1. Retomando.
Vimos, então, no último texto, o problema que foi colocado, criando uma dualidade entre a intelecção e a inteligência, como se fossem duas potências, duas capacidades diferentes, e não apenas dois momentos da mesma capacidade. É uma tentativa de fazer da inteligência uma perfeição elitista, quase como uma capacidade especialíssima da mente à qual poucos humanos chegariam, e apenas em momentos especiais; mas Tomás quer insistir que a verdade não é algo especialíssimo, alcançável somente por poucos, mas é o próprio objeto da nossa inteligência, no caminho árduo da razão e da intelecção. Em resumo, Tomás, mais uma vez, tem uma visão muito bela e muito, digamos, democrática, da inteligência humana. Vamos examinar sua resposta sintetizadora.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
O que significa a palavra “inteligência”? É esta a primeira pergunta que Tomás nos faz. E ele mesmo responde: a palavra “inteligência” significa aquela situação dinâmica em que atingimos a plenitude do processo do conhecer, ou seja, é o ato do intelecto, quando ele se torna assimilado à verdade sobre o ente.
Tomás, então, chama a nossa atenção para o fato de que há, neste ponto, uma confusão de palavras entre escritores de diferentes origens. De fato, entre os escritores e pensadores árabes, os anjos costumam ser chamados simplesmente de “inteligências”, porque, dizem eles, a mente dos anjos está sempre em ato, isto é, aquilo que eles conhecem está sempre presente a eles em pensamento.
No caso dos escritores de origem grega, em especial os clássicos, eles tanto usam o termo “inteligências” quanto o termo “mentes” para designar estes seres espirituais cuja essência imaterial consiste em pensar. Ora, se há um ente espiritual cuja essência é pensar, e que existe em ato, então este ser tem que, necessariamente, estar com a mente sempre em ato, para existir.
Neste sentido, podemos afirmar que nosso intelecto é um tanto diferente da inteligência dos anjos, neste particular. Já que a nossa existência se dá pela nossa individualização na matéria, nós não precisamos que a nossa inteligência esteja sempre em ato; nosso intelecto possui conhecimentos em hábito, ao qual nossa inteligência recorre, quando quer penar em ato.
Vale um exemplo: um jovem estuda e aprende matemática, com grande esforço. A matemática fica inscrita em seu intelecto, como um hábito, vale dizer, como uma capacidade aperfeiçoada, à qual ele recorre quando precisa fazer algum cálculo ou quantificar alguma realidade; neste caso, a matemática está em ato na sua inteligência. Mas, naqueles momentos em que está dormindo, divertindo-se com os amigos ou rezando, por exemplo, a matemática não está em ato no seu intelecto, mas apenas em potência, como capacidade inscrita em seu espírito, mas não atualizada nestes momentos.
Assim, podemos afirmar que nosso intelecto é potencial e habitual, isto é, é capaz de aprender e educar-se, retendo, como capacidades aperfeiçoadas, os conhecimentos que recebe, para utilizá-los em ato quando for necessário. Ao ato de utilizar os conhecimentos habituais, Tomás chama de “inteligência”.
Portanto, a inteligência não está para o intelecto como uma potência está para outra diferente. Não é como, falando analogicamente, se a inteligência estivesse para o intelecto como a visão está para a audição. Na verdade, a inteligência faz parte do intelecto, como aquele momento em que o conhecimento está em ato no pensamento humano.
Portanto, na estrutura da alma intelectiva do ser humano, como já vimos, há duas potências ou capacidades que chamamos de:
1) intelecto agente (ou ativo) cuja função é buscar ativamente o conhecimento. Esta é uma estrutura em ato, cujo objeto é iluminar o conhecimento particular, para possibilitar chegar ao conhecimento universal.
2) Intelecto passivo, cujo objeto é receber o conhecimento universal iluminado pelo intelecto agente e alcançado pelo processo racional. Ora, o chamado “intelecto passivo” é uma capacidade diferente do intelecto ativo, porque tem um objeto diferente. Ele pode estar em três situações: a) Na ignorância inicial, quando o denominamos de “intelecto possível”, ou seja, quando está receptivo a qualquer conhecimento, sem possuir ainda nenhum; b) Na situação de quem pesquisou, estudou, aprendeu, descobriu, e portanto detém o conhecimento da verdade sobre o ente, mas não está necessariamente refletindo sobre ele neste exato momento. Neste caso, ele é chamado de intelecto habitual, porque possui a ciência em hábito, mas não necessariamente a usa neste exato momento. E, por fim, c) o sujeito está refletindo, agora mesmo, no conhecimento que detém; neste caso, seu intelecto está em ato para a ciência, ou seja, ele intelige. Neste terceiro caso, o intelecto é chamado de inteligência.
Portanto, a inteligência está para o intelecto como o ato está para a potência. E para o próprio hábito. Não é uma capacidade ou potência diversa, mas é o próprio intelecto aperfeiçoado e em ato para o conhecimento.
É preciso, agora, lembrar brevemente dos conceitos de ato primeiro e ato segundo, que Tomás usa, aqui, de passagem, ao final de sua resposta sintetizadora. Ato primeiro é a simples existência do ente. Assim, o intelecto de um bebê já existe, está em ato primeiro para a existência. Mas, após uma vida de experiências, estudos e reflexão, ele estará, na maturidade, em ato segundo para a inteligência; isto é, o ato segundo pressupõe o simples existir, mas representa o aperfeiçoamento final do ser na existência. Uma semente está em ato primeiro para ser árvore; uma árvore que frutifica está em ato segundo. Portanto, o intelecto é esta realidade que envolve o ato primeiro de existir na plena potencialidade, o processo de adquirir conhecimento e, por fim, a posse da reflexão atual sobre o conhecimento possuído. Esta reflexão atual é chamada de inteligência.
3. Encerrando este texto.
É muito interessante acompanhar a argumentação de Tomás sobre a inteligência humana; é a confiança que ele tem nesta capacidade que permitiu construir o sistema científico, o sistema universitário e a própria democracia moderna, que pressupõe a admissão de que o outro também é capaz de inteligir, e que somos capazes de ganhar quando admitimos a boa-fé e a potência intelectual como estruturas humanas universais.
No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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