1. Introdução.

O universo é concebido de uma maneira curiosa: as coisas se relacionam. E mais, as coisas se atraem, como demonstra a lei universal da gravitação. E mais do que isto, elas parecem se encaixar e mesmo, diríamos metaforicamente, parecem desejar-se reciprocamente. E esta é uma regra realmente universal: desde as coisas inanimadas até as coisas vivas, passando pelos entes dotados de capacidades sensoriais e, finalmente, pela inteligência, há uma regra universal de atração, pela qual tudo se atrai e se completa.

É desta atração, desta busca recíproca, que relaciona todas as coisas, que vamos tratar agora. Em primeiro lugar, nesta questão 80, estudaremos esta inclinação em geral, da qual compartilham todas as coisas. Em seguida, nas questões seguintes, estudaremos o apetite relacionado à chamada “alma sensorial”, ou seja, o apetite sensorial ou sensual, o apetite da inteligência, que é a vontade, e, por fim, o livre arbítrio.

Nesta questão, portanto, o que está em jogo é o próprio fenômeno da inclinação ou apetite, em sua forma mais genérica, que compartilhamos inclusive com o seres inanimados (que apresentam inclinações, também, como a gravidade ou a mudança de estado físico frente a mudança de temperatura, só para dar dois exemplos).

Vamos então ao debate. E, em primeiro lugar, debateremos sobre a natureza das inclinações, em nós. Formarão elas alguma potência ou capacidade em nós? É este o debate que agora se inicia.

2. A hipótese controvertida.

A experiência universal da inclinação, isto é, de que mesmo os seres inanimados tendem a um fim, parece favorecer a ideia de que a inclinação não é uma potência especial da alma, uma capacidade dos seres vivos.

É preciso, aqui, lembrar da chamada causa final, que nada mais é do que a inclinação natural das coisas. Esta causa, que era uma das chamadas “quatro causas” da filosofia clássica, tem sido pouco admitida hoje. Não conseguimos admitir, por exemplo, que a causa final do coração seja bombear sangue, ou que a causa final da nuvem de chuva seja chover. Quando provocamos uma fagulha num material combustível, para nós é difícil admitir que a causa final do material combustível seja incendiar-se, como no caso do palito de fósforo que, por atrito com uma lixa, vem a acender. Mas tudo isto é considerado como “causa final” nas filosofias clássicas.

Ora, se a causa final é parte da explicação das próprias coisas em suas transformações, então a inclinação para um fim não parece ser uma característica própria dos seres vivos, quer dizer, daqueles seres cuja forma substancial é uma “alma”. E, portanto, daí vem a hipótese controvertida que será debatida agora: parece que o apetite, quer dizer, a inclinação para um fim, não é uma potência especial dos seres vivos, vale dizer, não é uma potência da alma.

Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor é exatamente este: todas as criaturas, vivas ou inanimadas, movem-se em razão de uma causa final. Ora, se todas as coisas se inclinam para um fim, então a inclinação para um fim não é uma característica exclusiva dos seres vivos. Logo, não se pode dizer que o apetite, que é a inclinação dos seres vivos a um fim, seja uma capacidade tipicamente viva, da alma, ou seja, o apetite não é uma potência especial da alma, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento vai por outra linha: a linha do objeto, como identificador das potências ou capacidades humanas.

De fato, cada potência tem um objeto próprio, que a diferencia de todas as outras. Assim, o objeto da visão é a percepção da luz, como o objeto da audição é o ruído.

Ora, prossegue o argumento, nós aprendemos por meio dos sentidos e do intelecto. Assim, o objeto das nossas capacidades apreensivas são as coisas, como conhecidas.

Mas as mesmas coisas que conhecemos são as coisas que despertam nosso apetite; vale dizer, aquilo que é objeto da nossa potência de conhecer é também objeto de nossas inclinações, porque somente podemos desejar aquilo que conhecemos.

Portanto, se o objeto da potência apreensiva é o mesmo objeto do apetite, então o apetite não se constitui numa potência diferente daqueles potências apreensivas, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor faz um raciocínio interessante: cada potência dos seres vivos tem um objeto, então, de certa forma, podemos dizer que cada potência se inclina para seu objeto. Assim, os olhos se inclinam para a luz, porque a luz é seu objeto; a audição se inclina para o som, o tato se inclina para as superfícies, a inteligência se inclina para os universais, e assim por diante. Ora, se cada potência já inclui em si a inclinação para seu próprio objeto, então não há necessidade de propor a existência de uma potência separada, cujo objeto seja exatamente inclinar-se para os objetos que as outras potências apreendem, prossegue o argumento. Logo, não há uma potência apetitiva separada, na alma, conclui.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai simplesmente citar Aristóteles e São João Damasceno. Ambos distinguem as potências apetitivas das apreensivas; estas têm por objeto conhecer; aquelas inclinam o sujeito às coisas conhecidas. Destas duas autoridades, o argumento tira a conclusão de que a alma tem potências apetitivas, ao lado das apreensivas.

5. Palavras de encerramento.

Colocado o problema, que envolve a explicação para a existência da nossa vontade, veremos, no próximo texto, a resposta sintetizadora de Tomás.