1. Retomando.

Em que consistiria uma memória espiritual? Exatamente que tipo de estrutura teria o papel de guardar ideias adquiridas, como se fosse um “reino das ideias” platônico dentro de nossas mentes? Ou será que, ao fazer com que a ideia exista em nosso intelecto, de certo modo, nossa alma cresce, e se torna um pouco aquela coisa que ele aprendeu? Esta é a resposta aristotélica: se as formas só podem existir particularmente na matéria e universalmente nas inteligências, então, ao aprender, nossa alma se torna, de certo modo, todas as coisas. Crescemos espiritualmente com o nosso intelecto. Assim, aquilo que é aprendido já não está simplesmente depositado em nós como numa página de livro (que, se largado na biblioteca, não serve para nada), mas aquela coisa que aprendemos passa a existir em nós como ideia, como existência intencional que nos amplia. Passamos a participar um pouquinho mais da mente de Deus, que deu origem a todas as formas (e a todas as coisas), ao criar o mundo.

Veremos, agora, a resposta de Tomás a esta questão tão difícil e tão relevante.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Como podemos identificar e distinguir cada uma das capacidades ou potências humanas? Tomás nos ensina que toda potência se dirige a um ato, e é o ato que identifica a potência. Exemplificando, a semente de ipê é diferente da semente de milho; ambas estão em potência para ser uma planta; mas o ato da semente de ipê é transformar-se numa árvore, num ipê, ao passo em que a semente de milho virará um pé de milho, e é este o seu ato.

Assim, cada potência humana é identificada por seu ato. Vimos isto ao acompanharmos o debate da questão 77, artigo 3.

Mas é preciso deixar algo bem claro aqui: o ato que especifica a potência não é simplesmente a coisa, mas a relação entre a coisa e o sujeito, que é o objeto daquela potência. Assim, a mesma coisa pode ser objeto da visão, quando é enxergada, e objeto do tato, quando é apalpada. Assim, o objeto diversifica a potência: o objeto do tato é a aspereza da superfície, ao tempo em que o objeto da visão é a cor.

Assim, não é porque uma coisa é azul e outra é vermelha que isto altera a potência da visão: o objeto da visão é a cor, não esta ou aquela cor, tampouco a visão desta ou daquela coisa. Qualquer que seja a cor, o formato, a natureza da coisa vista, nada disto multiplica a potência da visão. Só existe uma potência da visão, cujo objeto é ver, seja qual for a coisa vista.

De maneira análoga, as potências intelectuais se identificam pelo seu ato. Ora, o intelecto humano caracteriza-se por ser potencial, isto é, por nascer como que vazio de conhecimentos, com plena capacidade de assimilá-los. De aprender.

Mesmo o chamado “intelecto agente” não é atual para o conhecimento, apenas para a capacidade de abstrair e iluminar os dados concretos, para chegar ao conhecimento universal. Assim, há apenas um intelecto possível, uma potência intelectual humana, cujo objeto é a apreensão da ideia (forma, species) no que ela tem de inteligível. Mas seu objeto, ou seja, sua capacidade, é diferente daquela do intelecto possível. Se a potência do intelecto possível é aprender, e seu ato é o conhecimento adquirido, a potência do intelecto agente é iluminar, e seu ato é abstrair o inteligível do concreto. Assim, o intelecto agente é, de fato, uma potência intelectual diversa do intelecto possível.

Mas não há um outro ato no intelecto além desses dois. De fato, assimilar as species, quer dizer, conhecer intelectualmente, é a própria potência do intelecto possível.

Mas conhecer não se esgota em pensar atualmente no objeto de conhecimento. Faz parte do conhecer que o intelecto possível seja movido do seu estado original de ignorância ao estado final de conhecimento, quando ele se torna, de certo modo, aquilo que conhece, ao assimilar-lhe a species, ou seja, sua ideia, que passa a existir intencionalmente, isto é, como uma ideia universal e abstrata, no intelecto. Portanto, aquilo que foi conhecido passa a existir no intelecto como uma ideia, não apenas quando estamos pensando nela, mas simplesmente porque sabemos.

Ora, este passar a existir intelectualmente implica não somente que a ideia da coisa é recebida, mas também que é retida em nós, em nosso espírito. Portanto, é o próprio intelecto possível que, quando aprende, dá existência, em si, à coisa apreendida, como ideia, retendo-a espiritualmente. Portanto, a memória espiritual não é outra coisa que o nosso intelecto que aprendeu algo e agora sabe. Não há, em nosso espírito, portanto, uma potência rememorativa, quer dizer, uma memória à parte, diferente do próprio intelecto possível. É o próprio intelecto que aprende e, aprendendo, retém a ideia aprendida.

3. Palavras de encerramento.

Depois desta aula maravilhosa sobre o modo pelo qual o conhecimento, ou seja, o processo de aprendizagem constitui, em nossa alma, um mundo espiritual, que nos torna maiores, e que faz as coisas mesmas, por suas essências, existirem em nós, de modo análogo àquele pelo qual existem na matéria, veremos, no próximo texto, a maneira pela qual Tomás enfrenta as objeções iniciais.