um dos nossos sentidos internos. Por esta potência, os animais são capazes de antecipar, de certo modo, os estímulos recebidos, de tal modo que possam calcular, por exemplo, onde a presa estará no próximo minuto e, saltando, capturá-la. Este sentido interno dá fundamento ao apetite irascível, porque, uma vez que esta potência pode antecipar o comportamento do objeto, pode também calcular a necessidade de enfrentar algum tipo de ameaça ou perigo para atingi-lo. E isto constitui, exatamente, a capacidade chamada de “virtude irascível”.

O terceiro argumento objetor.

Já vimos que os contrários, como o claro e o escuro, pertencem sempre à mesma potência (no caso, à visão). Mas segundo São Jerônimo, diz o argumento, o ódio está no irascível: “possuamos, no irascível, o ódio aos vícios.

Mas o ódio é o contrário do amor, e o amor pertence ao concupiscível. Logo, se o concupiscível possui o amor, deve possuir também o ódio. Mas se o ódio deve estar no irascível, isto nos leva a concluir que o concupiscível e o irascível não são coisas distintas, afirma o argumento.

A resposta de Tomás.

O ódio e o amor pertencem, de fato, ao concupiscível, como objetos de inclinação ou repulsa direta. Mas, quando o movimento do ódio leva ao enfrentamento para a superação de um obstáculo, a fim de alcançar o objeto de amor, então ele está no irascível, diz Tomás. É nisto que diferem estas duas potências.

4. Conclusão.

Precisaremos muito destes conceitos de potências sensoriais, ou sensualidade, com sua subdivisão em concupiscível e irascível, quando estivermos estudando as paixões humanas e sua moralidade, na segunda seção desta primeira parte da Suma. Guardemos, então, em nosso coração.