1. Retomando.
A consistência de qualquer modelo ético depende de que existam, de fato, ações humanas, isto é, que a vontade humana possa ser guiada pela inteligência; e que a inteligência não seja algo fragmentário, isto é, que, no fundo, a verdade guie a busca pelo bem. Sabemos que as marcas do pecado original permanecem em nós, e por isto temos uma sombra, isto é, nossas potências apetitivas não estão inteiramente submetidas a nossa inteligência. Isto que Freud veio a chamar de inconsciente, ou subconsciente; e que, para nós, é somente a condição humana de criatura, ferida pelas consequências do pecado e dependente da graça. Mas estamos nos alongando: vamos examinar, agora, esta unidade do intelecto, ou seja, a unidade fundamental entre a busca da verdade, pelo intelecto especulativo, e a direção da vontade no sentido do bem, pelo intelecto prático, a partir da visão de São Tomás, aqui na Suma. Vamos examinar sua resposta sintetizadora.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
São Tomás já inicia sua resposta reafirmando, energicamente, que o intelecto prático e o intelecto especulativo não são duas potências diferentes; é a mesma potência, aplicando-se a duas tarefas diversas. Num caso, a busca da verdade é o objetivo final, e o intelecto chega a ela e a contempla; isto basta. No outro caso, a busca da verdade nos interpela a agir, e o intelecto vai além da contemplação: passa a dirigir a própria ação. Temos, aí, a tarefa relacionada ao que se chama de “intelecto prático”.
Note-se que estamos, aqui, numa visão de mundo que pressupõe uma verdade existente nas coisas, além ou fora da nossa mente. O ser humano não é o centro da existência, mas encontra-se num mundo que tem um sentido que ultrapassa e preexiste à mente humana. Assim, há sentido em buscar a verdade sobre o mundo, simplesmente por ser verdade; o ser humano que percebe a existência e a criação como dons é capaz de contemplar. Mas, para muitos dos nossos contemporâneos, a contemplação não existe, simplesmente porque não há nenhuma ordem, nenhum significado no mundo para além daquele que nós, humanos, atribuímos a ele. O ser humano seria, assim, o verdadeiro criador de um mundo intrinsecamente sem significado. Então não haveria, para estes, nenhuma tarefa contemplativa para o intelecto: qualquer conhecimento é sempre prático, qualquer verdade é sempre construída por nós. Nada poderia estar mais longe do pensamento de Tomás. Apenas registramos, aqui, como uma digressão, algo que está profundamente arraigado em nossa contemporaneidade. Nós, com Tomás, sabemos que contemplar é a primeira tarefa do nosso intelecto. Agir é consequência.
Mas, voltando a Tomás, ele nos lembra que as diferenças acidentais no objeto de uma potência ou capacidade humana não diversificam esta potência. Nossos olhos são capazes de ver a luz, nas suas cores. Se a luz nos revela a figura de um gato ou de um ser humano, isto não muda nada com relação à capacidade de ver. Que a luz nos revele esta ou aquela figura é apenas um acidente, para a potência visual.
De modo análogo, diz Tomás, o fato de que conhecer a verdade nos faça repousar nela em contemplação, ou nos encaminhe a agir como consequência, é acidental ao próprio conhecimento da verdade. Aí estaria a diferença entre o que se convencionou chamar de “intelecto contemplativo”, como aquele percurso da inteligência que visa apenas adquirir e repousar na verdade, por um lado, e o intelecto prático, que leva, como consequência do conhecimento da verdade, à ação, na busca do bem. É o mesmo intelecto, aplicando-se a fins diversos: a contemplação ou a ação. Os fins, portanto, são apenas acidentais com relação ao objeto mesmo do intelecto, que é atingir e manter-se na verdade.
É exatamente isto que Aristóteles ensina, diz Tomás: que apenas os fins diversificam o intelecto em suas funções. O fim contemplativo e o fim prático não dividem o intelecto em dois, apenas determinam uma divisão de funções intelectuais: as especulativas e as práticas. Funççoes que pertencem a um único e mesmo intelecto.
3. Encerrando.
No próximo texto examinaremos os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás a eles, que muito nos enriquecerão.
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