1. Retomando.
Não exageramos ao dizer que esta questão, a de proclamar a unidade da razão humana, é de importância primordial para a vida humana. Sempre houve um risco de desprezar a concretude da vida histórica como algo inferior, menos importante, em prol de uma vida abstrata, teorética, desencarnada. Recentemente, dois documentos vaticanos chamaram a atenção para os riscos do gnosticismo, que é justamente esta tendência a desencarnar a inteligência humana; um da Congregação para a Doutrina da Fé, chamado “Placuit Deo”, e a exortação “Gaudete et Exsultate”, do Papa Francisco, que, especialmente no capítulo 2, nos adverte quanto aos gnósticos, que “concebem uma mente sem encarnação, incapaz de tocar a carne sofredora de Cristo nos outros, engessada numa enciclopédia de abstrações”, segundo o Papa. É este risco que devemos afastar, ao proclamar a unidade essencial da razão humana, mesmo quando reconhecemos que há, de fato, um modo de conhecer a vida em sua concretude, que envolve a prudência, e um outro modo de conhecer que envolve perquirir causas, ideias, abstrações, e que envolve a ciência, a sabedoria, a filosofia e até a teologia; não são, porém, duas razões, mas a mesma razão que encara duas tarefas diversas.
Mas chega de digressões; vamos à resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Tomás não hesita em afirmar a unidade essencial da razão humana: há apenas uma razão humana, porque temos apenas uma inteligência; não temos, nem podemos ter, duas potências racionais diversas.
De fato, diz Tomás, quando Agostinho fala em “razão superior” e “razão inferior”, ele não está tratando de duas capacidades diferentes, duas potências separadas. Ele trata da mesma potência, a razão, atuando de dois modos diferentes, frente a uma realidade que é complexa.
Nós somos confrontados com realidades permanentes, imutáveis, eternas, não contingentes, como as ideias e as estruturas lógicas e matemáticas; ou, ainda, a própria estrutura do universo, e, enfim, aquilo que a natureza nos revela de Deus. Em todos estes casos, nossa razão é capaz de investigar, buscando conhecer, e deliberar, buscando agir. Ou seja, não há dúvida de que estas realidades, além de se darem a nosso conhecimento, também influenciam nossa vontade e nosso agir. À razão humana, quando lida com estes aspectos da realidade, Agostinho chama de “razão superior”.
Por outro lado, também somos confrontados com as coisas que se inserem no tempo e na história, as coisas materiais, contingentes e passageiras, que se caracterizam pela provisoriedade, concretude e mudança. Elas também se dão ao nosso conhecimento e também interpelam nossa vontade e nosso agir. À razão humana que se relaciona com elas é que Santo Agostinho chama de “razão inferior”.
As coisas materiais e contingentes revelam-nos as eternas.
Nosso intelecto, que funciona racionalmente, tem adequação ao mundo material, histórico e concreto. É conhecendo as coisas concretas que nossa inteligência alcança o conhecimento das permanentes, universais, eternas. É o que nos ensina a Carta aos Romanos, 1, 20: “Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras”. Ou seja, a contemplação das coisas criadas, passageiras, mutáveis, leva-nos ao conhecimento das imutáveis. E o processo para isto é a inventio, diz Tomás; quer dizer, por inventio Tomás se refere ao processo de descoberta e aprendizagem, que se completa pela transmissão do conhecimento via ensino. Na inventio, é o próprio sujeito que chega ao conhecimento, por sua investigação.
Mas, por outra parte, o processo de investigação que resulta na inventio passa, em seguida, pelo processo de julgamento, ou juízo, no qual o conhecimento empírico é comparado com os princípios, de modo a torná-lo firme e seguro. Por exemplo, se vou ao enterro de um conhecido, e dias depois eu me encontro, na rua, com alguém idêntico a ele, a minha primeira impressão é a de que aquela pessoa que estava morta veio a ressurgir; mas, submetendo os fatos empíricos ao princípio da identidade e não-contradição, chego à conclusão de que ele tinha um irmão gêmeo.
Há, portanto, vários níveis de conhecimento, empíricos, principiológicos, lógicos, sapienciais, que nos levam no caminho da ignorância ao saber. Por exemplo, estes primeiros princípios da razão especulativa, que alcançamos naturalmente e sem raciocínio (como os princípios da identidade e da não-contradição) são princípios lógicos que pertencem ao conhecimento intelectivo; não são alcançados por investigação empírica. Mas o conhecimento dos animais ou dos vegetais, por exemplo, dependem de investigação empírica. Assim, os princípios lógicos não pertencem ao mesmo nível de hábitos que os conhecimentos empíricos: aqueles estão no domínio da filosofia, porque são sapienciais; estes, os empíricos, estão no domínio da ciência. Mas uns e outros se entrelaçam neste grande percurso de razão que nosso intelecto atravessa, de tal modo que uns são meios para chegar aos fins que são os outros.
É a mesma razão humana, portanto, que se aperfeiçoa pelo conhecimento da filosofia, da lógica, da ciência e pelos conhecimentos sapienciais: cada campo deste forma um hábito, vale dizer, um determinado aperfeiçoamento intelectual em nós, de tal modo que passemos da ignorância às virtudes intelectuais. Mas o fato de que estas virtudes têm muitos níveis não deve nos levar a pensar que o intelecto humano, que lida com todos estes níveis em seu percurso racional, seja mais do que uma, e somente uma, potência. A mesma potência que nos permite lidar, especulativamente, com as coisas eternas e imutáveis e com as coisas concretas e mutáveis, e, de modo prudencial e prático, com nosso próprio agir.
Não devemos, pois, nos deixar levar por algum tipo de esquizofrenia intelectual, que pretendesse que temos inteligências separadas para lidar com o sapiencial, com o científico e com o prático. Temos uma, e apenas uma, razão.
5. Palavras de encerramento.
É preciso, aqui, muita atenção com esta ideia de que há, em nós, diferentes hábitos intelectuais, como o hábito da sabedoria, que lida com princípios, e o hábito da ciência, que lida com o que decorre das causas em ação num mundo que se transforma. Todos estes hábitos estão no nosso mesmo e único intelecto, e o aperfeiçoam. Mas a falta de distinção entre eles, no nosso mundo contemporâneo, pode nos levar a um certo cientificismo, isto é, à tendência de achar que nada do que é sapiencial ou filosófico tem valor, frente ao que é científico: cada um destes níveis precisa do outro, no nosso intelecto, para nos dar a conhecer uma realidade que nos precede e nos supera.
No próximo texto enfrentaremos os argumentos objetores iniciais.
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