1. Retomando.

Encerramos o texto anterior ressaltando que, mais uma vez, trata-se de um debate importantíssimo a respeito da natureza humana. De fato, somos animais intelectuais, e compartilhamos, com todos os animais, a memória da nossa inserção concreta no tempo e na história. Como sabemos, esta memória tem base material, isto é, funciona pela inserção dos dados sensoriais nalgum tecido cerebral adequado. Sofre deterioração, tem limites e tem um modo de funcionar similar à daqueles outros meios materiais que o ser humano usa para escrever suas recordações, como as paredes das cavernas, os pergaminhos e papéis e, mais recentemente, as memórias eletrônicas de computador.

A questão é que a nossa inteligência é independente do corpo em seu funcionamento. Poderíamos dizer que ela não depende de nenhum órgão corporal para funcionar, mas que depende de todos para aprender. Eis porque, depois da morte, não se consegue mais aprender: perdemos o corpo. Aquilo que sabemos, sabemos; aquilo que não aprendemos, as decisões que não tomamos, as coisas que não refletimos, estas permanecerão imutáveis pela eternidade, porque, sem o corpo, já não podemos aprender, não há mais inserção na história, não há mais tempo e espaço no sentido estrito e, portanto, não há mais mudança;

Ora, se a inteligência humana dependesse de algum órgão corporal para manter aquilo que já aprendeu intelectualmente, ou seja, se não houvesse alguma memória estritamente espiritual em nós, a morte apagaria inteiramente nossos conhecimentos intelectuais, como apaga nossa memória corporal concreta. Assim, uma vez mortos, voltaríamos ao estado que tínhamos ao nascer: completa ignorância, completa potencialidade, completo e irremediável apagamento de tudo o que adquirimos nesta vida. Seria um verdadeiro reinício, que tornaria sem sentido nossa vida corporal.

Mas como pode ocorrer uma memória espiritual? É o que veremos agora.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A memória consiste na capacidade de reter e conservar as ideias (ou formas, ou species) que não estão ativas na mente neste exato momento; em outras palavras, é a capacidade de reter species não atuais. Ou seja, é a capacidade de lembrar daquelas ideias que não estão presentemente sendo pensadas.

A questão, então, é a de estabelecer se a nossa inteligência, sendo imaterial, tem esta capacidade de armazenar ideias e acessá-las oportunamente, de modo imaterial, sem recorrer a algum órgão corporal.

Quanto a isto, diz Tomás, há duas posições fundamentais: a posição de Avicena e a posição de Aristóteles. Examinemo-las.

A posição de Avicena.

Avicena não conseguia admitir nenhum tipo de memória que não tivesse base material. A retenção de ideias, informações, dados, com relação a coisas com as quais não temos contato atual, ou nas quais não estamos ativamente pensando num determinado momento, dependeria sempre de algum suporte material, porque a capacidade de armazenamento de dados, para ele, é uma potência da matéria. E a nossa experiência prática, de certo modo, justifica esta conclusão: todas as informações que queremos conservar no mundo são inscritas em alguma base material, seja papel, pergaminho, seja um circuito eletrônico ou mesmo uma parede ou uma pedra. Avicena admite que as formas podem existir na matéria ou nalguma mente, e isto é inegável: podemos, de fato, pensar nas coisas abstratamente, ou seja, as suas formas podem subsistir em nossas mentes como universais, de modo inteligível, como subsistem na mente de Deus e na mente dos anjos. Mas só subsistem em nossas mentes aquelas formas nas quais estamos efetivamente pensando, de modo atual, e enquanto nós pensamos nelas. Assim que assimilamos aquela ideia e deixamos de pensar nela, ela desaparece do nosso intelecto possível.

Portanto, cada vez que precisamos pensar novamente numa certa forma ou ideia, o nosso intelecto possível deve recorrer de novo ao intelecto agente, para voltar a inteligir atualmente aquela species, forma ou ideia.

Mas devemos lembrar que, para Avicena, o intelecto agente não é uma estrutura pessoal; em nós, pessoalmente, haveria apenas o intelecto possível, com sua passividade com relação à obtenção de conhecimento. O intelecto agente, que, segundo ele, é um só para toda a espécie humana, e é uma espécie de depositário universal de todas as ideias que todos os seres humanos podem pensar. Nem é preciso comentar, em digressão, sobre o potencial autoritário de uma concepção como esta: no fundo, o que ela diz é que ninguém tem a capacidade de pensar sozinho, nem existe lugar ou legitimidade para a pluralidade e a discordância. A inteligência humana seria uma espécie de terminal passivo de uma imensa rede de pensamentos na qual há apenas um computador central, um mainframe, que retém todas as informações.

Assim, o ser humano adquire alguma ideia, ou seja, pode pensar atualmente em alguma coisa, ao se ligar a esse intelecto agente externo, único e suprapessoal; quando aquilo sai de sua mente, deixa de existir nele. Assim, para pensar novamente naquilo, deve unir-se de novo ao intelecto agente externo, para conseguir ter acesso àquela ideia. A aprendizagem, no ser humano, consistiria simplesmente no fato de que, uma vez que aprendemos alguma coisa, nosso intelecto possível passa a saber o modo de acessar o intelecto agente central, para obter novamente aquela informação. O conhecimento pessoal, portanto (ou seja, a capacidade intelectual de cada um, conforme seu avanço no processo de formação científica) seria apenas a capacidade habitual de obter novamente a mesma ideia junto ao intelecto agente. Assim, para Avicena, não haveria nenhum tipo de retenção de ideias, vale dizer, de memória individual, na imaterialidade da inteligência humana. Em nós haveria apenas a memória sensorial, que teria lugar nas nossas estruturas corporais, quanto aos fatos obtidos empiricamente pelos sentidos, e a capacidade habitual de obter ideias junto ao intelecto agente externo.

