1. Retomando.
Vimos, então, as concepções de Platão e Aristóteles quanto à natureza do conhecimento, e como Tomás habilmente combina as duas para construir uma teoria do conhecimento simples e poderosa, capaz de relacionar na liberdade as mentes em torno das species ou ideias. Colocados, finalmente, estes fundamentos, podemos passar ao exame das respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor quer fazer um paralelo entre o conhecimento sensorial e o conhecimento intelectual. Os sentidos relacionam-se com os sensíveis (ou seja, com os aspectos das coisas que são perceptíveis pelos sentidos) de maneira proporcional àquela pela qual o intelecto se relaciona com o que há de inteligível nas coisas, propõe o argumento. Ora, as capacidades sensoriais são sempre passivas frente aos dados sensíveis que se apresentam a eles. Não existe um sentido ativo. Assim, se não há um sentido agente, de modo similar, não se poderia admitir algum tipo de intelecto agente, na inteligência humana, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
As potências da alma vegetativa são ativas porque não envolvem nenhuma relação com coisas externas ao próprio sujeito: cabe-lhes aperfeiçoar o próprio sujeito no sentido da sua atualização completa. Ora, tudo aquilo que atualiza uma potência deve estar, ela própria, em ato.
Quanto à alma sensitiva, aquelas dimensões das coisas, que interpelam os nossos sentidos, e que são conhecidas como “sensíveis”, existem sempre em ato, porque somente realidades em ato podem interpelar os sentidos. Uma parede potencialmente branca é uma parede que ainda não é branca, e portanto meus olhos não podem ver uma brancura que ainda não está ali. Assim com todos os sensíveis.
Ora, se os sensíveis, ou seja, o objeto da sensibilidade, é sempre uma realidade em ato, que encontra um sentido em potência, não é necessário que exista um sentido em ato, ou sentido agente. Os olhos veem sempre cores que estão em ato, o paladar sente sabores que estão em ato e assim por diante. Não é necessário imaginar algum órgão que emitisse luz, de tal modo que o olho fosse capaz de ver, ou algum órgão que emitisse sons para que o ouvido pudesse ouvir, como uma espécie de radar.
Mas, no caso da inteligência, a inteligibilidade das coisas concretas está sempre em potência, porque o inteligível é sempre abstrato e universal, mas as coisas concretas são sempre individuais e particulares. Por isto é que é necessário admitir um intelecto agente, que possa atualizar a inteligibilidade dos dados particulares que recebemos, e um intelecto possível ou passivo, que recebe em si o conhecimento intelectual atualizado pelo intelecto agente. Portanto, se as capacidades vegetativas são todas ativas e as capacidades sensoriais são todas passivas, nas capacidades intelectuais há dimensões ativas e passivas compondo o aperfeiçoamento do intelecto.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor apoia-se na física que se conhecia no tempo de Tomás. No conhecimento científico de então, alguns defendiam que a atmosfera seria algo opaco, ou seja, um meio que impediria os olhos de enxergar as cores de algo; assim, a luz seria um fenômeno capaz de tornar transparente a atmosfera, de tal modo que o brilho da luz pudesse atingir os olhos. A luz, para estes estudiosos, não tornaria brilhante as cores da superfície; estas teriam brilho próprio, mas estariam impedidas de atingir os olhos do observador apenas em razão da opacidade do ar não iluminado. Assim, no processo sensorial da visão, a rigor a luz não seria um agente, mas apenas um elemento que causa a transparência da atmosfera, para que o brilho da luz, que seria ativo por si mesmo, possa atingir os olhos.
Ora, prossegue o argumento, no caso da visão intelectual, não existe nenhuma “atmosfera”, nenhum meio opaco entre os dados inteligíveis e a mente receptiva. Portanto, não haveria analogia com o papel da luz na visão sensorial. Assim, não é necessário admitir um intelecto agente, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás vai lembrar que a ciência de então possuía duas concepções sobre o papel da luz no ato de enxergar.
A primeira concepção defendia que a luz seria diretamente responsável por tornar as cores visíveis, quando incide sobre elas. Assim, as cores seriam, de regra, meramente potenciais para a visão, e a luz seria o elemento que as tornaria atuais para os olhos. Esta visão é mais próxima do que sabemos, hoje, sobre a natureza da luz e seu efeito sobre as cores.
