1. Retomando.

A discussão em curso é importantíssima; diz respeito à própria capacidade humana de conhecer, por si mesmo, aquilo que há de inteligibilidade no mundo. De fato, se é Deus que infunde em nós o conhecimento, ou se há algum intelecto agente separado que ilumina a inteligibilidade do mundo para nós, diminuída está a dignidade humana. Somos sujeitos humanos, no sentido de que somos, cada um de nós, capaz de conhecer, de inteligir e de se conduzir de acordo com este conhecimento. É isto que está em jogo neste debate sobre o intelecto agente: de certo modo, a integridade e a especificidade do modo humano de conhecer.

No texto anterior, vimos a hipótese controvertida de que o intelecto agente não é parte de cada alma humana; vimos, também, cinco poderosos argumentos, filosóficos e até bíblicos, neste sentido. Examinaremos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora.

Tomás vai iniciar sua resposta com uma afirmação enérgica, que é também uma tomada de posição: quando Aristóteles fala disto que ele chama de “intelecto agente”, esta luz que é capaz de extrair a inteligibilidade em ato daquelas coisas cuja inteligibilidade está apenas em potência, ele está falando, diz Tomás, de uma estrutura que pertence à própria alma humana, ou seja, à pessoa humana em sua individualidade. Isto merece uma palavrinha de explicação.

O intelecto potencial frente ao conhecimento intelectivo potencial.

Lembremos que, conforme ensinava Aristóteles, as formas, isto é, a ideia universal e abstrata de cada coisa, existe sempre na matéria de modo particular e numa mente, de modo universal. Mas, diferentemente da mente de Deus, que contém todas as formas porque as concebeu, e da mente dos anjos, que já é criada com todas as formas infundidas nela, gravadas de antemão, a nossa mente, a mente humana, é criada como uma página em branco, que deve ser preenchida.

Mas o ser humano é capaz de interagir diretamente apenas com as coisas materiais, por meio dos sentidos. Não conseguimos interagir diretamente com realidades imateriais, como as formas universais. Ora, nas coisas materiais, com as quais nos deparamos, as ideias (formas, species) encontram-se individualizadas, ou seja, elas não revelam, isoladamente, toda a riqueza da forma universal que as aperfeiçoa. Neste sentido é que Tomás diz que a inteligibilidade das coisas materiais é apenas potencial: ele quer dizer que há uma inteligibilidade nelas, mas não está ali pronta para ser absorvida diretamente pelo intelecto. As informações sensoriais que elas nos transmitem são sempre parciais, individuais, concretas e limitadas, incapazes de nos dar, isoladamente, um conhecimento universal, abstrato e uniforme sobre elas.

Uma boa metáfora, aqui, seria a de uma biblioteca escura, sem nenhuma luz; os livros estão ali, mas a leitura não é possível na escuridão. Assim, as informações contidas nos livros são apenas potenciais para nós. Acesa a luz, as informações tornam-se atuais, e podemos ler.

Sim esta metáfora é imperfeita e incompleta. De certo modo, as informações sensoriais não são potenciais, mas atuais, para os dados concretos e individuais. Mas a universalidade do conhecimento está oculta na individualidade, ou seja, os conhecimentos concretos obtidos pelos sentidos são potenciais para o conhecimento universal e abstrato a ser obtido pelo intelecto.

Ora, para que alguma coisa aconteça, é preciso o encontro de uma realidade atual com uma potencial, de tal modo que a realidade atual possa levar a realidade potencial ao ato. Se eu tenho, por exemplo, uma parede sem pintura, mesmo que eu tenha um pincel seco eu não conseguirei pintá-la, porque tanto a parede quanto o pincel são apenas potenciais para a cor. É preciso, então, que haja uma lata de tinta, que é uma doadora atual e efetiva de cor, para que a pintura seja realizada, e a parede atinja seu estado de atualidade como uma parede pintada.

Assim, o encontro do nosso intelecto possível, que é potencial para o conhecimento (é uma folha em branco) com as informações concretas dos sentidos, que são potenciais para a inteligibilidade universal, não poderia resultar em conhecimento atual. Duas coisas potenciais, como vimos, não podem dar-se atualidade reciprocamente.

O intelecto especulativo e o intelecto prático.

Há uma outra questão a ser considerada: o conhecimento humano não é uma criação de inteligibilidade, mas um decifrar de uma inteligibilidade preexistente nas próprias coisas. É preciso distinguir, aqui, o intelecto humano especulativo, que deve conhecer o mundo, absorvendo sua inteligibilidade, do chamado “intelecto prático”, que é derivado daquele, e nos torna capazes de agir. O intelecto prático não cria conhecimento, mas é capaz de valer-se do conhecimento para viabilizar nosso próprio agir e fazer, respeitando a inteligibilidade do mundo que é captada pelo intelecto especulativo. Vamos dar um exemplo para tornar mais claro: o intelecto especulativo do engenheiro naval é capaz de conhecer a inteligibilidade da água, da madeira, do ferro, do vento, do tecido, de tal modo que, respeitando as características destas realidades, ele pode, com seu intelecto prático, projetar um barco que seja capaz de flutuar e mover-se. Se o intelecto prático não respeita o fato de que ele é derivado, de que vive num mundo com uma inteligibilidade própria, o barco que construiu vai afundar.

O inteleto absoluto e o intelecto contingente.

Ora, e eu recebo uma carta, para que eu possa lê-la é preciso que alguém tenha escrito, nela, alguma mensagem. Se meu cão suja de tinta, aleatoriamente, uma folha de papel que está no chão, não posso pretender lê-la como se contivesse em si alguma inteligibilidade. Uma carta é sempre a transmissão de inteligibilidade de uma mente para outra.

