1. Introdução.

A memória tem sido um dos aspectos em que a moderna tecnologia tem se aproximado mais eficientemente de uma simulação da mente humana. De fato, a capacidade de armazenar informações em meio material é algo tão velho quanto a história humana. Melhor dizendo, a história humana propriamente dita se inicia quando o ser humano adquire a capacidade de usar a matéria para armazenar sua memória: o surgimento da escrita marca a passagem da pré-história para a história.

A memória estocada, portanto, usa o mesmo mecanismo, desde as pinturas rupestres até a mais moderna tecnologia de memória eletrônica em computadores: um suporte material que recebe inscrições de dados.

Esta é, também, a maneira pela qual os animais (nós também) armazenam dados concretos, obtidos por meio dos órgãos dos sentidos. Nossa memória também consiste no armazenamento organizado de dados no cérebro. E está sujeita à deterioração da idade, e mesmo de patologias que atingem o corpo.

A pergunta é: se a inteligência é uma capacidade completamente imaterial, e a memória consiste na estocagem de dados em alguma base material, como a inteligência poderia ter, ela própria, uma memória do que aprendeu intelectualmente? Este é o objeto do nosso debate agora.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida admite, para iniciar, que a memória sempre envolve algum tipo de estocagem de dados na matéria; assim, no caso dos animais, como no nosso, o cérebro é que recebe estes dados e os armazena. Assim, nossa inteligência, sendo imaterial por natureza, não teria nenhuma capacidade de armazenar conhecimentos. Por isto, a hipótese diz que a nossa inteligência é incapaz de reter informações imaterialmente; a memória humana seria sempre uma capacidade corporal, material. Ou seja, parece que a nossa memória não se encontra na parte intelectiva da alma humana.

A consequência disto salta aos olhos: se nós não temos nenhuma capacidade de memória no intelecto, mas toda a nossa memória depende exclusivamente do copro para existir, então, com a morte, nossa inteligência continua existindo, mas perdemos completamente a memória. A morte nos devolve à ignorância inicial do nascimento. De fato, a morte separa a alma do corpo, e, se a memória é corporal, ela seria integralmente destruída pela morte. Sobreviveríamos à morte, mas numa completa amnésia. Ou melhor, devolvidos à condição de página em branco, tabula rasa, do nosso nascimento corporal.

Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor considera que a alma humana tem “funções inferiores”, que compartilha com os outros animais, e “funções superiores”, que são as atividades de inteligência, que são próprias apenas do ser humano. Portanto, tudo aquilo que o ser humano compartilha com os outros animais está na parte inferior da alma e, portanto, tem natureza corporal. Este ensinamento, diz o argumento, é do próprio Santo Agostinho. Ora, os animais têm memória, já que são capazes de lembrar de estímulos passados e reconhecer semelhantes ou inimigos com base em informações armazenadas; aliás, o próprio Santo Agostinho ensina que os animais têm memória. Assim, fica claro que a memória não pertence à parte superior da alma humana, imaterial, mas à parte inferior, que é relacionada estreitamente ao corpo; a memória é uma capacidade corporal, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

A memória tem, como característica, o fato de guardar fatos do passado. Mas o passado é algo que se refere a um ponto no tempo e no espaço. Mas as coordenadas que definem um determinado ponto no tempo e no espaço são estritamente materiais, isto é, somente existem com relação à matéria. Assim, a memória tem como função a de armazenar os dados sobre uma ocorrência concreta que se dá no mundo material, com todo o seu condicionamento individualizante. Mas as capacidades que lidam com acontecimentos individuais, materiais e concretos não são as da inteligência, mas as do sentido. A inteligência é universal e abstrata, ao passo em que os sentidos são concretos e individualizantes. Assim, a memória é uma função da esfera dos sentidos, material portanto, e não da inteligência imaterial, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

A memória retém as ideias (formas, species) que não estão sendo pensadas atualmente.

Mas o intelecto só tem dois estados: ou ele ignora uma ideia (forma, species), caso em que ele é ignorante, ou seja, está numa condição apenas potencial para o conhecimento, ou ele está numa situação em que ele conhece a ideia (forma, species), ou seja, está em ato para aquele conhecimento, porque o intelecto se atualiza pela posse da ideia (forma, species) da coisa conhecida. Assim, tudo o que está no intelecto é atual, vale dizer, é perfeitamente conhecido e está sendo pensado. Logo, aquelas ideias retidas pela memória que não estão sendo pensadas atualmente não podem estar no intelecto, diz o argumento. Ora, a única esfera da alma que é imaterial é o intelecto. Se a memória retém as ideias que não estão atualmente no intelecto, então ela não está localizada na esfera imaterial da alma, mas em alguma das suas esferas materiais, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai citar Santo Agostinho, que afirma simplesmente que a memória, a inteligência e a vontade são uma só realidade no ser humano. Ora, se é assim, e a inteligência e a vontade são imateriais, então a memória também o é, conclui o argumento.

5. Palavras de encerramento.

Artigo importantíssimo. Afirmar uma memória espiritual, imaterial, é afirmar a capacidade de carregar para após a morte a própria identidade humana: se a sobrevivência da alma se desse apenas por uma faculdade de intelecção inteiramente desmemoriada, certamente esta vida humana, material, encarnada, não teria nenhuma relevância após a morte. Isto não pode ser: a vida tem que prosseguir de modo a que eu saiba quem sou, na vida eterna, e que esta vida seja relevante para mim.

Por outro lado, as evidências de que a memória humana tem uma forte relação com a matéria são muito fortes.

Veremos a resposta sintetizadora de Tomás no próximo texto.