1. De volta ao debate.

Esta ideia da sindérese, isto é, de um hábito natural, alcançado sem esforço, pelo qual interiorizamos o princípio básico da razão prática, que deve determinar o nosso agir (o bem deve ser feito e perseguido, o mal deve ser evitado), parece ser muito estranho para nós, que estamos acostumados a pensar na liberdade como a indiferença entre o bem e o mal, e não como a possibilidade de perseguir o bem sem enganar-se; mas esta ideia da liberdade de indiferença é equivocada, e leva a várias aporias. A liberdade pressupõe a possibilidade de escolher entre o bem e o mal, mas não se limita a ela. Na verdade, pela sindérese, o dilema não é entre o bem e o mal, mas entre o bem verdadeiro e o bem aparente. Escolher o mal é, na verdade, deixar-se levar pelo bem aparente, pelo menor bem, por aquele que, na ponderação da escolha, não representa a verdade do bem. Quem escolhe matar o inimigo que não o ataca, ou iniciar uma guerra de invasão, escolhe um bem aparente (a supremacia política, o orgulho, a soberba, o poder, a riqueza) frente a bens verdadeiros como a vida, a justiça ou a dignidade humana.

A sindérese, portanto, deve vir acompanhada da ideia de que escolher mal é deixar de lado a verdade; ou seja, escolher mal, ou escolher o mal, é enganar-se na mentira. É por isto que a sindérese deve completar-se com a consciência, que é a capacidade de refletir sobre o próprio agir, confrontando-o com o primeiro princípio da razão prática; mas isto será assunto do próximo artigo.

Mas estamos nos alongando; vamos examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor parte da ideia de que toda classificação é sempre feita com coisas do mesmo gênero. De fato, não podemos colocar na mesma classificação, por exemplo, bananas, camelos e ideias.

Ora, prossegue o argumento, São Jerônimo classifica a sindérese no mesmo gênero que o concupiscível, o irascível e o racional; na verdade, ele diz que a sindérese é oposta a estas realidades. Mas, prossegue o argumento, concupiscível, irascível e racional são potências ou capacidades humanas. Logo, se a sindérese está na mesma classificação que eles, deve ser uma potência também, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Na verdade, às vezes é um pouco difícil seguir o raciocínio de Tomás pelo simples fato de que ele pressupõe nossa familiaridade com noções que ele apresentará somente mais tarde. É o caso do concupiscível e do irascível, que são aqueles aspectos do apetite sensorial que se relacional com o bem particular, conforme ele se mostre como facilmente atingível (no caso do concupiscível) ou seja necessário superar alguma barreira para atingi-lo (no caso do irascível). O exemplo seria uma bela fatia de torta: quando ela está sobre a mesa, ao meu alcance, desperta meu apetite de modo concupiscível. Mas se ela estiver num lugar alto ou perigoso, de tal modo que eu precise vencer algum obstáculo para alcançá-la, desperta o irascível em mim.

Assim, Tomás nos explica que a sindérese envolve a direção da razão prática ao bem, e portanto ela está no âmbito dos hábitos; mas quando ela dirige a razão, ou mesmo os apetites sensíveis, ela se põe como ato em confronto com as inclinações concupiscíveis, irascíveis ou mesmo racionais, determinando que o sujeito não se mova apenas por considerações sensoriais, mas leve em conta também o bem sob o ponto de vista racional.

Portanto, esta classificação não significa que a sindérese seja uma potência; ela é um hábito. Que pode se atualizar no caminho da razão prática.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento também lembra da noção de classificação. Se classificamos alguma coisa como oposta a outra, temos que admitir que as duas são do mesmo gênero. Ora, prossegue o argumento, a sindérese, como inclinação ao bem inteligível e repulsa ao mal, é oposta à sensualidade, que é a inclinação ao bem sensível sem consideração de ordem intelectiva, ou seja, é a inclinação sensorial àquilo que se apresenta como bom aos sentidos, sem considerar a razão de bem pelo intelecto. Ora, diz o argumento, a sensualidade é uma potência ou capacidade humana. Logo, a sindérese, que é oposta a ela, também deve ser, conclui.

A resposta de Tomás.

A oposição entre a sindérese e a sensualidade decorre do resultado da influência deles nos atos humanos, diz Tomás. De fato, os atos movidos simplesmente pela sensualidade desprezam o bem em sua razão intelectiva, ou seja, consideram apenas a relação do objeto com os sentidos e o prazer imediato gerado. Quando a razão prática avalia corretamente a situação, valendo-se do hábito da sindérese, os atos a serem praticados levam em consideração os aspectos mais amplos do bem, não apenas o prazer sensorial imediato; eis porque os atos guiados pela sindérese são classificados como opostos aos atos guiados pela mera sensualidade. Portanto, isto não significa que a sindérese não seja um hábito.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor vai citar Santo Agostinho. Para este Padre da Igreja, há certas regras e “sementes” de virtudes, verdadeiras e imutáveis, que estão em nós, e que nos permitem exercer o julgamento prático das nossas ações. Ora, diz o argumento, é justamente a isto que chamamos de sindérese.

Mas este julgamento é feito pela nossa razão, ou mais especificamente por aquilo que Santo Agostinho chama de “razão superior”. Ora, se estas “virtudes naturais” em semente existem na nossa razão, que é a potência que julga o bem, então no fundo a sindérese é a própria razão. E, portanto, é uma potência humana, conclui.

A resposta de Tomás.

Estas “razões imutáveis” e verdadeiras, que são, em nós, verdadeiras sementes das virtudes, e que chamamos de sindérese, não se confundem com a razão como capacidade humana; na verdade, a sindérese é o princípio dos julgamentos práticos, isto é, aquele ponto de partida que não é deduzido de nenhum outro, e do qual se deduzem todos as regras e princípios posteriores. De fato, este princípio prático (o bem deve ser feito e perseguido, e o mal deve ser evitado) é um princípio racional, e por isto é atingido imediatamente pela razão, sem raciocínios, e infalivelmente. Se a razão não atingir este princípio, ela simplesmente não é razão, mas apenas irracionalidade pura e simples. Para funcionar como razão prática, não há outro ponto de partida possível. E chegar a ele não é difícil, na verdade é inevitável; e é neste sentido que Tomás diz que é impossível errar sobre ele, sem deixar imediatamente de ser racional.

Assim, a razão, como potência, vale-se da sindérese, como hábito, para exercer o seu ato. Mas não são coisas idênticas: um é uma potência (a razão), a outra é um hábito (a sindérese).

3. Concluindo.

A sindérese é o fundamento do exercício da razão prática. Mas ela não se confunde com a consciência, que é a capacidade de julgar reflexivamente as nossas ações. É o que veremos no próximo artigo.