1. Introdução.

Passeando na rua estes dias, vi um anúncio que dizia: “Escola tal. Aqui o pensamento do seu filho constrói o mundo!” E pensei: como estamos longe do pensamento de Tomás! Nos tempos dele, se alguém construiu o mundo a partir do próprio pensamento, este é, sem dúvida, Deus. Portanto, se uma escola prometesse que o pensamento de uma criança iria “construir o mundo”, certamente as pessoas responderiam que esta criança teria que ser o próprio Deus, para fazê-lo. Ora, nada mais contemporâneo do que anunciar um serviço prometendo que o cliente, ao comprá-lo, virará Deus.

Mas voltemos ao artigo. De fato, o ser humano não tem um papel meramente passivo na criação: a ele foi delegada a função de completá-la, como se vê em Gn 1, 26 e Gn 2, 15. Mas este agir, este fazer, pressupõe saber que o logos do mundo está em Deus, não em nós. Assim, nosso intelecto deve participar, deve conhecer o que Deus infundiu de sentido no mundo, e somente no respeito a este sentido é que somos chamados a agir. Se o engenheiro aeronáutico não respeita a estrutura do ar, o avião não voa. É neste sentido que nosso intelecto é, fundamentalmente, participativo, isto é, ele é derivado, não fundante. Ele é criatura, não criador.

Mas estamos nos adiantando. Vamos ao artigo.

2. A hipótese controvertida.

Vamos iniciar o debate pela apresentação da hipótese controvertida. Parece que o intelecto humano não é uma capacidade passiva, vale dizer, ele não é uma estrutura fundamentalmente receptiva de um sentido, de um logos que preexiste a ele e se dá a conhecer. O intelecto humano seria, então, um doador de sentido, um criador de mundos, e não uma capacidade de ler dentro de um mundo criado por Deus. Há três argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial de sabor tão contemporâneo para nós.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

A passividade está sempre na matéria, e a atividade está sempre na forma. Um exemplo disto é o barro: o barro amorfo, mera matéria-prima, é todo potencial, todo receptivo, pode transformar-se em qualquer coisa. O escultor vem e lhe impõe uma forma, ou seja, molda-o como caneca, como jarro, como escultura; é esta forma que atualiza, que transforma ativamente a matéria passiva que a recebe.

Mas a inteligência não é material. Como já foi tantas vezes dito, a inteligência pressupõe a imaterialidade da alma. Logo, a inteligência é uma característica da forma, não da matéria. Portanto, se a passividade é própria da matéria, e a inteligência é imaterial, formal, ela não pode ser passiva, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

A inteligência não é sujeita à destruição. Isto foi debatido na questão 75, artigo 6, na qual ficou bem estabelecido que é próprio da inteligência não sofrer degradação nem destruição. Mas aquilo que é passivo, ou seja, que pode ser alterado pela recepção de uma forma externa, é mutável, e portanto não é permanente; logo, não é indestrutível, pode sofrer corrupção e deixar de existir. Portanto, se o intelecto fosse passivo, ele seria destrutível, como lembra Aristóteles na obra Sobre a Alma. Disso, o argumento conclui que a capacidade intelectual não é passiva.

O terceiro argumento objetor.

Tudo aquilo que é passivo é mais simples, menos nobre, menos elevado do que aquilo que é ativo. De fato, lembrando o exemplo do barro informe, há certamente menos valor num amontoado de argila, pura passividade do barro para ser moldado, do que num belo e útil pote ou vaso, resultado da atividade de informação sobre o barro.

Ora, prossegue o argumento, as capacidades vegetativas, como a digestão, o crescimento, a fecundação, são todas capacidades ativas. Ora, todos sabemos que as capacidades da chamada “alma vegetativa” são menos nobres do que as capacidades da alma intelectiva, como o próprio intelecto humano. Ora, se as capacidades vegetativas, menos nobres, são ativas, também a capacidade intelectual, muito mais valorosa, imaterial, nobre e elevada, deve ser ativa, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Aprender dói. Minha professora primária costumava dizer-me isto, quando eu ficava inquieto e impaciente na sala de aula. O processo de intelecção, diz Aristóteles, é um processo passional, porque a intelecção é algo que se sofre, não algo que se cria. Quando adquirimos conhecimento, há uma mudança em nós, ou seja, sofremos mudanças para inteligir. Disto tudo o argumento conclui que o nosso intelecto é uma capacidade passiva.

5. A resposta sintetizadora de Tomás.

Há três sentidos em que se pode dizer que alguma coisa é passiva, isto é, que ela é objeto da ação de outra coisa. São eles:

1. O modo próprio ou principal pelo qual se diz que uma coisa sofre a ação de outra, isto é, que ela é passiva, é quando ela perde alguma característica ou propriedade que lhe pertence por natureza. Neste sentido, quando vemos uma pedra localizada em cima de uma árvore, por exemplo, temos a certeza de que ela sofreu a ação de alguma coisa que a deslocou, já que pedras não nascem em árvores. Outro exemplo seria a doença nos seres vivos: quando um ser vivo exibe os sintomas de alguma doença, sabemos que ele sofre a ação de algum agente patogênico que lhe tira a saúde. Aqui, pois, há a passividade em sentido próprio quando há uma ação de um ser estranho à coisa, causando-lhe uma transformação que lhe tira de sua condição natural.

2. Em sentido menos próprio, podemos dizer que alguma coisa é passiva, ou seja, sofre uma paixão, uma alteração, quando ela passa por alguma mudança que lhe altera um aspecto, ainda que seja para restituição de uma integridade perdida. Neste sentido, diz-se que uma pessoa que se cura de uma doença por meio de um tratamento médico é um paciente, isto é, é o passivo recebedor da cura. Alguém que recebe uma notícia boa e se alegra estaria também neste caso.

3. Por fim, diz-se que é passivo aquele ser que passa da potência ao ato, mesmo sem ser privado de nada. É o caso da nossa aprendizagem: nosso intelecto é levado da ignorância ao conhecimento pelo contato com as informações. Neste sentido, a aprendizagem é uma paixão, ou seja, algo que se sofre, no sentido de ser algo que ocorre conosco, e nãoalgo que causamos.

Não se está dizendo, neste último caso, que não pode haver o esforço por aprender, a busca ativa pela informação, o exercício do estudo; nada disto retira o fato de que o trânsito da ignorância ao conhecimento depende de algo que ocorre desde fora, a aquisição do conhecimento que nos chega do exterior.

6. Palavras de fechamento.

Como ocorre isto? É o que veremos no próximo texto.