1. Palavras de retorno.

Vimos, no texto anterior, a importância da retidão, perante a razão, da questão da memória espiritual, isto é, da capacidade que temos de reter o conhecimento intelectual de modo imaterial. Isto significa que o nosso conhecimento intelectual nos seguirá após a morte, embora nosso conhecimento sensorial, nossa memória concreta, seja perdida com a perda do nosso corpo. Isto induz uma importante consequência eucarística: como batizados, somos inseridos no corpo ressuscitado de Jesus Cristo, na morte, de tal modo que não ficaremos desprovidos de corpo, quando viermos a perder nosso corpo individual: morrendo na comunhão da Igreja, estaremos inseridos no Corpo Místico de Cristo e, com isto, até a ressurreição final, teremos corpo. Não será um corpo pessoal, mas comum, de tal modo que manteremos nossa identidade pessoal, pela memória espiritual, mas compartilharemos da completude existencial pela participação neste Corpo eterno.

Mas a discussão, agora, não é sacramental, mas propriamente antropológica: debatemos a natureza desta capacidade espiritual de reter o conhecimento intelectual recebido, como um “hábito”, a virtude da ciência. Isto foi visto no último texto, no qual Tomás, após expor as posições de Avicena e Aristóteles, ensina-nos como se dá esta retenção. Agora, veremos como Tomás enfrenta as objeções iniciais, estudando suas respostas.

2. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que Santo Agostinho classifica as capacidades humanas em duas partes: a parte inferior, que compartilhamos com os outros animais, e a parte superior, que nos é exclusiva, consistente nas capacidades intelectuais, que são imateriais, porque são espirituais.

Mas a memória, prossegue o argumento, é algo que compartilhamos com os outros animais. De fato, por experiência comum, sabemos que os animais têm memória, porque se lembram de outros seres, de fatos e de acontecimentos, e são capazes de temer aqueles que já lhes fizeram mal ou reconhecer aqueles que lhes são caros.

Ora, se a memória é uma capacidade comum, ela pertence à parte inferior da alma, que é a parte não espiritual, e portanto estritamente corporal, conclui o argumento. Assim, não existe, diz ele, uma memória intelectual.

A resposta de Tomás.

É preciso fazer uma distinção, aqui; compartilhamos com os outros animais a capacidade de lembrar de fatos concretos, individualizados no tempo e no espaço, a respeito de coisas ou acontecimentos individuais. Esta é a memória sensorial, que é comum aos animais, e que é corpórea.

Mas a capacidade de reter ideias universais e abstratas, que são as species das coisas conhecidas intelectualmente, não é uma capacidade compartilhada com os outros animais. Não se vê por aí macacos discutindo física quântica, nem cães debatendo cálculo diferencial. Assim, por não ser uma capacidade compartilhada, mas uma capacidade própria, ela é localizada na parte superior da alma, justamente aquela que se caracteriza por não depender de órgãos corporais para funcionar.

Mas devemos aduzir que o ser humano não tem “duas memórias”, porque somos uma unidade existencial. A nossa memória tem estas duas dimensões, que funcionam de modo integrado; mas a dimensão propriamente intelectual não depende do corpo para existir. É por isto que Tomás acrescenta uma citação de Aristóteles na obra “Sobre a Alma”, Livro III, na qual ele afirma que “as ideias localizam-se na alma, mas não em uma parte qualquer, mas sim no intelecto”.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lida com o fato de que a memória se caracteriza como aquela capacidade de reter informações obtidas no passado. Ora, prossegue o argumento, a própria noção de “passado” envolve a passagem do tempo, e portanto algo situado na história, num determinado ponto do tempo e do espaço. Mas conhecer algo situado no tempo e no espaço significa conhecer algo particular, concreto, individual.

Ocorre que o conhecimento daquilo que é situado no tempo e no espaço, e que é particular, concreto e individual não é uma capacidade do intelecto, mas dos sentidos, porque as coisas que têm estas características são conhecidas apenas empiricamente, não intelectualmente. Portanto, a memória, tendo esta natureza, é uma capacidade relacionada com a parte sensorial, que é corporal; e por isto o argumento conclui que não pode existir uma memória intelectiva, mas apenas uma memória sensorial.

A resposta de Tomás.

Quando tratamos do passado, diz Tomás, temos que levar em consideração duas dimensões:

1. A dimensão objetiva, ou seja, o próprio objeto do conhecimento, e

2. A dimensão subjetiva, ou seja, o conhecedor.

Estas duas dimensões, a dimensão subjetiva e a objetiva do estímulo passado, ocorrem simultaneamente em nós, quando somos interpelados por algum objeto.

Assim, primeiro, quando lidamos com algum estímulo que está na memória, sabemos que aquele estímulo não é atual, mas foi recebido no passado.

E, em segundo lugar, sabemos que ele se refere a algo que estava no passado.

A memória sensorial e o tempo.

E assim a circunstância temporal, o fato de se referir a um estímulo passado, provocado por algo que nos interpelou no passado, é da própria essência da memória animal, sensitiva, empírica. Assim, é um dado que constitui, por si mesmo, a memória sensorial, que compartilhamos com os animais. É da essência da memória sensorial que saibamos que recebemos no passado os dados sobre coisas que não estão presentes. É assim que, ao resgatarmos estas informações, podemos compará-las com aquilo que nos acontece no presente, ou seja, podemos nos lembrar.

