1. Introdução.
Santo Agostinho é uma grande referência, talvez a maior de todas, quando se fala de antropologia filosófica, ou mesmo teológica. Ele foi o primeiro a repensar profundamente o ser humano a partir da Trindade; embora não tivesse encontrado, em seu tempo, muita coisa sistematizada para apoiá-lo, ele deixou um pensamento sistemático para apoiar os que viessem a pensar após ele.
Mas com isto fica um grande problema para as gerações que lhe sucedem: algumas afirmações dele são problemáticas, e devem ser muito bem compreendidas. Tomás tem um enorme respeito por Santo Agostinho, e nunca ataca sua autoridade. Com isto, ele relê Agostinho com muito carinho, corrigindo e retificando discretamente aquilo que não esteve claro nos escritos daquele grande Padre da Igreja.
É o caso aqui: Santo Agostinho, na obra sobre a Trindade, mostra uma grande influência de Platão, mencionando a existência de uma “razão superior”, capaz de aprender sobre aquilo que está fora do tempo e espaço: as ideias, as formas puras, o Bem, Deus mesmo; por outro lado, haveria uma “razão inferior” dedicada a aprender sobre o que é terreno, condicionado, concreto, histórico e temporário, aquilo que pode ser mudado por intervenção humana. É com este dado que Tomás vai lidar, para evitar uma leitura gnóstica que despreza o que é histórico em favor do que é eterno, como se houvesse no ser humano uma inteligência para o eterno inteiramente separada da inteligência para o histórico, vale dizer, uma cisão entre a inteligência contemplativa e a inteligência prática; ou, em uma palavra, aquilo que conheço e creio não influencia aquilo que faço e vivo. Esta dualidade deve ser evitada, e é este o caminho que percorreremos, neste artigo. Não há duas inteligências, mas apenas uma, capaz de interligar estas duas dimensões da mesma realidade que ela é chamada a conhecer. Vamos ao debate.
2. A hipótese controvertida.
A hipótese que introduz o debate é exatamente a de que nós teríamos duas potências intelectuais distintas entre si, uma dedicada ao eterno, ao ideal, ao abstrato e universal, outra capaz de apreender o histórico, o localizado, concreto e individual. A hipótese, portanto, é a de que temos duas capacidades intelectuais diferentes, uma razão superior e uma razão inferior. São quatro os argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor trará justamente a citação de Santo Agostinho na obra sobre a Trindade. Nesta obra, Agostinho menciona a existência de uma parte superior da razão, capaz de contemplar e refletir a imagem da Trindade, e uma parte inferior da razão, incapaz de contemplar e refletir a Trindade. Ora, uma vez que as “partes” da alma são suas capacidades, isto significa que há, na alma humana, uma potência que podemos chamar de “razão superior” e outra, diferente, que podemos chamar de “razão inferior”, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor traz um raciocínio de origem: nada do que existe dá origem a si mesmo; tudo o que existe nasce de outra coisa. Ora, aquilo que faz nascer é sempre diferente daquilo que nasce, ou seja, se há algo que nasce, há uma outra coisa que faz nascer. Assim, se a razão inferior nasce da razão superior, e se a razão superior domina e dirige a razão inferior, então a razão inferior não pode ser a mesma coisa que a razão superior, mas tem que ser uma outra coisa, diz o argumento. Logo, a razão inferior é uma potência diversa da razão superior, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor resgata um trecho da obra “Ética a Nicômaco”, no qual Aristóteles parece afirmar que a inteligência humana tem diferentes tipos de razão, como potências ou capacidades diversas. De fato, no capítulo I do livro IV da Ética a Nicômaco (linhas 1139a 5 a 15), Aristóteles diz que no interior da alma intelectiva há uma duplicidade de princípios, um é o princípio pelo qual contemplamos as coisas que não são mutáveis, porque são permanentes, e outro é o princípio pelo qual conhecemos as coisas transitórias, mutáveis, contingentes.
E Aristóteles justifica esta divisão de capacidades racionais com o argumento de que, quando dois objetos são de espécies diferentes, as partes da alma que correspondem a estes objetos também são diferentes.
Portanto, prossegue o argumento, é preciso admitir partes diferentes na alma, já que a relação se dá com objetos diferentes; as coisas mutáveis, passageiras, concretas e destrutíveis são de espécie diferente daquelas coisas que são eternas, universais, imutáveis e imperecíveis. Logo, a parte da inteligência que lida com as coisas passageiras, como uma árvore, um animal, uma paisagem, deve ser diferente daquela que lida com o que não muda, como uma ideia, Deus e a eternidade.
Ora, prossegue o argumento, o que é permanente e necessário, na concepção de Aristóteles, é equivalente ao eterno e ideal na concepção de Santo Agostinho, e o passageiro e temporário, para Aristóteles, equivale ao contingente e histórico, na concepção de Santo Agostinho. Assim, vemos que, no fundo, as partes da razão que Aristóteles identifica são equivalentes àquilo que Santo Agostinho chama de “razão superior” e “razão inferior”. Assim, há duas faculdades da razão, diferentes entre si, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor cita São João Damasceno. Este Padre da Igreja descreve o processo de conhecimento assim: a imaginação gera a opinião, em nós. A nossa mente, então, deparando-se com as opiniões formadas na imaginação, mede se estas opiniões são verdadeiras ou não; daí vem o nome “mente”: vem de medir. Assim, as opiniões que foram julgadas verdadeiras pela mente são registradas em nosso intelecto. Portanto, prossegue o argumento, temos uma razão inferior, que cuida das opiniões, e uma razão superior, que lida com a verdade estabelecida. Então há, em nossa mente intelectual, duas potências racionais diversas, a razão inferior e a razão superior, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra também se vale da autoridade de Santo Agostinho no tradado sobre a Trindade. Ali, o Santo Padre da Igreja latina diz que a razão superior só se distingue da inferior pelas suas funções, e, portanto, não são duas potências diferentes: são a mesma potência e não podem se distinguir, porque têm o mesmo objeto, a verdade.
5. Palavras de fechamento.
Estabelecidos, assim, os termos do debate, examinaremos, no próximo texto, a resposta sintetizadora de Tomás, que nos ensinará que a inteligência humana é única, íntegra, e que a consideração das coisas temporais não se dá por alguma faculdade diversa daquela que considera as coisas universais e abstratas.
Deixe um comentário