A segunda concepção entendia que as cores eram brilhantes e ativas por si mesmas, mas, uma vez que, na ausência de luz, a atmosfera seria opaca, o papel da luz consistiria em torná-la transparente, para permitir que o brilho natural e ativo das cores chegasse aos olhos. Esta é a visão defendida pelo argumento objetor.
Ora, em qualquer das duas visões, diz Tomás, a luz é um elemento agente para a visão. Mas na primeira concepção a luz tem um papel análogo àquele que o intelecto agente tem na nossa inteligência. Na segunda concepção, que é a do argumento, a luz tem um papel similar, mas não completamente análogo àquele do intelecto agente, porque ela torna a cor visível, mas não pela mesma razão que o intelecto agente torna o dado inteligível visível para o intelecto possível. Em qualquer caso, o argumento não invalida a necessidade de um intelecto agente.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento também relembra a ciência do seu tempo; havia um princípio científico, então, que dizia que tudo aquilo que recebe alguma coisa, ou seja, que é sujeito do ato pelo qual alguma coisa lhe é dada, recebe esta coisa a seu próprio modo. Assim, por exemplo,a imagem de um rosto é recebida no espelho como um reflexo luminoso, é recebido no mármore como uma escultura e é recebida na pessoa como uma face de carne e osso. Ora, a inteligência humana é imaterial; logo, deveria receber imaterialmente os dados que lhe chegam.
Mas, prossegue o argumento, os dados imateriais constituem-se justamente como ideias universais e abstratas, quer dizer, os dados imateriais são inteligíveis em ato, pelo simples fato de serem imateriais. É por isto, inclusive, que Platão pleiteou um reino só de ideias, imateriais, que seria um reino daquilo que é total e perfeitamente inteligível em ato. Assim, não é necessário admitir a existência de alguma estrutura intelectual, em nós, com a capacidade de iluminar estes dados para torná-los inteligíveis, vale dizer, seria desnecessário pleitear algum intelecto agente, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A resposta de Tomás é curta e profundamente técnica, por isto pode ser de difícil compreensão.
Tomás diz que as formas, ou ideias, existem somente de dois modos: nas mentes, como ideias abstratas e universais, ou seja, como conhecimento, e nas coisas, dando-lhes forma, ou seja, como individualidade e particularidade. Pensemos num círculo: como um mero conceito geométrico, ou seja, como uma ideia, ele existe nas mentes, abstrata e universalmente, como aquela figura fechada na qual todos os pontos da linha estão à mesma distância do centro. Mas existem muitas rodas no mundo material, cada uma delas é concreta e particular e, portanto, não coincide com a respectiva noção abstrata. Ora, a inteligibilidade do círculo é plena quando estamos tratando de sua forma geométrica descrita num conceito; mas, quando vejo um círculo desenhado, ou uma roda, há, aí, uma inteligibilidade apenas potencial: é preciso abstrair, conceitualizar, universalizar, para chegar na noção inteligível de círculo a partir das rodas e dos círculos desenhados que encontro por aí.
Assim, é necessária a participação do intelecto agente, como aquela capacidade da nossa inteligência que ilumina, nos dados sensíveis que recebemos das diversas coisas circulares que concretamente vemos, aquilo que têm em comum, abstraindo das condições materiais concretas, para que a forma imaterial de círculo possa fixar-se no intelecto possível. Ou seja, os dados sensíveis, embora recebidos imaterialmente por nós por meio dos órgãos dos sentidos, precisam sofrer a ação do intelecto agente para ser purificados das condições materiais e particulares nas quais interpelam nossos sentidos, para adquirir em ato a inteligibilidade que lhes permitirá subsistir em nosso intelecto possível como conhecimento intelectual. E é justamente isto que o intelecto agente faz: ilumina os dados concretos, de tal modo que sua inteligibilidade potencial transforme-se em inteligibilidade atual.
3. Conclusão.
Chegamos, então, à figura do intelecto agente, que funcionaria como aqueles peixes abissais que têm uma espécie de lâmpada sobre a cabeça para enxergar no fundo do mar. Mas que lâmpada é esta? Onde ela está? Qual sua natureza?
Veremos isto no próximo artigo.
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