1. Introdução.
Vimos, no último artigo, a unidade da razão humana, quando se debruça sobre os seus objetos e se encaminha para a verdade sobre o ente. Quer esta verdade seja sobre entes necessários, imutáveis ou eternos, quer seja sobre aquilo que é contingente, perfectível e histórico, há uma só e mesma razão humana que os pondera.
Mas isto não encerra a discussão. Embora tenhamos já debatido, alguns textos atrás, no sentido de estabelecer que a razão nada mais é do que o próprio intelecto humano, e não algo distinto dele, uma outra dúvida se põe agora: será que intelecto é a mesma coisa que inteligência? Quando falamos em inteligência humana, falamos em alguma capacidade diversa do próprio intelecto?
Estas questões são importantíssimas. São uma reflexão muito rica sobre os modos humanos de conhecer, que hoje foram reduzidos à capacidade de dominar e transformar seus objetos. O ser humano, hoje, perdeu a noção do que é conhecer: já não entendemos como contemplar um mundo que está posto à nossa frente, e cuja inteligibilidade não depende de nós. Para nós, o ato do intelecto é pensar, quer dizer, ordenar um mundo que, em si mesmo, é desprovido de inteligibilidade; eis a influência cartesiana daquele famoso dito “penso, logo existo”: é o pensamento individual que daria sentido ao mundo, não Deus. Isto é falso: o conhecer, em nós, vem antes do pensar e do fazer, porque a inteligibilidade do mundo nos é dada, não é um construto nosso.
Eis porque o debate aqui proposto permanece atualíssimo: é no processo de conhecer que se revela a profunda unidade do intelecto humano que é interpelado por um mundo que nos antecede e nos supera, e que se dá como conhecimento, antes de se dar como objeto de nossa atuação.
Mas sem delongas, vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida.
Aqui, a distinção é entre intelecto e inteligência, ou seja, há uma hipótese de que estes dois termos designam realidades diferentes em nossa alma. Ou seja, parece que, em nós, humanos, a inteligência é uma potência diferente do intelecto. Há três argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese.
3. Os argumentos objetores.
O primeiro argumento.
O primeiro argumento cita aquela obra chamada “Do Espírito e da Alma”, que circulava muito nesta época mas, como já sabemos, não gozava da simpatia do nosso mestre Tomás.
Este livro, ao descrever o processo de aprendizagem em nós, usando a analogia com uma escada e seus degraus. Assim, diz a obra, quando queremos subir do inferior [a ignorância] para o superior [o conhecimento intelectual], primeiro nós usamos os sentidos, depois a imaginação, em seguida a razão, depois o intelecto e, por último, a inteligência.
A partir desta citação, o argumento faz o seguinte raciocínio: nos dois primeiros degraus, temos os sentidos e a imaginação. Ora, estes dois degraus representam potências diferentes em nossa alma. Assim, também os dois últimos degraus, ou seja, o intelecto e a inteligência, devem ser potências diferentes em nós, conclui o argumento.
O segundo argumento.
Este argumento cita Boécio, que, como sabemos, é uma autoridade muito estimada por Tomás e seus contemporâneos.
Boécio afirma expressamente, na obra “Consolação da Filosofia”, que o ser humano é visto diferentemente, quando consideramos os sentidos, a imaginação, a razão e a inteligência. Ora, uma vez que já foi estabelecido que a razão é a mesma potência que o intelecto (ver artigo 8 desta questão), o argumento aduz que estas quatro formas de considerar o ser humano representariam quatro potências diferentes no processo de aprendizagem, e que portanto a razão, sendo igual ao intelecto (que não é citado na passagem, por estar incluído, implicitamente, na razão), é diferente da inteligência; daí o argumento conclui que o intelecto é uma capacidade diferente da inteligência.
O terceiro argumento.
O terceiro argumento é bem complexo, porque cita a teoria do conhecimento desenvolvida por São João Damasceno.
O argumento inicia estabelecendo que os atos são logicamente anteriores às potências. De fato, é, por exemplo, contemplando a árvore que sabemos o que é uma semente; é contemplando a ave que conseguimos dizer que este ovo aqui é de galinha e aquele outro é de pata. É o ato, portanto, que dá identidade à potência, porque a potência é só uma promessa de existência.
Assim, se um ato é diferente de outro, também a respectiva potência será distinta das outras. E, no caso do processo de conhecimento humano, diz o argumento, o ato de inteligência é um ato claramente distinto de todos os outros. E citará o Damasceno para tentar comprovar sua afirmação.
São João Damasceno, referindo-se ao processo de intelecção, diz que o primeiro ato, no processo de conhecimento, é a inteligência. Quando a inteligência se dirige ao respectivo objeto, diz o Damasceno, temos um ato intelectual chamado de intenção, ou seja, o apontar da inteligência para a coisa inteligida.
Quando nos debruçamos sobre a nossa inteligência, para verificar a conformidade do conhecimento intencional com o objeto inteligido, temos a reflexão. Ora, a partir da reflexão, examinamos o próprio processo de conhecimento, garantindo seus princípios e seus métodos, estabelecemos a sabedoria ou “phronesis”. Estabelecendo a solidez da sabedoria, somos capazes, então, de construir raciocínios sobre o objeto de conhecimento, que nada mais é do que a capacidade de desenvolver o conhecimento de forma discursiva, articulada; deste conhecimento articulado internamente em conceitos e raciocínios surge a linguagem pronunciada.
Depois desta longa descrição, teríamos que admitir, diz o argumento, que a inteligência é um ato separado, no nosso processo de conhecimento, e por isto determina a existência de uma potência separada, em nós, a potência da inteligência, distinta do intelecto, conclui.
3. O argumento sed contra.
O argumento sed contra cita Aristóteles que, falando da inteligência, diz que ela se refere aos objetos indivisíveis, isto é, àquilo que não é individualizado e quantificado pela matéria. Ora, se é este o objeto da inteligência, diz o argumento, temos que admitir que é exatamente o mesmo objeto da intelecção; e, portanto, intelecção e inteligência são a mesma potência, conclui.
4. Encerrando.
Este é um problema que pode parecer pouco compreensível ou relevante, para nós, um verdadeiro preciosismo terminológico. Mas não é: é preciso resgatar a dignidade da nossa inteligência, que não é diversa do nosso raciocínio e da nossa intelecção. Conhecemos processualmente, e isto demonstra a importância do método, para que atinjamos a verdade; mas também garante que a verdade que alcançamos seja a mesma, para nós, para os anjos, para Deus. Nossa razão é intelecto, nosso intelecto é inteligência. Trataremos mais disto nos próximos textos.
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