Ora, somos contingentes, isto é, hoje existimos, mas ontem não existíamos e amanhã não existiremos. É preciso, pois, admitir que apenas uma mente ilimitada, absoluta, eterna, poderia ter fornecido inteligibilidade ao mundo. Somente assim a nossa mente, contingente, limitada e vazia, pode adquirir a inteligibilidade do mundo: se houver uma mente mais elevada que conceda essa inteligibilidade ao mundo. O conhecimento intelectual, então, é uma grande doação, ou melhor, é a participação do nosso intelecto pobre e vazio naquele intelecto absoluto, nesta grande carta de amor que é o mundo criado.

Assim, a nossa inteligência é participativa, porque intelige ao participar da mente divina por meio da criação. E esta participação não é automática, depende de esforço, de conquista, de aprendizagem. De raciocínio. Exploração. Nossa inteligência não é como a dos anjos que, tendo infusas todas as formas, intelige instantaneamente. Nossa inteligência intelige por processo, por etapas, por raciocínios, e por isto dizemos que nossa inteligência é racional, não intuitiva. Ela parte do vazio, do potencial, ou seja, da ignorância, para a intelecção, num processo de aperfeiçoamento. Portanto, dentro daquela mesma concepção de que nada que é potencial pode passar ao ato sem que alguma coisa atual intervenha, é preciso descobrir onde está, neste processo, a realidade atual que permite que o intelecto humano passe da ignorância à intelecção. Vale dizer, descobrir onde está o intelecto agente, capaz de encaminhar o intelecto possível da ignorância ao conhecimento atual.

É claro que Deus é a fonte de todo conhecimento atual. Assim, seria muito fácil responder, simplesmente, que Deus é quem atualiza, na inteligência humana, o intelecto, iluminando os dados obtidos pelos sentidos, que são apenas potenciais para o conhecimento intelectual, de modo a fazê-los atuais, possibilitando o conhecimento intelectual humano. Assim, cada ato de aprendizagem intelectual seria o resultado direto, em nós, da ação de Deus iluminando-nos.

A inteligibilidade atual de Deus seria o intelecto agente?

Mas isto não resolve nosso problema. Não se há de negar que, de um ponto de vista remoto, total, universal, Deus é a causa de todo conhecimento atual e de todo conhecimento potencial; ele é a causa de sermos inteligentes. Mas não haveria sentido em imaginar que ele nos teria criado na ignorância só para se dar ao trabalho de ir nos iluminando a cada passo de nosso processo de raciocínio, de aquisição de conhecimento, como se, metaforicamente, fôssemos seres desprovidos de olhos aos quais Deus fosse gerando imagens visíveis no cérebro cada vez que encarássemos alguma cena.

Assim, mesmo admitindo que Deus é a fonte da inteligibilidade em ato, temos que admitir que deve haver alguma coisa, em nós, que nos permita beber desta fonte, sem este ocasionalismo que faz de Deus a causa secundária do conhecimento, em nós. Cada novo conhecimento, em nós, seria um verdadeiro milagre, e não uma ocorrência natural, se não tivermos alguma estrutura, em nós mesmos, capaz de nos fazer beber da inteligibilidade atual.

Portanto, permanece

A analogia do sol.

Tomás faz, agora, uma analogia da inteligibilidade atual da criação, em Deus, com o papel do sol na vida em nosso planeta. De fato, ninguém pode negar que o sol é a fonte remota de toda a vida no nosso planeta: se não fosse a energia do sol, não poderíamos viver, não poderíamos exercer as atividades vegetativas, não poderíamos nos reproduzir. A própria reprodução da vida está, portanto, atrelada ao sol como sua explicação mais profunda, mais fundamental. Sem o sol, não há reprodução humana.

Mas isto não significa que não deva existir, em cada indivíduo humano, um aparelho reprodutor ativo, capaz de transmitir a vida que, em última instância, depende do sol como sua causa mais remota. Portanto, a causalidade primeira e remota do sol, como fonte da vida, depende de estruturas ativas, nos seres vivos, capazes de absorvê-la (a vida) e transmiti-la. De fato, a vida que o sol transmite está armazenada em todo o bioma do planeta, mas é, de certo modo, potencial para nós; precisamos de estruturas ativas capazes de torná-la ativamente aproveitável por nós.
Assim, de maneira análoga, o fato de que Deus é a fonte última de inteligibilidade ativa não exclui a necessidade de que haja, em nós, uma estrutura ativa capaz de ler esta inteligibilidade que fica depositada em toda a criação de modo potencial, para torná-la ativamente aproveitável por cada um de nós.

É por isto que o próprio Platão comparou o intelecto agente com o sol, como Aristóteles o comparou com a luz que torna visível um ambiente. Em ambos os casos, é necessário existir, em nossa alma, alguma estrutura que torne este conhecimento, potencial na criação, uma realidade ativa em nosso intelecto.

Assim, o intelecto separado, que tem a característica de garantir a inteligibilidade ativa da criação, não pode ser outro senão Deus. Mas ele não pode ser o intelecto agente de cada indivíduo humano, porque isto significaria que a natureza humana seria incompleta, incapaz de estabelecer esta relação de participação com a inteligência divina. Esta capacidade ativa de participação é, analogicamente, a própria luz de Deus em nós, mas é uma participação criada, ou seja, uma estrutura ativa em nossa inteligência que nos faz ser, de maneira mais completa e perfeita, imagem de Deus. É isto que diz o salmista, quando afirma, no Salmo 4, 7: “Quem nos fará ver o bem? Senhor, levanta sobre nós a luz da tua face!

3. Palavras de encerramento.

O tema do conhecimento intelectual individual é essencial, não somente para compreender a estrutura antropológica, como para estabelecer uma correta relação entre nós e com Deus. Complexo, portanto, este tema.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.