1. Introdução.

No artigo anterior, vimos a natureza basicamente passiva do nosso intelecto: nascemos com a inteligência como “folhas em branco”, e é a inteligibilidade intrínseca nas coisas que imprimirá, em nós, aquilo que é o aperfeiçoamento de nossa inteligência.

Mas é inegável que este processo humano de aperfeiçoamento da inteligência não é puramente receptivo: se, por um lado, não criamos inteligibilidade, por outro lado é claro que participamos ativamente do processo de aperfeiçoamento da nossa inteligência; é fácil notar que não aprendemos do mesmo modo, nem com o mesmo ritmo, nem temos todos os mesmos interesses. Não somos receptores meramente passivos, mas pessoas, isto é, sujeitos de relações. Neste sentido, é muito pertinente debater aquilo que, em nós, é capaz de ser o sujeito da aprendizagem, por meio de alguma atividade.

Este é o debate agora em curso: como o intelecto pode ser, a um só tempo, potencial para o inteligível e ativo para o processo de conhecimento? Vamos debater e aprender mais sobre nós mesmos.

2. A hipótese controvertida.

A hipótese controvertida, aqui, é a de que não participamos ativamente do processo de conhecimento: somos inteiramente passivos, neste aspecto. Nosso intelecto seria, então, uma capacidade sem iniciativa, sem poderes para buscar e processar o conhecimento. Ou seja, não há nenhuma dimensão ativa em nosso intelecto, vale dizer, não haveria, em nós, aquilo que os clássicos chamavam de “intelecto agente”. Há três argumentos no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor faz um paralelo entre a capacidade sensorial e a capacidade intelectual. A capacidade sensorial é inteiramente passiva; não há nenhum “sentido ativo” ou “sentido agente” que vá provocar e extrair os dados sensórios que os sentidos receberão. Os sentidos são sempre passivos, no sentido de que são sempre potenciais para os estímulos que receberão. Ora, prossegue o argumento, não é diferente com o intelecto; sendo como uma folha de papel em branco, ele é uma capacidade que está em potência para seu objeto próprio, que são os dados inteligíveis. Logo, do mesmo modo que não há um sentido agente, não deve haver um intelecto agente, mas apenas o intelecto possível, ou potencial, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Há alguns estudiosos, diz o argumento, que afirmam que alguns sentidos precisam de algum tipo de agente, de entidade capaz de transformar em ato a informação passiva, apresentando-a ao sentido. É o caso da luz, que é o agente capaz de tornar a cor visível para os olhos. Mas não é assim, diz o argumento. Retomando a concepção do seu tempo, o argumento afirma que a luz não ilumina a cor; apenas, quando está sem luz, o ar fica opaco, e assim a presença da luz torna o ambiente como que transparente ou translúcido, permitindo que o brilho da cor chegue até os olhos. Mas entre o intelecto humano e seu objeto, que são as formas abstratas, não há nenhum meio que, como o ar, fosse opaco na ausência de algum agente. Portanto, conclui o argumento, não é necessário pleitear ou imaginar a existência de algum tipo de intelecto ativo, ou intelecto agente.

O terceiro argumento objetor.

Este argumento usa conceitos filosóficos bastante densos, que têm que ser lidos com muita atenção. O primeiro conceito é o de que aquilo que recebe algo de outra coisa, recebe em si a seu modo aquilo que recebe. Parece complicado, mas é fácil de entender, quando pensamos num exemplo. Pensemos num rosto. Ele está numa pessoa como parte desta pessoa, em carne e osso. Mas está no espelho como reflexo, e está nos meus olhos como estímulo luminoso que será convertido em sinal nervoso que será decodificado pela mente. Ora, o rosto está em mim em carne e osso, porque sou carne e osso. Está no espelho como reflexo, porque o espelho é uma superfície reflexiva. E está nos meus olhos como estímulo capaz de despertar impulsos nervosos porque meus olhos são um instrumento capaz de converter estímulos luminosos em estímulos nervosos para o cérebro. Assim, cada realidade que recebeu o rosto, recebeu a seu próprio modo.

Ora, já foi visto por diversas vezes que é próprio da capacidade intelectual ser uma potência imaterial. Portanto, ele deve receber seu objeto próprio, que são as formas universais abstratas, de modo imaterial. Mas as formas universais abstratas são, elas mesmas, realidades imateriais. Assim, não é necessário que haja nenhuma transformação nas formas, para que elas sejam recebidas pelo intelecto. Logo, não se precisa pleitear algum agente, como um intelecto ativo, que tivesse o poder de capacitar o intelecto passivo, ou possível, para receber formas que já são, naturalmente, adequadas a ele. Logo, o argumento conclui que não há necessidade de pleitear a existência de algum intelecto agente, que viesse a tornar as formas universais inteligíveis para o intelecto possível.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra vai buscar uma passagem em Aristóteles, na qual ele afirma que, em todas as naturezas, ou seja, em todo tipo de coisas, há sempre um princípio que recebe, que sofre a influência das relações externas, e outro que faz, ou seja, que é capaz de efetuar transformações em si ou no mundo. Não é diferente com a alma, diz o argumento. Se o intelecto possível é capaz de assimilar todas as formas abstratas, “tornando-se”, de certo modo, todas as coisas, o intelecto agente teria o poder de iluminar as formas abstratas e imprimi-las no intelecto possível. Assim, é necessário reconhecer a existência de um intelecto agente, conclui o argumento.

5. Encerrando.

No próximo texto, examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.