1. Retomando.

Vimos, no texto anterior, a hipótese controvertida de que o intelecto agente, que é esta estrutura ativa que ilumina a realidade criada, permitindo extrair, dos seus dados concretos, a inteligibilidade universal que se esconde sob a individualidade das coisas, não seria uma capacidade individual, mas algum tipo de intelecto humano além dos indivíduos, uma entidade única e imaterial da qual todos nós participaríamos e que seria necessária para que, individualmente, pudéssemos chegar ao conhecimento intelectual. Assim, haveria apenas uma grande mente investigativa comum para toda a espécie humana, segundo a hipótese inicial. Vimos os três argumentos objetores neste sentido, bem como o respectivo argumento sed contra, defendendo a individualidade da capacidade de conhecer, em nós.

Examinaremos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás e, em seguida, suas respostas diretas aos argumentos objetores iniciais.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Se adotarmos premissas equivocadas nesta matéria, diz Tomás, chegaremos a respostas diferentes.

De fato, se concebemos o intelecto agente como um ente, como um ser com existência própria e separada, então concluiremos que há apenas um intelecto agente para toda a humanidade. Neste caso, fazendo uma pequena digressão, negamos ao indivíduo a autonomia da capacidade de aprendizagem, já que toda aprendizagem individual seria apenas receptiva, dependente de um ente ativo e externo que simplesmente entrega o conhecimento já iluminado ao indivíduo. Haveria, aqui, uma grande tendência a legitimar esferas de poder intermediárias entre Deus e o ser humano, contra os quais o indivíduo somente poderia submeter-se passivamente.

Mas se concebemos, corretamente, o intelecto agente como uma estrutura essencial que compõe o próprio indivíduo humano, ou seja, parte daquilo que o caracteriza como pessoa, como esta natureza racional capaz de se relacionar com liberdade com o mundo e com Deus, temos que admitir que o intelecto agente é múltiplo em sua existência real, ou seja, que há tantos intelectos agentes quanto há pessoas no mundo, e cada qual tem seu próprio olhar espiritual sobre o mundo, sua própria capacidade de iluminar a inteligibilidade da criação. De fato, diz Tomás, se alguma estrutura é comum a todos os seres humanos, como, por exemplo, o sentido da visão, isto significa que todos nós, cada um de nós, partilha de uma só capacidade, a capacidade de ver, mas cada um tem seus próprios olhos. Pensando analogicamente, todos nós compartilhamos esta mesma estrutura do conhecer que é o intelecto agente, mas cada um tem seu próprio intelecto agente. O fato de que há, em nós, estruturas imateriais, como o intelecto, não significa que não sejamos, como seres humanos, entes materiais, que se multiplicam com a matéria; com a nossa individualização corporal pela matéria, ocorre também a multiplicação das nossas estruturas pessoais imateriais, como a inteligência, que é parte do todo unitário que somos.

3. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que a matéria é o princípio de multiplicação dos entes; nenhum ente que é separado da matéria pode multiplicar-se; os entes imateriais são apenas um em cada espécie. Ora, o intelecto agente é imaterial, como diz Aristóteles. Assim, ele não poderia se multiplicar. Logo, há apenas um intelecto agente para toda a espécie humana, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Aristóteles ensina que o intelecto humano não depende da matéria para operar; neste sentido, ele é imaterial, tanto na sua dimensão agente, quanto na sua dimensão possível. Ele é imaterial, realmente, pelo fato de que, como foi dito, ele não opera por órgãos corpóreos, embora dependa deles como pressupostos para sua própria operação. A operação do intelecto é imaterial.

Isto não significa, no entanto, que ele seja um ente separado da matéria; ele é apenas uma parte integrante de um ser corpóreo, que é o ser humano, e, portanto, multiplica-se em individualidades com a multiplicação dos seres humanos. Ou seja, há um intelecto agente para cada ser humano.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor lembra que o intelecto agente é responsável por examinar os dados concretos, individualizados, particulares, que obtemos com nossos sentidos e organizamos em nossa imaginação, para deles extrair, por abstração, sua universalidade. Assim, digamos, dos muitos cães que examinamos pela vida afora, somos capazes de abstrair e chegar à ideia universal de cão, que é uma só e envolve todos os cães, aqueles que existem, os que já existiram e os que ainda vão existir.

Ora, prossegue o argumento, se o intelecto agente é aquela estrutura capaz de unificar a ideia, tornando-a universal, então ele é a causa da unidade da ideia. Portanto, aquilo que causa um efeito deve ter, em si, de modo excelente, aquela característica do efeito. Assim, se o intelecto agente é a causa da unidade da ideia, ele deve ser apenas um para toda a humanidade, como a ideia é apenas uma para todas as mentes que a conhecem e para todos os seres que a incorporam, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É verdade que o intelecto agente é responsável por abstrair, dos dados concretos dos sentidos, a universalidade da ideia, possibilitando o conhecimento intelectual. E é verdade que o conhecimento intelectual é o conhecimento daquilo que é verdade universal, isto é, que é a única verdade para toda a universalidade do objeto de conhecimento, e para todas as mentes que conhecem aquela mesma ideia.

