1. Retomada.

O que é a inclinação sensual, ou sensorial, que Tomás (e toda a tradição de seu tempo) chama de “sensualidade”? Algo que não pode nos comandar, porque não podemos deixar de usar a inteligência que temos, e que propriamente nos caracteriza como humanos. Mas tampouco pode ser ignorado, já que somos também animais, corporais e sensoriais, isto é, relacionamo-nos com o mundo pelos sentidos. Assim, é essencial saber o que é a sensualidade, acolhê-la com seu valor real de motivação, na justa medida, e submetê-la à razão. Mas para isto precisamos defini-la. É o que Tomás fará agora.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

É preciso esclarecer a natureza desta inclinação, que é parte de nós, e que decorre diretamente dos estímulos sensíveis que recebemos, pelo bem particular que eles representam. Sem dúvida, um alimento doce desperta nossa sensualidade para comê-lo, uma pele macia pode despertar nossa sensualidade para acariciá-la, uma palavra sedutora pode despertar nossa sensualidade para ouvi-la, um cheiro agradável pode nos inclinar para a sua fonte, como a imagem de alguém jovem e sexualmente disponível pode atrair o olhar. Todos estes movimentos são sensuais, e podem ser positivos, se devidamente integrados pela inteligência.

O estímulo sensorial agrada o sentido por ser bom sensorialmente. Não há dúvida de que algo de bom paladar é bom para ser comido. Sob o aspecto do agradável, do saboroso, ele é plenamente bom. Neste sentido, a sensualidade é pobre: ela e despertada pela bondade incondicional de um estímulo agradável ao sentido, bondade que decorre do fato de que o sentido não leva em conta outros aspectos do bem senão aquele que se refere à sua própria potência. Os olhos podem deleitar-se com um belo corpo nu, sem levar em conta o fato de que aquela nudez é fruto da miséria de uma pessoa desesperada por dinheiro, que recebeu uma quantia para despir-se sob olhos concupiscentes. O paladar pode deleitar-se incondicionalmente com um chocolate raro, sem levar em conta o fato de que o corpo já está com excesso de peso e pode chegar, com aquele alimento, a uma obesidade mórbida. Para o paladar, o sabor daquele chocolate é incondicionalmente bom.

Assim, a sensualidade é esta inclinação unidimensional, nascida do estímulo sensorial que nos comunica a bondade unilateral da coisa que o estimula. Chama-se, portanto, “sensualidade” esta potência, por sua origem sensorial, como a “visão” chama-se assim por ser a potência que se origina do sentido da vista.

No campo sensorial, portanto, temos duas etapas: os sentidos realizam um processo de conhecimento sensorial, no qual o objetivo, o ato, é a apreensão da coisa que se expõe aos sentidos. De certa forma, ao apreendermos a coisa, é a coisa que é movida a nós, é assimilada em nós e passa a existir, intencionalmente, em nossa memória. Vale dizer, o processo de aprender é o processo de ter em nós o objeto apreendido. Não é, pois, um processo em que nós nos inclinamos ao objeto: é um processo em que o assimilamos para que ele esteja em nós.

Mas o processo apetitivo é diferente. Aqui, havendo assimilado a species, vale dizer, o conhecimento sobre o objeto, por meio das potências apreensivas, sentimos em nós o desejo de possuir a coisa conhecida; isto, este desejo, este impulso que nos inclina não mais ao conhecimento da coisa, mas a ela mesma, em razão de termos, em nossa memória, a semelhança de suas boas características sensoriais, é exatamente a potência apetitiva que chamamos de sensualidade.

Portanto, as potências apreensivas nos levam à assimilação do objeto, e demandam o repouso, o exame, a contemplação. A potência apetitiva, por outro lado, nos move, nos impulsiona, e demanda a ação, a operação, a apropriação. É a esta potência, que responde ao estímulo sensorial com o impulso a movimentar-nos até ela, que Tomás chama de “sensualidade”.

3. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

1. O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que na obra sobre a Trindade diz que a sensualidade se exerce pelos sentidos do corpo, que temos em comum com os animais. Ora, os sentidos são órgãos apreensivos, diz o argumento. Logo, a potência da sensualidade não envolve apenas a inclinação do desejo, mas também a apreensão sensorial, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A sensualidade tem relação direta com os sentidos do corpo, já que o movimento de desejo e inclinação decorre diretamente daquilo que vem a ser objeto de conhecimento pelos sentidos. Mas isto não significa que a própria apreensão pelos sentidos seja parte da sensualidade; na verdade, a apreensão sensorial é anterior, e portanto é pressuposto da sensualidade, mas não é parte dela.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor é ainda uma citação de Santo Agostinho. Este santo, na obra sobre a Trindade, classifica a sensualidade como oposta à razão superior e à razão inferior. Ora, prossegue o argumento, tudo aquilo que está na mesma classificação pertence ao mesmo gênero. Portanto, se a sensualidade está na mesma classificação que a razão, que é uma potência cognitiva, então ela, a sensualidade, deve ter, também, uma dimensão cognitiva, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O conhecimento nos move. Podemos buscar ativamente conhecer alguma coisa, contemplá-la. Neste sentido, as potências de conhecimento têm uma força de nos mover, para fins de apreensão e contemplação. Mas o apetite sensual, que é a sensualidade, também tem a força de nos mover, embora, aqui, o objetivo do movimento seja oposto ao movimento gerado pelas potências apreensoras: aqui, o objetivo é a apropriação da própria coisa que os sentidos apreendem e contemplam como sensualmente boa. É neste sentido, portanto, que Santo Agostinho classifica a sensualidade como oposta à razão inferior e a razão superior; ela também desencadeia a potência motora, mas o objetivo do movimento é a apropriação, não a simples contemplação. Por isto, Santo Agostinho a coloca na mesma classificação que as potências apreensivas, com relação à potência motora, mas aponta que o movimento causado por uma e por outra é oposto. Numa, movemo-nos à contemplação da apreensão. Noutra, movemo-nos à apropriação e ao desfrute. Portanto, o fato de que as potências apreensivas estão na mesma classificação da sensualidade não deve nos fazer conclui que a sensualidade seja apreensiva, mas ela é, como sabemos, puramente apetitiva.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento faz uma leitura alegórica do relato bíblico da criação no Gênesis, afirmando que a serpente, na história da queda, é a personificação da sensualidade. Mas a serpente não simplesmente inclina ao mal, mas argumenta, propõe, anuncia, o mal, a evidenciar que a sensualidade não é apenas um apetite, mas tem uma dimensão cognitiva também, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não podemos levar tão ao pé da letra a imagem da serpente como personificação da sensualidade. Ela o é, em certa medida, porque apela, para mover os seres humanos ao pecado, às dimensões sensuais do pecado, como o fato de que o fruto proibido seria bom ao apetite e formoso à vista (Gn 3, 6). Mas a serpente é muito mais do que isto: ela tenta o ser humano em todas as suas dimensões, intelectual, apetitiva, sensual, sensorial, enfim, o ser humano como um todo. Mas, dado que o seu estímulo principal não é um estímulo a contemplar o fruto proibido, mas a apanhá-lo e consumi-lo, ela pode ser equiparada, alegoricamente, à sensualidade, que inclina ao gozo do bem particular, sem ponderar o bem universal. É uma alegoria, portanto, limitada, que deve ser considerada com todo cuidado, portanto.

4. Conclusão.

Estabelecemos, assim, com muita clareza, o que é a sensualidade, qual sua natureza. No próximo texto, estudaremos a estrutura interna da sensualidade, com suas dimensões constitutivas que se denominam “irascível” e “concupiscível”. Será muito interessante.