1. Voltando.
Estabelecida a unidade essencial da razão humana, em meio à complexidade do seu funcionamento, é hora de revisitar os argumentos objetores iniciais, cujas respostas nos enriquecerão e nos aprofundarão no rico pensamento de Tomás a respeito da inteligência humana.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor cita Santo Agostinho, que faz um grande estudo da inteligência humana na obra sobre a Trindade. Ali, ele afirma que a imagem da Trindade está na parte superior da razão, mas não na parte inferior. Ora, disso o argumento conclui que a inteligência humana possui duas potências racionais diferentes, uma superior, responsável por inteligir o universal e necessário, e uma inferior, responsável por inteligir o concreto e contingente.
A resposta de Tomás.
A menção à divisão em “partes” nem sempre deve ser lida como correspondendo a alguma separação na vida real. Qualquer classificação pode separar alguma coisa em “partes”, apenas para fins didáticos, sem significar que estas partes representam separações reais na vida concreta. Assim, por exemplo, quando falamos que o ser humano tem corpo e alma, não podemos imaginar que o corpo seja algo separado da alma, porque o corpo nada mais é do que a matéria estruturada pela própria alma. Portanto, o fato de que Santo Agostinho diga que a razão tem uma “parte superior” e uma “parte inferior”, que se relacionam com o conhecimento contingente e o conhecimento necessário, não significa que haja duas faculdades racionais separadas, em nós, mas que a nossa razão exerce estas duas funções para chegar ao seu único e mesmo objeto, que é a verdade sobre o ente.
O segundo argumento objetor.
É a razão superior quem faz originar a inferior, já que os princípios que a razão inferior usa para conhecer seu objeto são derivados da razão superior. Logo, se a razão inferior se origina da razão superior, então elas não podem ser a mesma coisa, porque nada pode originar a si mesma. Por isto, o argumento conclui que há duas potências racionais em nós.
A resposta de Tomás.
Há, de fato, uma forte dependência entre as funções da razão, já que os conhecimentos a respeito das coisas contingentes dependem, como pressuposto, dos princípios percebidos pela inteligência, ainda que de modo intuitivo e não explícito, como os princípios da identidade e não-contradição. Ora, isto significa que há, de fato, operações da razão que são dirigidas à realidade material, contingente, concreta e histórica, e que esta atividade está pautada pelos princípios lógicos, universais e abstratos que condicionam o próprio modo de conhecer. É neste sentido que os estudiosos costumam dizer que a razão inferior se origina da superior, não no sentido de que há duas potências racionais diferentes em nós, mas apenas no sentido de organizar o próprio processo de raciocínio intelectual.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor busca fundamento em ninguém menos do que Aristóteles, que, como sabemos, era chamado simplesmente de “o” Filósofo. A citação, aqui, é de um trecho da Ética a Nicômaco, Livro VI, em que ele diz que no interior da alma intelectiva há uma duplicidade de princípios, um é o princípio pelo qual contemplamos as coisas que não são mutáveis, porque são permanentes, e outro é o princípio pelo qual conhecemos as coisas transitórias, mutáveis, contingentes. E Aristóteles parece justificar esta divisão de capacidades racionais com o argumento de que, quando dois objetos são de espécies diferentes, as partes da alma que correspondem a estes objetos também são diferentes.
O argumento compara, então, a posição de Aristóteles àquela de Santo Agostinho, que divide a razão em superior e inferior, para concluir que há, em nós, duas capacidades racionais diferentes, uma para conhecer o concreto e histórico, outra para o universal e abstrato.
A resposta de Tomás.
Estão em jogo, neste argumento, duas das maiores autoridades, para Tomás: Aristóteles e Santo Agostinho, que parecem concordar na pluralidade de “razões” no ser humano. Por isto a resposta de Tomás será longa e minuciosa.
Não podemos confundir as colocações de Aristóteles com as de Santo Agostinho, de que temos uma razão superior que reflete a imagem da Trindade e uma razão inferior, que não a refletiria. Aqui, como foi respondido acima, temos apenas uma separação de funções, na razão, conforme ela se depare com objetos como as verdades religiosas ou apenas a realidade historicamente condicionada.