No entanto, o que unifica a ideia é a mente de Deus, que a origina; em nós, a ideia vem como aprendida, e não tem, em nós, a fonte de sua unidade. Neste sentido, é preciso que o intelecto agente, em nós, seja uma única capacidade, isto é, temos, em nós, apenas uma mente que examina, ilumina, abstrai e alcança o conhecimento universal, a partir dos dados concretos, chegando à única verdade sobre aquele objeto (embora sempre de maneira limitada e parcial, já que apenas a mente de Deus é capaz de conhecer a verdade sob todos os aspectos e em sua mais completa inteireza).

Assim, é preciso que o intelecto agente seja único, em cada um de nós, para que cada um de nós possa chegar, a partir de dados concretos, à única verdade. Mas não é preciso que haja apenas um intelecto agente para todos nós, como se a verdade fosse gerada pelo nosso conhecimento, não pela mente divina. Em nós a verdade é um dom, não um produto.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor parte de uma constatação prática, que é factual, ou seja, é fato evidente que todos os seres humanos concordam pelo menos nas concepções intelectuais mais básicas, como os princípios da identidade e não-contradição. Ora, estes princípios são, em primeiro lugar, fundamento da atuação do próprio intelecto agente; pode-se dizer que eles formam a própria estrutura do intelecto agente. Portanto, se estes princípios formam a estrutura do intelecto agente, e se eles são os mesmos para toda a humanidade, então o intelecto agente é um só e o mesmo para toda a humanidade, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É verdade que os seres da mesma espécie têm características comuns, que são a mesma para todos os indivíduos. Mas isto não significa que todos os indivíduos daquela espécie partilhem de uma única característica. Esta característica, única, se multiplica para cada indivíduo, sem perder sua identidade. Um exemplo tornará mais claro: todos os cães latem, igualmente. Mas não há um latido único, universal, abstrato, fora de cada cão, que todos os cães partilhariam; cada cão late seu próprio latido, mesmo partilhando a identidade canina, que é latir.

De modo análogo, todos os seres humanos são capazes de chegar aos mesmos princípios da inteligibilidade, como os princípios lógicos da identidade e da não-contradição, e chegam a estes princípios em razão do intelecto agente, que os usa para abstrair, dos dados concretos obtidos pelos sentidos, o conhecimento universal das formas ou ideias. Mas o fato de que cada um de nós é capaz de perceber e usar estes mesmos princípios lógicos, que são únicos para toda e qualquer inteligência, não significa que nós compartilhamos de uma única e mesma inteligência extracorporal, numericamente única, que seria a mesma para todos nós. Esta é uma conclusão errada. Em cada um de nós existe a capacidade, individual e pessoal, de ativamente chegar ao conhecimento. Ou seja, do mesmo modo que todos os cães têm a mesma capacidade de latir, mas cada um tem o seu latido, todos os seres humanos têm o mesmo poder ativo de inteligir, mas cada um tem o seu intelecto agente.

O fato de que todos os seres humanos chegam aos mesmos princípios inteligíveis fundamentais somente demonstra que estes mesmos princípios são únicos em sua origem, mas esta origem não é humana. Não é a nossa inteligência que causa a unidade dos primeiros princípios; esta unidade vem de outra fonte, que não é humana. Para Platão, o que causa a unidade é a existência de um “mundo ideal”, existente em algum lugar transcendente, e mais real do que o nosso. Nós, cristãos, sabemos que não é assim: as ideias só existem na matéria ou numa mente. Não num suposto mundo separado mais real que o nosso. Estes princípios se originam na mente de Deus, que os unifica e dá inteligibilidade ao mundo criado. Falando metaforicamente, e seguindo na linha aristotélica, a mente de Deus é o sol. O nosso intelecto agente é a luz que nos permite enxergar localmente aquilo que surgiu por força do sol.

4. Conclusão.

Estabelecemos, a um só tempo, com Tomás, a dimensão pessoal da aprendizagem e a dimensão transcendental da unidade na verdade. Deus é o centro. Mas nós, ainda que reunidos pela única verdade, somos capazes de chegar a ela pessoalmente, porque fomos individualmente equipados com a capacidade de fazê-lo. Lindo ensinamento. Talvez um dos pontos em que a grandiosa estrutura desta catedral maravilhosa (que é a Suma Teológica) se mostra mais perfeita é aqui.