A memória intelectual e o conhecimento recebido.

Mas a memória espiritual diz respeito àquilo que não está particularizado no tempo, mas é universal e abstrato. Assim, as ideias impressas em nosso espírito não envolvem, essencialmente, as particularidades de tempo e espaço: quando conheço a species do triângulo, aprendo o que é o triângulo e isto fica inscrito em minha alma, mas o triângulo que conheço espiritualmente não é aquele triângulo que vi na escola aos dez anos de idade, naquele quadro-negro, com aquele professor. É o triângulo, como forma abstrata e universal, que reconhecerei quando vir algum triângulo em algum momento em minha vida.

No entanto, em meu espírito, eu sei que eu não nasci com o conhecimento do que é o triângulo, e que aprendi isto em algum momento do passado. Assim, a memória espiritual do triângulo tem duas características anexas a ela (acidentais):

1) Que este é um conhecimento recebido, adicionado a mim em algum momento do passado, que diz respeito a um universo que está fora de mim, e

2) Que fui eu quem o recebeu, isto é, eu não sou o autor, mas o receptor, daquela informação.

Assim, a memória espiritual tem, em si, a noção de sucessão, de tempo, e a noção de subjetividade por reconhecer a alteridade da origem da informação. Mas estas informações, que estão presentes em nosso espírito de modo anexo à própria species aprendida, embora estejam relacionadas a uma situação concreta, a da externalidade da origem da informação e a da anterioridade do momento da aprendizagem, não são repugnantes à espiritualidade da memória intelectiva: nossa alma pode conhecer que somos um “eu” e que estamos inseridos no tempo, que somos criaturas e que temos identidade, que aprendemos e fazemos coisas, embora todas estas informações sejam, a rigor, concretas e individuais. Aprendemos e conhecemos nossa própria pessoa e sua relação com o mundo também de modo espiritual, e isto se inscreve em nosso espírito como um hábito de conhecimento, e portanto de modo espiritual, independente da corporeidade. Aquela concretude que, na memória simplesmente sensorial, constitui a própria essência da informação armazenada, aqui é simples acidente do modo de conhecimento. Esta é a riqueza de ser e saber-se pessoa, isto é, indivíduo livre e capaz de conhecer-se e dirigir-se livremente ao próprio fim.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento inicia afirmando que a memória se caracteriza por guardar as informações das coisas que não estão sendo pensadas agora.

Mas isto, diz o argumento, nunca pode ocorrer numa estrutura rigorosamente imaterial como é a parte intelectual da alma humana. Ou seja, uma estrutura rigorosamente imaterial não poderia conservar em si as ideias nas quais não está pensando agora mesmo, defende ele.

O argumento defende que a mente humana, sendo uma capacidade de inteligir, tem apenas duas formas de existir: ou está em potência, ou seja, está na ignorância, porque tem a capacidade de aprender mas ainda não aprendeu, ou está em ato, isto é, está pensando atualmente em alguma species (forma, ideia) que conhece. Ora, inteligir consiste exatamente em pensar atualmente sobre algo, e é este o ato do intelecto, reitera o argumento. Assim, ou ele está efetivamente pensando atualmente em algo, e está em ato para o conhecimento, ou ele esquece ou ignora alguma coisa, e está em potência para o conhecimento, reafirma o argumento.

Portanto, não haveria a possibilidade de que o intelecto pudesse conservar em si alguma coisa que ele sabe, mas na qual não está pensando atualmente, conclui o argumento, e portanto afirma que não pode haver algo como uma memória espiritual.

A resposta de Tomás.

De fato, o intelecto humano, quando ignora algum conhecimento, está no estado potencial para recebê-lo pela aprendizagem, diz Tomás. Assim, fala-se de intelecto potencial ou possível. Quando adquire este conhecimento e está pensando nele, está em estado de ato para este conhecimento. Mas, após adquirir este conhecimento intelectual, e mesmo que não esteja pensando nele agora mesmo, ele não retorna ao estado de ignorância: ele passa a saber. Ou seja, ele já tem ciência daquilo. A ciência, portanto, é um aperfeiçoamento que enriquece o intelecto, tornando-o depositário de um conhecimento que pode ser retomado à consciência sempre que for necessário. Este tipo de perfeição, que tem a característica de enriquecer alguém sem necessariamente estar constantemente em uso chama-se hábito, que é como uma segunda natureza, uma capacidade adquirida que torna fácil passar da potência ao ato. O hábito, como enriquecimento da alma, não diz respeito somente ao conhecimento intelectual, mas a todas as virtudes que aperfeiçoam espiritualmente o ser humano.

Portanto, há uma terceira maneira pela qual o intelecto humano se relaciona intelectualmente com o conhecimento, além da potência e do ato: ele está simplesmente em potência quando ignora, está em ato quando está pensando agora mesmo no conhecimento, e adquire o hábito da ciência quando já aprendeu mas não está, atualmente, usando este conhecimento. É, portanto, ao hábito impresso espiritualmente em nosso intelecto pelo processo de aprendizagem e educação que chamamos de memória espiritual, e que independe de órgão corporal para existir.

3. Conclusão.

Lindo artigo, que nos estimula ao crescimento espiritual pela educação. Linda visão do ser humano. Aqui, vemos nosso espírito crescer e nossas simples capacidades num processo de lapidação, que nos conduz à virtude.