1. De volta.
A consciência é, segundo o Catecismo, (citando a Gaudium et Spes 16) “o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual ele se encontra a sós com Deus, cuja voz ressoa na intimidade do seu ser”; a consciência revela, mais do que qualquer outra atitude, a natureza espiritual da nossa inteligência, que é capaz de olhar a si mesma em reflexão.
Digo atitude porque a consciência é justamente isto, segundo Tomás: uma atitude. Se, por um lado, a sindérese marca o início da ética, porque permite estabelecer a busca do bem no agir, por outro lado a sindérese é apenas um hábito, isto é, um aperfeiçoamento da natureza que nos torna capazes de desenvolver fácil e plenamente um potencial. Se não usamos este hábito, se não o colocamos em ato, ele não vale nada. É por isto que vemos, hoje, tantas pessoas que não têm o hábito de inclinar-se ao bem, nem de refletir sobre a própria conduta: renunciaram a usar a inteligência no caminho da própria atuação, ou seja, renunciaram a buscar a felicidade.
Portanto, não se trata, aqui, de algum tipo de “otimismo exagerado” de Tomás, no sentido de acreditar que todos nós temos a sindérese como hábito e a consciência como ato; ao contrário, o que ele está dizendo é que estes dois aspectos marcam a caminhada racional da conduta humana, e que, para agir inteligentemente, temos que adquiri-los. Deixar de tê-los é condenar-se à irracionalidade no agir.
Examinemos, agora, as respostas
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor junta uma citação de Orígenes, antigo Padre da Igreja, que dizia que “a consciência é um espírito que corrige, um professor que se associa à alma, levando-a a fugir do mal e se associar ao bem”.
Ora, prossegue o argumento, a palavra “espírito” está sempre associada a algum tipo de potência ou capacidade da alma. Esta consciência, pois, que Orígenes chama de “espírito”, poderia ser a própria mente humana, no sentido de desenvolver-se espiritualmente, ou seja, de atualizar a capacidade de autoconhecimento, como mencionado em Efésios 4, 23: “renovai-vos pela transformação espiritual de vossa mente”. Portanto, a consciência seria a “potência espiritual” da alma; relacionada com aquela “visão espiritual” que Agostinho chama da imaginação, que é a capacidade de ver a si mesmo em reflexão. Assim, conclui o argumento, a consciência seria uma potência.
A resposta de Tomás.
Orígenes chama a consciência de “espírito” porque a mente humana, sendo espiritual, é capaz de reflexão. De fato, a visão sensorial, dos olhos, não é capaz de enxergar a si mesma, porque é estritamente material: é percepção da luz. Mas a mente, sendo espiritual, pode observar a si mesma, e é esta possibilidade que representa o imperativo da consciência: sendo espiritual, a inteligência se contempla e se julga. E é a esta atitude espiritual, de contemplar-se e julgar-se, que chamamos de consciência moral. Não por ser uma capacidade (já que a capacidade é a própria inteligência espiritual), mas por ser uma conduta, uma prática da inteligência que se contempla.
O segundo argumento objetor.
O pecado, diz o argumento, está sempre associado a alguma potência da alma. As potências da alma são como que sujeitos de pecado, no sentido de que os pecados podem ser identificados como tendo se originado nelas. Assim, temos os pecados sensoriais, como olhar o que não se deve ou buscar ouvir o que não importa, ou os pecados intelectuais, como a inveja ou o orgulho.
Ora, prossegue o argumento, a consciência pode ser sujeito de pecado, conforme testemunha a própria Bíblia, em Tt 1, 15: “Para os puros todas as coisas são puras. Para os corruptos e descrentes nada é puro: até a sua mente e consciência são corrompidas”. Ora, se a consciência pode ser objeto de corrupção, ela pode ser sujeito de pecado; logo, ela é uma potência, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A mancha na consciência existe, mas não porque a consciência é sujeito de pecado. Ela existe porque a consciência sabe do pecado cometido pela pessoa. Assim, o pecado existe na consciência como conhecido, de modo análogo àquele que, quando conheço uma pedra, ela passa a existir em minha inteligência, apenas como objeto de conhecimento. Assim, quando a Bíblia diz que a consciência está corrompida pelo pecado, isto significa, simplesmente, dizer que a pessoa tem consciência dos seus pecados; mas, quer por debilidade de forças, quer por distorções na inteligência causadas pelo próprio pecado, esta mancha permanece no pecador, até o perdão sacramental.
O terceiro argumento objetor.
Finalmente, o terceiro argumento objetor chega ao centro do problema. Trata-se, afinal, de classificar adequadamente esta realidade que se chama consciência moral. Há três classificações possíveis:
1. Ela pode ser um ato, quer dizer, a atuação de alguma outra potência, como o pensamento é o ato da inteligência. Neste caso, a consciência moral seria, simplesmente, um modo especial de pensar.
2. Ela pode ser um hábito, ou seja, uma característica adquirida que permanece latente na potência, aperfeiçoando sua capacidade de realizar seus atos próprios, como a habilidade de tocar um instrumento é um hábito em nós.
3. Ela pode ser uma potência ou capacidade, como a visão ou a audição, ou seja, uma estrutura, em nossa alma, que nos capacita a realizar alguma tarefa específica, e que tem objeto próprio.
Mas, diz o argumento, a consciência não poderia ser um ato, isto é, um modo de funcionar da inteligência humana. Isto porque, se ela é simplesmente um ato da inteligência, então, quando estivermos ocupados pensando outra coisa, a consciência moral simplesmente não existiria, porue nossa inteligência não estaria em ato para ela.
Além disso, diz o argumento, ela não poderia ser um hábito. Na verdade, para resultar num efetivo comportamento, normalmente nós precisamos desenvolver vários hábitos simultâneos. Assim, para tocar piano, precisamos do hábito da teoria musical, do hábito da habilidade manual e do hábito da leitura de partituras, só para mencionar alguns. Assim, se a consciência moral fosse um hábito, ela teria que ser múltipla ou fragmentária, para possibilitar efetivo controle sobre nosso comportamento.
Assim, o argumento conclui que, por exclusão, ela deve ser uma potência ou capacidade humana.
A resposta de Tomás.
É certo que os nossos hábitos não permanecem sempre ativos em nós. De fato, se eu sou um pianista e não estou tocando piano neste momento, a minha habilidade para tocar piano permanece, como um hábito em mim, mesmo que não esteja, agora mesmo, em ato.
Também é verdade que cada operação nossa, cada atitude consistente que efetivamente adotamos, decorre de vários hábitos, como no exemplo do pianista, que, para executar bem seu instrumento, desenvolve destreza manual, conhecimentos de teoria musical, aptidão para ler notação musical e assim por diante.
Portanto, a consciência moral, que é ato, ou melhor, uma atitude efetiva de dirigir nossa inteligência, reflexivamente, para examinar nosso comportamento, também decorre de vários hábitos nossos, como a prudência, a justiça e outras virtudes morais; mas decorre, antes de mais nada, daquele primeiríssimo hábito da razão prática, consistente em que o bem deve ser feito e perseguido, e o mal evitado. Este primeiro princípio da razão prática é tão eficaz na consciência moral, é tão fundamental, que muitas vezes, como já vimos, a própria sindérese é chamada de consciência moral.
3. Concluindo.
Com este texto, terminamos não apenas de estudar este artigo, mas a longa questão sobre a inteligência humana, magnífico estudo neste tratado de antropologia.
Na próxima questão entraremos propriamente no estudo da nossa vontade.
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