1. Introdução.

Sim, temos uma memória espiritual, intelectual, que é capaz de reter o que conhecemos, em forma de hábito ou virtude do conhecimento. Assim, tornamo-nos mais perfeitos, porque nossa mente, mesmo não pensando atualmente em algum conhecimento específico, tem a capacidade de resgatá-lo se já o adquiriu em algum momento. A pergunta agora é: será que esta memória espiritual é algo diferente do próprio intelecto mesmo? É alguma estrutura espiritual dentro de nós, para além do chamado “intelecto possível” e do “intelecto agente”? Teríamos, no nosso espírito, algum tipo de “chip” capaz de armazenar informações para nós?

Um exame aprofundado poderá nos mostrar que aquilo que chamamos de “memória intelectual”, por analogia à memória corporal, sensorial, não é uma estrutura a parte, mas o próprio intelecto que cresce e se torna mais perfeito pelo conhecimento e pela educação. Ou, pelo menos, é isto que defende a chamada “ética das virtudes”, que vem sendo retomada, ainda que timidamente, hoje em dia. Mas estamos nos adiantando. Por enquanto, admitiremos que a memória espiritual é algo diferente do intelecto, para aprofundar o nosso conhecimento sobre o tema. Vamos acompanhar o debate proposto aqui.

2. A hipótese controvertida.

Para provocar o debate, a hipótese inicial é a de que a memória é uma estrutura específica no intelecto, que teria, assim, um intelecto agente, um intelecto possível, a vontade e a memória intelectiva. Sendo assim, a memória espiritual não se confundiria nem com o próprio intelecto nem com a vontade. A hipótese controvertida propõe, então, que deve haver uma capacidade própria e separada para a memória, na alma intelectiva humana. Há três argumentos objetores iniciais, no sentido desta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor recorre a Santo Agostinho que, na obra sobre “A Trindade”, afirma expressamente que o intelecto humano compreende a memória, a inteligência e a vontade. É que este santo sabia que os atos destas três faculdades são diferentes entre si, já que a memória, que é retenção de ideias, é diferente da vontade, que é apetite. Assim, portanto, elas correspondem a três estruturas diferentes na alma humana; a memória intelectual, portanto, tem uma estrutura própria, separada, na alma intelectiva humana, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento adota a analogia com a parte sensorial da alma, na qual a memória é uma faculdade diversa dos sentidos (como foi debatido na questão 78, artigo 4), para propor que assim se dá também com a parte intelectiva da alma. De fato, diz o argumento, a separação das faculdades na parte sensitiva da alma deve ser análoga à separação de faculdades na parte intelectiva. Mas na parte sensitiva da alma a memória é uma faculdade separada, diferente dos sentidos. Então, na parte intelectiva, a memória espiritual deve ser uma faculdade separada também, diferente do intelecto, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Mais uma vez o argumento traz Santo Agostinho, que discorreu bastante sobre a memória intelectiva na obra sobre a Trindade. De fato, naquela obra, o santo trata bastante da memória, da inteligência e da vontade. Ele chega a afirmar que uma nasce da outra, e portanto as três têm a mesma natureza. Mas e a memória não é outra faculdade, mas é apenas o próprio intelecto, então Santo Agostinho errou, e nossa alma intelectiva não tem três faculdades iguais e que procedem uma da outra. Ocorre que Santo Agostinho não errou, diz o argumento, e que, portanto, a memória intelectiva é uma faculdade diferente do próprio intelecto, conclui.

O argumento sed contra.

Após termos examinado os três argumentos que estão no mesmo sentido da hipótese controvertida inicial, é hora de examinar o argumento contrário a ela.

As formas existem, segundo Aristóteles, de dois modos: na matéria, estruturando os entes, e nos intelectos. Assim, o intelecto é como um “cofre” ou baú de ideias, o seu depósito, no qual elas são conservadas; o intelecto é, portanto, como que o “arquivo” das ideias ou formas (species), segundo se lê na obra “Sobre a Alma” de Aristóteles. Logo, o argumento conclui que a memória intelectiva não é outra coisa senão o próprio intelecto.

4. Encerrando.

Examinaremos no próximo texto a resposta sintetizadora de Tomás.