1. Voltando ao assunto.

A confiança na inteligência humana é algo de fundamental para a democracia; na verdade, a democracia só é possível se eu sou capaz de perceber que somos seres inteligentes, eu e você, mas de uma inteligência que, embora exista de fato (ato primeiro), está em percurso para a perfeição (ato segundo), à qual não chegará inteiramente nunca, pelo simples fato de que o processo de intelecção é mais lento do que o curso desta vida. Mas isto não significa, e não significará nunca, que o conhecimento efetivamente conquistado não tenha nenhum valor: é ato segundo, isto é, perfeição de uma potência sempre aberta ao mais. Ou, como lembra Santo Agostinho, de uma inteligência criada para o infinito, e que só no infinito repousaria em paz. “Nem se eu bebesse o mar encheria o que eu tenho de fundo”, como diz o nosso compositor popular Djavan, na sua canção “Seduzir”. Reafirmar, por um lado, a incompletude essencial da inteligência humana, sua perfectibilidade, é um dever; mas reafirmar sua capacidade, a confiança na sua possibilidade de adquirir e usar o conhecimento, de dialogar com honestidade com os outros e com as coisas, é igualmente necessário.

Qual a alternativa? O autoritarismo. Quem só crê na vontade e desconfia da razão possui uma estrutura interna autoritária, capaz somente de espalhar desconfiança e, arrogantemente, duvidar do outro, julgando-o como apenas um dominador, um autoritário disfarçado, e todo processo de debate como um processo inútil e contaminado a priori. Neste caso, a peculiaridade do outro, sua alteridade mesma, já comprometeria qualquer possibilidade de confiança: não há verdade, haveria apenas conspirações, denunciadas por supostas peculiaridades de fé, de etnia, de gênero, de orientação, de classe ou qualquer outra. Se o outro só me desperta desconfiança, e se sua argumentação é só uma parte de uma conspiração de dominação irremediavelmente maculada por sua parcialidade, então só resta eliminá-lo e impor a ele nossas próprias conspirações. Eis a essência do autoritarismo moderno, tão desconfiado da inteligência humana. Eis a importância e a atualidade dos textos de Tomás de Aquino.

No texto anterior, vimos a resposta sintetizadora de Tomás, que nos explica que, no sentido próprio, a inteligência é o intelecto usando reflexivamente o seu conhecimento habitual, isto é, em ato segundo. Agora, examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor cita a obra “Do Espírito e da Alma”, que descreve o processo de conhecimento de modo análogo a uma escada, desde as potências sensoriais às potências intelectivas. Este processo percorreria, então, os seguintes degraus: os sentidos, a imaginação, a razão e o intelecto, até concluir-se na inteligência. Assim, o argumento conclui que cada degrau destes tem seu próprio objeto e, portanto, é uma potência diversa da anterior. Assim, do mesmo modo que os sentidos são potências diversas da imaginação, também o intelecto seria uma potência diversa da inteligência.

A resposta de Tomás.

Já sabemos que Tomás não considera esta obra como uma fonte respeitável. Não a tem como algo substancioso, digno de confiança.

Mas, ainda que fosse, diz Tomás, teríamos que lembrar que a inteligência nada mais é do que o intelecto em ato, ou seja, na plena operação de conhecer e refletir sobre o objeto. Portanto, a relação entre o intelecto e a inteligência seria a relação entre a potência e o ato, análoga à relação entre a semente e a árvore. Não são, pois, duas potências ou capacidades diversas, mas a potência e o ato da mesma capacidade.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor traz a autoridade de Boécio, que é conhecido e muito respeitado por Tomás. Boécio, na “Consolação da Filosofia”, diz que o sentido, a imaginação, a razão e a inteligência demandam, cada um, uma consideração diferente para o ser humano.

Ora, prossegue o argumento, se já foi provado que a razão e o intelecto são a mesma potência, em artigos anteriores, então resta admitir que, uma vez que Boécio separa a razão da inteligência nesta enumeração, ele considera que a razão e a inteligência são potências diferentes, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

De fato, a noção de inteligência, como intelecto em ato, isto é, na qual o objeto do conhecimento está presente efetiva e ativamente ao sujeito, ultrapassa a noção de razão. A razão é o processo de aprendizagem próprio do ser humano, ao tempo em que a inteligência descreve o ato da mente de Deus e dos anjos; assim, de fato, para o ser humano, a inteligência é o ato do intelecto, que chega a ele pelos procedimentos racionais, isto é, pelo raciocínio. Para Deus e para os anjos não é assim: a inteligência já está em ato para o conhecimento, e o raciocínio é desnecessário. É neste sentido que Boécio menciona que a inteligência deve ter uma consideração própria, quando se trada do ser humano; não se trata de diferenciá-la do intelecto ou da razão, mas assinalar que, nos humanos, ela chega ao ato de uma maneira própria, ou seja, pelos caminhos da razão.

