1. Introdução.

Vimos, no artigo anterior, que o intelecto agente é uma estrutura humana, e portanto é algo de humano, que se integra na alma humana. Mas isto não resolve completamente os debates existentes no tempo de Tomás.

De fato, o intelecto agente, que representa a capacidade humana para aprender de modo autônomo, pode não ser uma estrutura divina; pode ser criatural, de fato, admitem alguns. Mas não é múltiplo, isto é, não existe um intelecto agente para cada ser humano. Todos participam de um único intelecto agente que, por não ser material, não se multiplica. Esta é a hipótese debatida agora. Isto traz importantes efeitos para a dignidade individual do ser humano, para a sua sobrevivência após a morte e até mesmo para sua identidade; é tão impensável para nós, hoje (que já colhemos os frutos da posição de Tomás, e da Igreja, quanto à dignidade individual do ser humano) que quase parece inaudito que isto tenha sido debatido algum dia. Mas foi. Vamos acompanhar este debate que, de tão importante, forjou a cultura cristã e mesmo, para além dela, a cultura humanística, a partir do que era chamado, na época, de averroísmo filosófico, isto é, aquele pensamento de que a coletividade seria mais importante do que a individualidade, do ponto de vista espiritual.

2. A Hipótese controvertida.

A hipótese controvertida é a de que o intelecto agente, esta estrutura humana que ilumina os dados concretos obtidos pelos sentidos e possibilita o nosso conhecimento intelectual não é uma estrutura individual, mas uma espécie de mente universal, coletiva, que serve a todos os humanos ao mesmo tempo. Assim, haveria um intelecto agente separado da matéria que nos individualiza, e que seria responsável por possibilitar o conhecimento humano. Uma espécie de computador central, uma grande e única mente ativa que viabiliza o conhecimento de toda a humanidade. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese controvertida inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor vai lembrar que a matéria é o princípio de individuação: nada que é imaterial pode multiplicar-se. Aquilo que existe separadamente da matéria permanece uno. Existe, por exemplo, apenas um conceito de triângulo, ainda que eu possa desenhar milhares de triângulos. Os triângulos, em suas representações materiais, podem multiplicar-se. Mas a própria ideia de triângulo, expressa no conceito, é imaterial, e por isto não é suscetível de multiplicação. Quando concebo mentalmente o triângulo em sua ideia geométrica universal, tenho, na minha mente, a mesma ideia de triângulo que está em todas as mentes inteligentes que a conhecem.

Ora, já vimos que a inteligência humana é imaterial; logo, o intelecto agente, sendo uma estrutura intelectual humana, é imaterial, e portanto existe e funciona independentemente da matéria. Mas se é assim, ele é insuscetível de multiplicação corporal por força da individuação material, simplesmente por ser imaterial. Logo, o intelecto agente é um só para toda a espécie humana, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

É próprio do intelecto agente receber os dados individualizados e concretos, existentes em nossa imaginação a partir dos dados adquiridos por nossos sentidos, e gerar em nós a species, forma ou ideia, que se caracteriza por sua unidade, universalidade e abstração, e cuja formação em nosso intelecto consiste, justamente, no conhecimento intelectual. A ideia, justamente por ser imaterial, não histórica e imutável, é única por essência.

Ora, aquilo que é capaz de gerar a unidade da ideia na mente é causador de unidade. Mas ninguém pode causar aquilo que não tem. Logo, se o intelecto agente é a causa da unidade das ideias, por sua universalidade, ele deve ser, em si mesmo, uno, ou seja, um só para todos os seres humanos, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Há alguns princípios que são evidentes por si mesmos, e que permitem todo o conhecimento posterior. No caso da razão especulativa, que se ocupa com o conhecimento daquilo que é, estes princípios são aqueles da identidade e da não-contradição: nem sequer seria possível investigar a realidade sem estes dois princípios, mas eles não são descobertos por raciocínio ou investigação: são evidentes em si e não são fundamentados em nada anterior a eles.

Ora, estes princípios são o pressuposto de todo conhecimento, e fundamentam a atuação do próprio intelecto agente. Se não houvesse os princípios da identidade e da não-contradição, não haveria intelecto agente. Assim, pode-se dizer que estes princípios são recebidos pelo intelecto agente, em nós.

Uma vez que estas primeiras noções são comuns a todos os seres humanos em seu processo de conhecimento, elas são únicas para toda a humanidade, e pautam todo processo de conhecimento desde o início. Portanto, este processo de conhecimento deriva de um princípio único, comum para todos os seres humanos, que é o próprio intelecto agente. Logo, há apenas um intelecto agente para toda a humanidade, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai buscar uma citação de Aristóteles que, no Livro III da obra Sobre a alma, diz que o intelecto agente é como a luz. Ora, a luz não é a mesma em cada ato de visão e em cada objeto iluminado por ela. Logo, prossegue o argumento, tampouco o seria o intelecto agente; cada ser humano teria o seu, capaz de iluminar-lhe o conhecimento, conclui.

5. Palavras de encerramento.

Defender a pessoalidade do intelecto agente foi um dos maiores feitos de Tomás, que nos legou, assim, uma cultura humanística e personalista capaz de resistir aos coletivismos massacrantes. Por isto, vale a pena aprofundar o restante do artigo no próximo texto.