1. Retomando o tema.
O extraordinário otimismo antropológico dos medievais reflete-se na Suma. E é herdeiro legítimo da tradição clássica. De fato, a sindérese, ou conhecimento inato dos primeiros princípios do agir, é a marca de uma antropologia que presume a boa-fé de todos os agentes. Ninguém busca o mal deliberadamente: há sempre alguma razão de bem, mesmo na conduta mais perversa. O que existe é uma incapacidade de discernir entra o bem aparente e o bem verdadeiro, ou de se comportar em coerência com este discernimento. Mas do que se trata, aqui? O que é esta inclinação fundamental ao bem, que se chama sindérese? É o que estudaremos agora.
2. A resposta sintetizadora de Tomas.
Houve estudiosos que defenderam que a sindérese, ou seja, esta inclinação a fazer e perseguir o bem e se afastar do mal, seria uma potência da alma humana; houve quem defendesse que seria uma potência ainda mais alta do que a própria razão. Outros defenderam que a sindérese seria a razão mesma, não no seu exercício, mas como natureza mesma, ou seja, como algo inscrito na natureza racional humana. De fato, estes estudiosos constataram o fato de que esta inclinação fundamental do bem é capaz de determinar o próprio exercício da razão prática, e portanto seria uma potência superior a ela, ou seria ela mesma, a própria razão, tal como determinada pela natureza em direção ao bem.
Mas não pode ser assim, pensa Tomás. A sindérese não é uma potência, nem sequer é a razão como natureza; se fosse assim, o ser humano não seria livre, porque seria inevitavelmente e infalivelmente dirigido ao bem. Se a sindérese fosse uma potência, ou uma marca natural na razão, ela seria como um instinto para o bem, e o instinto não é algo próprio da liberdade, mas da natureza. De maneira análoga àquela pela qual o animal, por instinto, não pode optar por fazer jejum, quando está com fome e vê o alimento, se a sindérese fosse uma potência, ou mesmo a razão em sua dimensão de natureza, seríamos como que programados ao bem, e nossas ações não incluiriam a possibilidade de erro na ponderação dos bens.
Assim, diz Tomás, a sindérese não é uma potência, mas um hábito. O hábito é aquele costume que se faz uma segunda natureza mas, diferentemente do instinto, é libertador. A ideia seria a mesma de um grande músico: aprendendo a tocar seu instrumento, ele adquire o hábito de tocar. Por este hábito, ele é livre para tocar ou não, para tocar de modo diferente ou até para errar, se quiser. Os hábitos, portanto, são estes percursos educativos que nos acostumam ao bem, nos capacitam a exercê-lo de modo fácil e competente, ou mesmo nos deixam livres para não fazê-lo.
Ora, a nossa inteligência é aperfeiçoada pelos hábitos, que é a educação que nos acostuma, que enriquece e torna fácil, pela assimilação e pela repetição, chegar à perfeição humana.
Nem todos os hábitos, porém, são adquiridos com esforço, com movimento da inteligência. Alguns hábitos são verdadeiros princípios imóveis do pensar, e, portanto, são evidentes e não decorrem de outros princípios.
Estão nesta condição os princípios da identidade e da não-contradição. Estes princípios são os fundamentos da razão especulativa, e não são deduzidos de nenhum outro princípio anterior, porque são os princípios mais fundamentais do pensamento. Quem não admite estes princípios não consegue pensar.
Ora, embora sejam princípios, e embora sejam evidentes e não sejam deduzidos de nenhum outro mais elevado (porque não há princípios mais elevados do que estes), o conhecimento destes princípios é um hábito, porque liberta, aperfeiçoa a razão para continuar pensando. O raciocínio humano, diz Tomás, parte destes princípios imóveis ao exame da realidade, investigando, deduzindo, induzindo, construindo hipóteses, raciocínios, julgamentos, até chegar ao conhecimento da realidade; o julgamento final do conhecimento que adquirimos raciocinando se dá pela submissão deste conhecimento, novamente, aos princípios iniciais: aquilo que descobrimos, que aprendemos, viola aos princípios da identidade e não-contradição? Se não viola, podemos repousar no conhecimento da verdade. É esta a estrutura da razão especulativa, ensina Tomás. Os princípios da inteligência são hábitos em nós, verdadeiras virtudes naturais a que chegamos imediatamente e nas quais nos apoiamos para todo o conhecimento posterior.
De modo análogo funciona a razão prática. Se a razão especulativa tem como fim o conhecimento da verdade, a razão prática tem como fim a ação humana, a partir da verdade conhecida. Ou, como diz Tomás, trata-se, aqui, não somente do conhecimento especulativo, mas o conhecimento das coisas operáveis. Também aqui deve haver um primeiro princípio, não deduzido, mas que existe como um hábito a que chegamos imediatamente e sem dedução, e a partir do qual todo o conhecimento operativo posterior pode ser deduzido. Este hábito é a sindérese, que nos diz que o bem deve ser feito e perseguido, e o mal deve ser evitado. A partir deste princípio da razão prática, fundamental, imóvel e evidente, podemos caminhar, pela via da razão, no caminho do bem.
Assim, pelo hábito dos primeiros princípios da razão especulativa chegamos à verdade e podemos julgá-la. Pela sindérese, que é o hábito do primeiro princípio da razão prática, chegamos às virtudes morais, que são a vontade constante e firme de perseguir o bem com facilidade e habilidade, e rejeitar e fugir do mal. Estamos, aqui, no campo dos hábitos, quer com os primeiros princípios especulativos, quer pela sindérese.
3. Encerrando.
No próximo texto, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que muito nos enriquecerão num assunto tão importante e tão distante para nós.
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