O terceiro argumento objetor.

Se olharmos as coisas sob o ponto de vista da lógica, os atos são anteriores às potências. De fato, para saber o que é uma semente, eu devo saber primeiro o que são as árvores: uma semente se qualifica como sendo de ipê e não, digamos, de pau-brasil porque os ipês, em ato, são diferentes do pau-brasil em ato.

A partir desta primeira noção, o argumento vai resgatar a posição de São João Damasceno em matéria de teoria do conhecimento. Referindo-se ao processo de intelecção, o Damasceno diz que o primeiro ato, no processo de conhecimento, é a inteligência, e portanto ele é que dá a identidade de todo o processo. Quando a inteligência se dirige ao respectivo objeto, diz o Damasceno, temos um ato intelectual chamado de intenção, ou seja, o apontar da inteligência para a coisa inteligida.

Quando nos debruçamos sobre a nossa inteligência, para verificar a conformidade do conhecimento intencional com o objeto inteligido, temos a reflexão. Ora, a partir da reflexão, examinamos o próprio processo de conhecimento, garantindo seus princípios e seus métodos, estabelecemos a sabedoria ou “phronesis”.

Estabelecendo a solidez da sabedoria, somos capazes, então, de construir raciocínios sobre o objeto de conhecimento, que nada mais é do que a capacidade de desenvolver o conhecimento de forma discursiva, articulada; deste conhecimento articulado internamente em conceitos e raciocínios surge a linguagem pronunciada.

Assim, nota-se que cada fase destas tem um ato próprio, que a identifica como potência separada. Portanto, a inteligência, como ato, não se confunde com nenhuma fase do processo de intelecção e é, portanto, uma capacidade separada, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

O processo que o Damasceno enumera, por mais complexo que possa parecer, não deixa de ser o processo de uma única potência, a potência intelectiva humana, no seu caminho desde a ignorância inicial ao conhecimento atual. As fases deste processo é que podem ser descritas da maneira que o Damasceno faz, sem que isto venha a determinar, nele, alguma divisão, ou seja, sem que ele deixe de ser um único processo de uma única potência.

O intelecto humano tem seu ato fundamental na apreensão da coisa, ou seja, em conhecê-la de verdade. Este ato se chama intelecção, ou inteligência, diz Tomás.

Ao dirigir seu pensamento à coisa apreendida, ordenando-a de modo a possibilitar conhecer ou fazer alguma coisa, estamos no campo da intenção.

Quando testamos o que intencionamos, projetando, planejando, estamos no campo da cogitação ou reflexão. Quando testamos esta reflexão à luz dos princípios lógicos e práticos, estamos no campo da sabedoria ou prudência. Concluído todo este processo interno, elaboramos nossa linguagem sobre o nosso conhecimento, pensando sobre ele e finalmente comunicando-o aos outros, estamos no campo da comunicação de conhecimentos. Em todos estes aspectos, o objeto é o mesmo, que é a verdade sobre o ente, a que chegamos em nossa inteligência. Portanto, uma vez que todos estes aspectos ou atos do conhecimento podem ser reduzidos ao mesmo objeto, não podemos falar em múltiplas capacidades ou potências na alma intelectiva, mas apenas uma, que envolve a razão, a intelecção e a inteligência.

3. Concluindo.

Estabelecida, assim, a confiança em nossa inteligência, pela descrição do seu processo que envolve o conhecimento da verdade de modo progressivo, processual, dinâmico, caminharemos, no próximo artigo, para uma outra distinção importantíssima: aquela existente entre o nosso intelecto que contempla, ou intelecto especulativo ou contemplativo, por um lado, e aquela outra dimensão da nossa inteligência que guia nosso agir e nosso fazer, que é o chamado intelecto prático. Serão duas potências diferentes? É o que veremos no próximo texto.