1. Introdução.
Uma coisa, um fato facilmente observável, sempre me encantou: o fato de que os bebês recém-nascidos procuram mamar, e possuem os reflexos e movimentos necessários para fazê-lo, sem que seja necessário ensinar-lhes. É um instinto.
O instinto está presente em nós, como está presente nos animais. Mas o instinto não liberta: na verdade, ele escraviza, de certo modo, porque não dá chance à escolha. Um animal, frente a um outro animal de sua espécie que esteja no cio, não tem escolha: fará sexo. Um ser humano que age assim, no entanto, é certamente um escravo de seus instintos.
Os vícios também escravizam. Um fumante inveterado não consegue abandonar facilmente o cigarro. Um viciado em alimento não consegue perder peso, mesmo quando isto é necessário para a sua saúde. É verdade que tanto o instinto, quanto o vício, nos empurram para algo que, sob certos aspectos, é bom: a reprodução da espécie, a alimentação, o relaxamento da fumaça do cigarro, o prazer das drogas, tudo isto se apresenta ao sujeito como bom, embora enfraqueça a sua deliberação, mesmo quando confrontado com algo que, perante a inteligência, é um bem maior. Manter-se vivo, manter-se saudável, é um bem maior do que desfrutar de algumas baforadas de cigarro; mas, como o vício e o instinto escravizam, a vontade não é capaz de ponderar, no concreto.
Os hábitos não são assim. Eles não escravizam, mas libertam. Se alguém adquire as habilidades para tocar piano, pode escolher tocar ou não; mas, ao fazê-lo, fá-lo-á com destreza e facilidade. Se alguém adquire a temperança, será capaz de saborear um alimento sem prejudicar sua saúde com isto.
A pergunta, agora, será sobre a natureza desta inclinação humana para o bem. É impossível escolher deliberadamente o mal, sabemos disto por experiência própria. E deveríamos querer escolher o bem verdadeiro, comparado com o bem aparente. Ora, se a inclinação para o bem é um instinto, isto, de certa forma, deixa sem explicação a possibilidade que temos de escolher mal, de adquirir vícios ou de negar-nos a nós mesmos algo que o instinto reclama.
Esta inclinação natural para o bem, que nos leva a querer fazer e perseguir o bem, e evitar o mal, parece, a um só tempo, inscrita em nós, e a um só tempo, libertadora, respeitosa da nossa capacidade de ponderar. Os antigos chamavam-na de sindérese, e a identificavam justamente como esta inclinação fundamental para o bem, no ser humano. É fato, comprovado pela nossa experiência cotidiana, que ela existe; é fato, também, que a busca do bem nem sempre é adequada, em nós.
O debate, agora, é sobre a natureza da sindérese. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese controvertida, aqui, é a de que a sindérese, ou seja, esta inclinação fundamental para o bem e repulsa pelo mal, é, em nós, uma potência, ou seja, uma verdadeira capacidade, ao lado da inteligência e da vontade e distinta delas. A sindérese seria, assim, em nós, um verdadeiro instinto para o bem, que estaria para além da nossa inteligência e da nossa vontade; uma espécie de programação especial, da qual não poderíamos submeter à nossa inteligência ou à nossa vontade, mas apenas justificar a posteriori. De fato, é uma hipótese voluntarista, que tornaria as nossas escolhas fundamentalmente irracionais, embora inevitavelmente boas. Há três argumentos objetores no sentido da hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor afirma que as coisas que podem sofrer alguma classificação conjunta estão necessariamente no mesmo gênero. Ninguém faria uma classificação, por exemplo, entre maçãs, ideias e pedras preciosas.
Neste ponto, o argumento traz um comentário de São Jerônimo, que classifica a sindérese ao lado da capacidade irascível, ou seja, daquilo que causa repulsa à nossa sensibilidade, a capacidade concupiscível, isto é, aquilo que atrai nossa sensibilidade, e a capacidade racional. Ora, diz o argumento, o irascível, o concupiscível e o racional são potências, em nós. Logo, se a sindérese pode ser classificada junto com eles, como faz São Jerônimo, é porque ela é uma potência nossa também.
O segundo argumento objetor.
Quando há duas coisas classificadas como opostas entre si, elas são necessariamente do mesmo gênero. Claro e escuro, alto e baixo, morto e vivo, são todos pares de opostos, que se incluem no mesmo gênero.
Ora, diz o argumento, a inclinação pela atração sensual irracional é oposta à sindérese, que é a inclinação inteligente ao bem. É por isto que Santo Agostinho chama a inclinação irracional da sensualidade de “serpente”, fazendo alusão ao texto do livro do Gênesis.
Ora, a sensualidade é uma potência, a potência que tem por objeto a inclinação irracional para o mal. Se ela é oposta à sindérese, então eles são do mesmo gênero, o gênero das potências, e portanto a sindérese é uma potência, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O argumento cita santo Agostinho que, na obra sobre o livre arbítrio, afirma que nossa capacidade natural de discernir é dotada de certas regras e “sementes de virtudes”, que são verdadeiras e imutáveis. Ora, prossegue o argumento, são exatamente estas sementes naturais de virtudes, que são estas regras perenes e verdadeiras que temos naturalmente em nós e nos inclinam ao bem, que chamamos de sindérese.
Ocorre que essas regras verdadeiras e imutáveis, pelas quais nós julgamos e discernimos as coisas, estão na nossa razão, ou, mais especificamente, naquilo que Santo Agostinho chama de “razão superior”. Portanto, para o argumento, a sindérese não é outra coisa que a nossa razão superior. Ora, a razão superior é uma potência ou capacidade humana. Logo, conclui o argumento, a sindérese é uma potência humana, que é a própria razão superior.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra recorda a noção de potência humana; ele lembra que as potências se relacionam com as coisas opostas: os olhos podem ver o branco e o escuro, os ouvidos percebem o som e o silêncio, o tato capta a aspereza e a lisura. Mas a sindérese não inclina para o bem e para o mal, mas apenas para o bem. Logo, ela não pode ser uma potência, conclui o argumento.
5. Palavras de encerramento.
No próximo texto, veremos a resposta sintetizadora de Tomás sobre este assunto tão complexo.
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