1. Introdução.
Com dissemos no último texto, a palavra “sensualidade” adquiriu, para nós, uma significação muito sexual; de fato, como certa psicologia contemporânea, que se pretende científica mas é apenas redutiva, quis explicar todos os impulsos humanos como expressões não controladas (nem controláveis) da sexualidade, a noção de um apetite estritamente ligado à percepção sensorial foi também reduzido à sexualidade. O que é uma perda. Há um apetite sensorial, que não se limita ao sexo,, mas envolve a inclinação para tudo aquilo que agrada os sentidos; se não recuperarmos a riqueza e a legitimidade deste apetite, perdemos a beleza material do mundo. Porque, de fato, tudo o que agrada os sentidos pode ser considerado, de certo modo, belo; porque agradável.
Mas como designar este apetite, e como caracterizá-lo como um impulso legítimo? Tomás não hesitava (e com ele toda a filosofia clássica e a teologia escolástica) em chamá-lo de “sensualidade”. Talvez “sensoriedade” fosse uma palavra mais adequada, mesmo sendo um neologismo; mas tomemos como tarefa o resgate deste apetite. E com o seu nome histórico de “sensualidade”, purificado de sua conotação redutiva. Vamos ao artigo.
2. A hipótese controvertida.
A discussão, aqui, será relativa à delimitação da noção de “sensualidade”, ou “sensoriedade”. Esta inclinação, ou tendência, que está diretamente ligada à esfera sensorial da nossa alma, pode ser classificada como um puro apetite? É uma potência de tendência, um apetite que inclina, ou a sensualidade é algo que envolve toda a esfera sensorial, em suas dimensões de apreensão e inclinação, vale dizer, aquilo que os sentidos vêm a conhecer e nosso apetite vem a desejar?
A hipótese controvertida, portanto, para provocar o debate, é que a sensualidade não é apenas um apetite, uma tendência a um objeto já reconhecido anteriormente pelos sentidos, mas a palavra descreve toda a realidade sensorial, em suas dimensões apreensiva e apetitiva.
Há três argumentos objetores, aqui, no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor vai citar Santo Agostinho, na obra Sobre a Trindade, que afirma que “o movimento sensual da alma, que se estende aos sentidos do corpo, é comum aos seres humanos e aos animais”. Ora, prossegue o argumento, por “movimento sensual da alma” podemos entender a sensualidade, como potência sensível, que temos em comum com os animais. Para Agostinho, portanto, esta potência envolve não somente a tendência da alma para o bem, mas também os próprios sentidos do corpo; mas os sentidos do corpo, lembra o argumento, são potências apreensivas, não simplesmente apetitivas. Logo, a sensualidade, esta tendência sensorial, envolveria as potências apreensivas e as apetitivas da alma, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento também traz Agostinho, na obra Sobre a Trindade.
Primeiro, o argumento vai lembrar aquele princípio lógico de que somente se pode colocar, na mesma classificação, coisas que pertencem ao mesmo gênero. Ninguém poderia, por exemplo, classificar pedras com ideias e baleias, porque não são coisas do mesmo gênero.
Mas o argumento prossegue, lembrando que, na referida obra, Santo Agostinho classifica a sensualidade, ou sensorialidade, como algo oposto à razão superior e à razão inferior. Ora, se ele classifica junto a razão superior, a razão inferior e a sensualidade, e se tanto a razão superior quanto a inferior são potências cognitivas (ou apreensivas) isto significa que ele reconhece que a sensualidade deve participar, de algum modo, do gênero das potências apreensivas, senão não poderia estar na mesma classificação que estas.
Assim, conclui o argumento, a sensualidade envolve em si também as dimensões apreensivas do sujeito.
O terceiro argumento objetor.
Por fim, o terceiro argumento lembra que, numa leitura alegórica da Bíblia, a serpente do segundo relato de criação da Bíblia simboliza a sensualidade. Mas, na narrativa bíblica, a serpente não se limita a inclinar o ser humano ao pecado; ela propõe, argumenta, revela e demonstra o pecado. Ora estas atitudes, de revelar, demonstrar, propor, argumentar, são atitudes próprias de atividades cognitivas. Logo, a sensualidade inclui, em si, as dimensões cognitivas da esfera sensorial da alma, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra lembra que a definição de sensualidade é simplesmente “apetite das coisas que pertencem à corporeidade”. Ora, a própria definição demonstra que a sensualidade é um apetite, isto é, uma potência que faz inclinar, que faz tender, e não uma potência que faz conhecer, conclui o argumento.
5. Encerrando.
Colocados os termos do problema, veremos a sua solução no próximo texto, no qual examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás e o modo pelo qual ele enfrenta os argumentos objetores iniciais.
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