A posição de Aristóteles.

A posição de Aristóteles neste assunto é nitidamente diferente da posição de Avicena.

Na obra “Sobre a Alma” o Filósofo descreve o processo de conhecimento como um processo pelo qual o intelecto passivo, ao assimilar a ideia da coisa, torna-se, de certo modo, um com ela, isto é, o conhecimento consiste em que a coisa conhecida, que existe na matéria, passe a existir no intelecto de modo imaterial, intencionalmente. Deste modo, diz Aristóteles, quando intelecto passivo conhece, ele se torna um com a coisa, e passa a operar esta identidade por si mesmo. Ou seja, ao conhecer, ele é capaz de deixar de pensar ativamente na coisa conhecida, sem perder o conhecimento; torna-se, então, passivo para novos conhecimentos, capaz de assimilar novas ideias, mas esta passividade não é igual à passividade que possuía antes de conhecer; o conhecimento adquirido permanece latente na inteligência. O sujeito pode recorrer a ele quando quiser; embora, é claro, ele não permaneça sempre pensando atualmente neste conhecimento. É por isto que o conhecimento adquirido, no qual não se pensa neste momento, não é uma mera potência, nem é um ato, porque não está sempre no pensamento. Ele pertence a outra categoria: a categoria do hábito, isto é, daquele conhecimento que existe, mas não está ocupando a mente neste momento porque é latente. O hábito é, assim, uma disposição adquirida que torna possível a uma certa capacidade passar da potência ao ato. Ora, se é assim, este hábito do conhecimento representa um modo estritamente espiritual de armazenar conhecimento intelectual.

A posição de Tomás.

A posição de Avicena é insustentável, porque irracional. Não faz sentido, diz Tomás.

Se a alma intelectual é receptiva das formas, ou seja, se ela pode adquirir as ideias universais, que são as species das coisas que passa a conhecer, vale dizer, se a alma humana intelectual é capaz de conhecer, então ela deve ser capaz de reter as formas conhecidas.

Ora, já sabemos que as formas subsistem de dois modos: na matéria como entes individuais e numa mente, como formas abstratas, ideias universais, species das coisas. Assim, há um velho ditado que ensina que “as coisas são recebidas ao modo do recipiente”; de fato, as formas são recebidas na matéria ao imprimir-se nelas, dando origem a entes materiais. E a matéria é capaz de receber e reter as formas, de tal modo que, mesmo cessada a força atual que as imprimiu, elas permanecem na matéria: é só pensar num carimbo sendo impresso numa folha de papel. Depois de pressionado sobre o papel, a marca do carimbo fica ali, mesmo que o próprio carimbo seja destruído.

Ora, a mente, a inteligência, o espírito, são realidades mais poderosas que a matéria. Se a mente pode receber novas ideias, pela aprendizagem, não faria sentido que uma simples folha de papel tivesse o poder de reter a forma do carimbo, mas a mente, muito mais poderosa, não retivesse a forma abstrata e universal que se imprimiu nela pelo conhecimento. E, de fato, se as coisas são recebidas ao modo do recipiente, e se o espírito humano pode receber formas espiritualmente, não há razão para que ele não retenha a forma que recebeu. Mesmo porque, diz Tomás, o espírito é muito mais estável que a matéria: posso destruir minha bola de futebol, que é uma realidade material, mas jamais poderei destruir a própria ideia universal de esfera, abstrata e espiritual, que dá origem à bola.

Portanto, é de se esperar que a alma intelectiva possa reter as formas abstratas e universais que lhe são impressas pelo conhecimento, de modo muito mais estável do que a matéria pode reter as memórias concretas e empíricas.

No entanto, a memória espiritual não pode reter dados concretos da individualização, como o tempo e o espaço de algum ente concreto. Quer dizer, somos capazes de lembrar, espiritualmente, o que é um cão, mas certamente a memória da minha cadelinha Pipoca, seus atos, suas qualidades, sua idade, tudo isto fica apenas na memória corporal, concreta.

Então a conclusão de Tomás é a de que a nossa inteligência, que é estritamente espiritual, pode reter o conhecimento universal, intelectual que adquire; mas as circunstâncias particulares da vida ficam na memória corporal. Isto tem uma comprovação prática interessante: somos capazes, por exemplo, de recordar as operações matemáticas que aprendemos na infância, mas dificilmente lembraremos das circunstâncias concretas em que fomos ensinados por alguém a realizá-las. A lembrança das operações matemáticas é intelectual, e está impressa na alma. A lembrança daquele dia em que o professor primário nos deu a lição de matemática que resultou neste conhecimento é uma lembrança material, concreta, impressa na memória sensitiva.

É claro que há uma intensa relação entre a memória corporal e a memória espiritual, na vida humana. Na prática, são duas dimensões da memória de uma única e mesma pessoa.

3. Encerrando.

Como digressão, poderia dizer que isto tem consequências interessantes para a sobrevivência humana após a morte: somente a afirmação de uma estrutura intelectual completa em cada indivíduo permite defender a sobrevivência da alma humana após a morte. Mas a perda da memória concreta significa que nosso conhecimento, depois de mortos, sobre o que fomos e o que fizemos em vida será bastante limitado. Num eventual juízo final, Deus será o único a conhecer a concretude do que fomos e fizemos. Não haverá debates sobre fatos, com ele, em tal julgamento. Contemplaremos a nossa própria vida como em terceira pessoa. Não haverá desculpas, subterfúgios nem interpretações.

No próximo texto veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.