Aristóteles, aqui, fala do conhecimento de realidades necessárias ou contingentes, mas isto não significa, necessariamente, diferenciar essencialmente a razão, por imaginar que ela teria uma faculdade para as coisas contingentes e outra para as necessárias. Aqui, é bom fazer diferença entre certeza e opinião, com relação ao objeto de conhecimento.
Existem coisas estritamente temporais que caem no âmbito do conhecimento certo, necessário, definitivo, como aquelas realidades que podem ser medidas, pesadas e quantificadas e não podem ser de outra maneira, senão como são. Que a terra é redonda, por exemplo, é uma verdade deste tipo. É uma verdade necessária, que não está no âmbito do opinável, porque não diz respeito a algo sobre o qual possa haver, razoavelmente, incerteza. Mas esta é uma verdade sobre algo estritamente temporal e contingente.
Por outro lado, a ideia de que Roma é a cidade mais bela do planeta, ou de que o vinho grego é melhor do que o vinho brasileiro, ou se devo exercitar-me mais ou comer menos, a fim de perder peso, são opiniões sobre fatos contingentes, que demandam critérios oscilantes e comparáveis, e que podem mudar. Assim, quando o Filósofo fala em conhecimentos diversos, ele não está falando em capacidades racionais diferentes em nossa alma, mas apenas em conhecimentos que podem nos proporcionar uma verdade completa e definitiva sobre seu objeto, por um lado, ou conhecimentos que sempre são incompletos, capazes de modificação ou de aperfeiçoamento, por seu próprio objeto, por outro.
Nos dois casos, porém, o objeto da faculdade da razão é o mesmo: conhecer o ente sob a razão de verdade. O fato de que alguns conhecimentos chegam à perfeição nesta meta, enquanto outros não o podem, não multiplica nossa razão: temos apenas uma razão. E tanto o conhecimento científico, completo, pleno, quanto o conhecimento imperfeito daquilo que é contingente, são exercícios desta mesma e única capacidade.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor resgata São João Damasceno que, sobre o processo humano de conhecimento, diz que o conhecimento se inicia com a formação de uma figura na imaginação, que dá origem a um grau muito superficial de conhecimento que é, ainda, apenas uma opinião insegura sobre o objeto; uma primeira hipótese. Mas a mente humana é capaz de testar estas hipóteses opinativas, julgando-as com o objeto – e é por isto, diz ele, que a palavra “mente” vem de “medir”, ou seja, sopesar as primeiras hipóteses com o seu conhecimento empírico. Por fim, o conhecimento que é julgado como verdadeiro forma nossa inteligência, que atinge sua perfeição pelo conhecimento da verdade.
Assim, diz o argumento, o próprio Damasceno reconhece uma razão inferior, que formula hipóteses, opina, testa, experimenta, e uma razão superior, que repousa no conhecimento seguro da verdade, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás nos ensina, agora, que Damasceno está descrevendo os passos do processo de conhecimento, e não quer dizer que estes passos sejam verdadeiros objetos diversos de conhecimento. A imagem é formada pelas nossas capacidades sensoriais na nossa imaginação, e nosso intelecto forma hipóteses e opiniões sobre o objeto da imagem, testando-as para separar as verdadeiras das falsas, até repousar na verdade, ao final do processo, quando atinge, de fato, o conhecimento intelectual. Temos apenas uma razão, e não devemos dividi-la ou separá-la em razão de um processo que visa, no fim, o atingimento da verdade.
3. Conclusão.
Estabelecida, assim, a unidade do nosso intelecto, estudaremos, no próximo artigo, este mesmo intelecto, para chegar ao sentido da noção de “intelecto”, e principalmente para saber o que é a inteligência.
Vemos, mais uma vez, o cuidado de Tomás em lançar as bases seguras para os conceitos e os termos que ele usa, de modo a prosseguir em segurança na descoberta da estrutura de nosso ser humano.
Texto de número 800 aqui no blog. Nem eu pensava que chegaria tão longe. Mas é apenas um pequeno passo: nem sequer chegamos ao fim da primeira parte.
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