1. Retomando.

Vimos, então, a explicação de Tomás no sentido de que o objeto do intelecto é a busca da verdade, e que é acidental, para ele, que esta verdade seja dirigida à contemplação ou à ação; assim, o fim da aquisição da verdade vai determinar a extensão do intelecto, da sua atividade contemplativa para uma atividade de dirigir a vontade no sentido do bem. É o mesmo intelecto, portanto, que se diversifica em especulativo ou prático, conforme o fim a que se dirige o respectivo conhecimento da verdade.

Agora estudaremos as respostas sintetizadoras de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita a obra “Sobre a Alma”, de Aristóteles, na qual o Filósofo diferencia as potências cognitivas das potências de movimento (ou motoras), dizendo que são capacidades diferentes, já que as primeiras têm por objeto o conhecimento da verdade, mas as segundas têm por objeto agir para perseguir o bem. Ora, prossegue o argumento, o intelecto especulativo tem por objeto apenas o conhecimento da verdade, e portanto é uma potência cognitiva; mas o intelecto prático visa mover o sujeito a perseguir o bem, e portanto é uma potência motora. Logo, são potências diferentes, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás vai responder, simplesmente, que precisamos entender bem a função do intelecto prático; melhor, talvez, seria dizer que precisamos entender a função prática do intelecto. Na verdade, diz Tomás, não é o intelecto que nos move. O que nos move é a vontade. O intelecto apenas dirige a vontade. Na verdade, o intelecto prático aprende o bem e o apresenta à vontade, que pode, assim, mover o sujeito até o bem conhecido. Portanto, a rigor, o intelecto prático não é uma potência motora, mas uma potência cognitiva diretora do movimento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que as potências são diferenciadas pelo objeto: o objeto do sentido da visão é a luz, que transmite as cores, ao passo que o objeto da audição é o som, e, por terem objetos diferentes, são potências diferentes.

No caso do intelecto, prossegue o argumento, o intelecto especulativo tem por objeto a verdade, que apreende e contempla, ao passo que o intelecto prático tem por objeto o bem, que o sujeito deve perseguir. Ora, diz o argumento, o bem e a verdade são objetos diferentes. Logo, o intelecto especulativo é uma potência ou capacidade diferente do intelecto prático, conclui.

A resposta de Tomás.

Para compreender a resposta de Tomás, precisamos nos lembrar da sua visão clássica do ser e seus transcendentais, dentre os quais se incluem o bem e a verdade. A verdade é um transcendental do ser, isto é, é uma dimensão do ser que ultrapassa as categorias de gênero e espécie e se aplica ao próprio ser, em todas as suas manifestações; a verdade é o ser em relação com uma inteligência. O bem, por outro lado, também é um transcendental do ser, porque também ultrapassa as categorias e se aplica ao ser em relação com uma vontade. Portanto, o bem e a verdade não são excludentes; ao contrário, diz Tomás, eles se pressupõem e se incluem um no outro.

De fato, todos nós queremos conhecer a verdade. Logo, a verdade é um certo bem para o nosso intelecto, ou então não nos atrairia. Por outro lado, o bem tem uma estrutura, uma inteligibilidade interna, porque, caso contrário, seria arbitrário, aleatório, inexplicável, e nossa vontade seria incompreensível.

Portanto, o bem e a verdade têm a mesma extensão, e são diferentes somente em sua relação com o sujeito. Ora, se a verdade é um certo bem, e por isto nossa vontade nos move para adquiri-la, pelo conhecimento, do mesmo modo o bem é uma certa verdade, e portanto é também objeto para o intelecto, em sua razão de verdade que se ordena à operação, à ação do sujeito.

Assim, diz Tomás, do mesmo modo que a vontade nos inclina à verdade, por perceber nela um bem, e neste sentido a verdade é um objeto da vontade, então de modo análogo o bem pode ser conhecido pelo intelecto, em sua razão de verdade, e esta é, exatamente, a função do intelecto prático.

Portanto, não há diferença de objeto, quanto ao intelecto especulativo e ao intelecto prático. O objeto é o mesmo: a verdade. Mas, enquanto o intelecto especulativo tem por fim o próprio repouso na verdade, que é o seu bem, o intelecto prático considera a verdade do bem, para dirigir a vontade a persegui-lo. Portanto, não são duas capacidades ou potências diferentes.

O terceiro argumento objetor.

Já estudamos que a alma humana tem uma parte sensorial, na qual estão as potências sensoriais, e uma parte intelectiva, na qual estão as potências intelectivas. Ora, prossegue o argumento, na parte sensorial temos duas potências diferentes, uma para armazenar os estímulos sensoriais como imagens, e que chamamos de imaginação, e outra para dirigir a operação, antecipando as reações, e que chamamos de estimativa; é pela estimativa que o cão, por exemplo, antecipa a reação da presa e salta para agarrá-la ali onde ela ainda não está, mas para onde ele percebe que ela saltará.

Ora, se a parte sensorial tem duas capacidades diferentes, uma para armazenar informações e outra para dirigir a operação do sujeito, então é de se esperar que, de modo análogo, a alma intelectiva tenha uma potência para armazenar a verdade, que é o intelecto especulativo, e outra para dirigir a ação do sujeito, que seria o intelecto prático. Portanto, o intelecto prático é uma capacidade ou potência diferente do especulativo, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Não se deve esperar uma simetria perfeita entre as capacidades sensoriais e as capacidades intelectivas. Nós já vimos, em debates anteriores, que esta simetria não existe.

Por exemplo, no artigo 7, resposta ao segundo argumento objetor, nós vimos que o fato de que uma informação está no passado ou no presente pode determinar que a alma sensorial tenha potências diferentes para lidar com elas, como a memória sensorial, que lida com estímulos passados, é diferente da percepção dos próprios sentidos, que sempre lidam com estímulos presentes. Mas na alma intelectiva, que lida com o universal, formal, abstrato, esta circunstância, de estarem os estímulos no passado ou no presente, não determina nenhuma diferença de capacidades ou potências intelectuais. Também na questão 77, artigo 3, resposta ao quarto argumento objetor, aprendemos que as capacidades ou potências intelectivas examinam seus objetos sob um ângulo diferente das capacidades sensoriais; seu ponto de vista é mais elevado, mais abstrato e, por isto, não se determinam do mesmo modo que as sensoriais.

Portanto, também aqui, quanto a conhecer a verdade simplesmente para contemplá-la ou para dirigir a ação, não há diversidade de potências entre o intelecto especulativo e o prático, não havendo nenhuma analogia com as capacidades sensoriais da imaginação e da estimativa.

3. Concluindo.

Vimos, pois, como este tema é essencial para o estudo da ética: sem determinar que o bem é uma certa verdade e a verdade é um certo bem, a própria condução do agir humano fica sem sentido, e já não se pode falar em ação humana, responsabilidade ou ética. Mas, demonstrando-se esta unidade, como faz Tomás, a ética não se torna apenas possível; torna-se necessária.