1. Introdução.

Eis aqui um texto importantíssimo de São Tomás! Desde a antiga Grécia, pareceu evidente à humanidade que o conhecimento se dava pelo simples fato de haver uma verdade a ser conhecida, ou seja, o conhecimento resulta do simples amor à verdade; mas sempre houve a percepção de que o conhecimento nos leva, em algum grau e em algum momento, à ação. Esta é a base de toda a ética: reconhecer que é possível agir inteligentemente, desenvolvendo os hábitos (virtudes) que possibilitam agir assim.

Contemplar e agir são, portanto, igualmente resultado do conhecer. É certo que, na idade moderna, esta diferença foi, de certo modo, apagada: as filosofias prevalecentes não consideram que o conhecimento contemplativo é válido; defendem que apenas o conhecimento que nos torna aptos a agir tem valor. Nada adiantaria, por exemplo, contemplar uma bela maçã, se não adquiro o conhecimento sobre como cultivá-la, armazená-la e prepará-la para comer. Apenas este último, resultante da capacidade de experimentar e fazer, seria um conhecimento válido. Daí a rejeição, na modernidade, da adequação de todo tipo de conhecimento metafísico ou de filosofia teológica. Se um conhecimento não me permite dominar o objeto, fazer alguma coisa com ele, é um conhecimento inútil e, portanto, sem valor, pensam os modernos. E como não se pode nem dominar Deus, nem dominar o que já foi feito ou dado, a contemplação parece lançada ao desprezível. Mas não é assim, e veremos Tomás mostrar o contrário.

Aliás, a caminhada dele, ao longo desta questão, tem sido a de nos mostrar a grande unidade do intelecto humano. Não há, em nós, uma fratura entre razão, intelecto, inteligência, conhecimento prático e conhecimento contemplativo, temos apenas uma alma intelectual que raciocina, aprende reflete, contempla e age. Assim, não podemos ter uma vida fraturada, na qual colocamos, por exemplo, a nossa fé no âmbito da contemplação, mas não na vida prática. Somos seres íntegros, unitários, e assim deve ser também a nossa vida. Mas estamos nos adiantando. Vamos acompanhar o debate proposto aqui.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial parte da ideia de que haveria duas formas diferentes de conhecer, que representam duas potências intelectuais diversas, conforme a inteligência se dirija à contemplação da verdade ou ao agir em busca do bem. Assim, a hipótese propõe que o intelecto especulativo, dirigido à contemplação da verdade, é uma faculdade inteiramente diversa do intelecto prático, que visa encaminhar a ação humana para a consecução do bem. Há três argumentos iniciais, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento.

O primeiro argumento vai citar Aristóteles; de fato, o Filósofo, no Livro II da obra Sobre a Alma, afirma que o ser humano tem capacidades de aprendizagem e capacidades de ação, que ele chama de potências apreensivas e potências motoras. Ora, prossegue o argumento, o chamado “intelecto especulativo” é dirigido à aprendizagem, e é, portanto, uma capacidade apreensiva, mas o chamado “intelecto prático” está dirigido à ação, e é, portanto, uma capacidade motora. Logo, conclui o argumento, eles são potências diferentes entre si.

O segundo argumento.

O segundo argumento lembra que as capacidades (ou potências humanas) identificam-se pelos objetos; objetos diferentes determinam que as respectivas potências sejam diferentes entre si. Assim, se eu olho para um cão e escuto seu latido, o sentido da visão e o da audição apontam para a mesma coisa, mas sob aspectos diferentes, e portanto há objetos diferentes para os sentidos: a imagem do cão atinge meus olhos, e o som do latido, meus ouvidos.

No caso do intelecto, vê-se que a aprendizagem busca a verdade das coisas, mas a ação busca o bem que as coisas têm, que nos motivam a agir. Ora, se as coisas atingem nosso intelecto sob diferentes razões, ou seja, se atingem o intelecto especulativo sob a razão de verdade e o intelecto prático sob a razão de bem, então o objeto próprio destas capacidades é diferente, o que determina que elas sejam capacidades diferentes. Assim, o intelecto especulativo é uma potência diferente do intelecto prático, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento faz um paralelo entre as capacidades sensoriais e as capacidades intelectuais do ser humano.

De fato, diz o argumento, temos, dentre as potências sensoriais, os sentidos, o senso comum, a imaginação e a estimativa. A imaginação reúne os dados dispersos e forma uma única imagem do objeto; a estimativa é capaz de antecipar os movimentos do objeto, para possibilitar a ação do sujeito, como um animal de caça que salta sobre sua presa, antecipando-lhe os movimentos.

Ora, então, nas capacidades sensoriais, temos uma capacidade destinada a alcançar a verdade completa dos dados sensoriais, que é a imaginação, e uma capacidade diversa, capaz de dirigir a ação do sujeito, que é a estimativa.

Ora, na nossa alma intelectiva, o intelecto especulativo se compara à imaginação na alma sensorial; o intelecto prático, por outro lado, é análogo à estimativa, na alma sensorial, porque dirige a ação. Portanto, se a imaginação é uma capacidade diferente da estimativa, na alma sensorial, então o intelecto especulativo é uma capacidade diferente do intelecto prático, na alma intelectiva, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra, para defender a opinião contrária à hipótese inicial, vai buscar justamente a autoridade de Aristóteles; de fato, o Filósofo diz, no Livro III da obra Sobre a Alma, que é o próprio intelecto especulativo que, como que por extensão, torna-se prático, ou seja, atinge a verdade e passa a dirigir a ação na busca do bem. Ora, prossegue o argumento, quando há duas potências diferentes, é impossível que uma vire a outra por algum tipo de extensão; o olho não se estende até o som, nem o som se estende até o tato e assim por diante. Portanto, o intelecto especulativo e o intelecto prático não são duas potências diferentes, mas a mesma potência atuando sob perspectivas diferentes, conclui.

5. Concluindo.

No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora, tão rica, de Tomás, sobre este assunto empolgante.