1. Palavras de retomada.
Vimos, então, que há, em nós como nos demais animais, algumas capacidades internas que se relacionam com o modo pelo qual recebemos as informações sensíveis e lidamos com elas. Podemos discerni-las pelo senso comum, montá-las na imaginação, sopesá-las na estimativa e guardá-las na memória. Tudo isto gera uma dinâmica muito rica de interação com o ambiente, que os animais mais completos compartilham com o ser humano. Temos, pois, estas mesmas capacidades. Mas certamente não lidamos com esta informação do mesmo modo que os irracionais: a inteligência não é algo como um “segundo andar de capacidades” que se sobrepõe às capacidades relacionadas à sensibilidade: somos, integralmente, seres inteligentes. E veremos agora a forma pela qual a nossa inteligência torna peculiar a atuação dos nossos sentidos internos, quando comparada à dos outros animais.
2. A resposta sintetizadora. Os sentidos internos no ser humano.
Não há diferença entre a maneira pela qual nós, humanos, recebemos os estímulos sensíveis exteriores, por um lado, e a maneira pela qual os animais recebem estes mesmos estímulos. É o que nos afirma, desde logo, Tomás, com base na ciência do seu tempo.
Sabemos que ele se refere, aqui, a alguma diferença qualitativa, não às diferenças quantitativas. De fato, há animais com muito maior sensibilidade a estímulos do que nós; animais capazes de enxergar mais longe e mais nitidamente, sob menos luz, ou de sentir odores muito mais sutis. Não é disto que Tomás está falando; ele sabia disto, tão bem quanto sabemos nós, porque os seres humanos usam estas qualidades animais em seu favor, por exemplo, adestrando animais caçadores para ajudar com a caça. O que Tomás afirma é que a simples percepção dos estímulos externos é similar, nos animais e em nós.
Mas, quanto às demais capacidades interiores, há uma diferença a partir do terceiro estágio, aquele em que se formam as chamadas “espécies intencionais” das coisas assimiladas sensivelmente, e que somos capazes de antecipar o modo pelo qual as coisas se comportam, por si mesmas e com relação a nós. Esta é a chamada “capacidade estimativa”, nos animais, pela qual os predadores são capazes de prever as reações de suas presas e vice-versa. Nos animais, diz Tomás, não há nenhuma capacidade de abstração, e, por isto, as reações são instintivas. De fato, quando percebe que aquela mancha marrom sobre o monte é um lobo, a ovelha não racionaliza, não reflete, não classifica o lobo, mas simplesmente foge. Por outro lado, quando o pássaro apanha o pequeno galho para construir seu ninho, ele usa, sem dúvida, a capacidade estimativa; mas ele não pensa em criar um novo estilo arquitetônico ou desenvolver uma nova funcionalidade para seu lar: ele constrói o seu ninho por instinto, e não há nada, aí, de cultural ou criativo. Os ninhos são construídos do mesmo modo pelas mesmas espécies há milhões de anos, e continuarão assim por tempos imprevisíveis.
No ser humano, no entanto, as coisas não são tão simples. Nós também temos esta capacidade de estimar, de conhecer concretamente para prever e prover; mas, em nós, ela não é instintiva. A partir dos dados sensíveis e da nossa experiência, podemos comparar, sopesar e mudar as coisas. É assim que aprendemos, por exemplo, a adestrar feras que poderiam ser nossos predadores, ou construir abrigos mais eficazes do que aqueles que encontramos na natureza. A esta capacidade relacionada com a nossa reação às informações sensíveis, Tomás diz que, em nós, ela não é chamada simplesmente de “estimativa”, mas recebe o nome de “cogitativa”, dada a abertura que temos para alterar o valor da nossa reação com as coisas concretas que nos interpelam sensivelmente, por meio de cogitações, comparações, experimentação e descoberta. Há, aqui, uma verdadeira “razão particular”, diz Tomás, que não lida com universais, mas com coisas, e é capaz de modificar e aperfeiçoar o mundo. A medicina do tempo de Tomás chegou a localizar a raiz desta “razão particular” numa determinada região do cérebro, que teria a capacidade de conhecer coisas particulares, como a nossa alma conhece as universais.
Também quanto à memória, há um dinamismo no ser humano que está ausente das outras espécies. Se, nelas, a memória é um depósito passivo de formas intencionais, de tal modo que podem lidar com as coisas que conhecem, em nós a memória tem uma atividade que envolve a capacidade de relacionar, comparar, indagar e mesmo descobrir, que torna tão interessantes os romances policiais em geral. Se, por um lado, a memória pode falhar, por outro ela tem a possibilidade de descobrir aquilo que, no calor do momento, não ficou evidente. Não se trata, aqui, ainda, da memória espiritual, que acumula ciência, mas da memória material mesmo, que acumula vivências concretas.
3. A colaboração de Avicena e Averróis.
Avicena, lembra Tomás, pleiteia a existência de mais uma capacidade sensível, ou sentido interno: algo que se situa entre a capacidade estimativa e a capacidade imaginativa, e que seria capaz de interagir criativamente com os estímulos, formando imagens de coisas que não existem no mundo real, ou mesmo imaginando coisas que não se conhece, a partir de informações de coisas conhecidas. Assim, tendo experimentado visualmente uma montanha, por um lado, e uma pepita de ouro, por outro lado, esta capacidade poderia nos dar a imagem de uma montanha de ouro, que não existe fora da nossa mente. Tomás, no entanto, registra que esta possibilidade de compor ou dividir mentalmente coisas percebidas, para imaginar coisas não percebidas, não existe nos outros animais, mas apenas em nós, humanos. Assim, ela seria, apenas, uma capacidade propriamente humana da nossa imaginação, e não um sentido a mais. Tomás registra que também Averróis chega a mencionar a existência de uma capacidade humana, na área do sensível, desta natureza; isto não muda a opinião de Tomás, para quem esta capacidade é apenas uma característica da imaginação humana, quando comparada à dos outros animais, e não um sentido à parte.
4. Encerrando.
Assim, Tomás vai concluir, com muita simplicidade, que são quatro os sentidos ou capacidades internas da nossa sensibilidade, que nos habilitam a lidar com esta relação sensorial com as coisas, e que compartilhamos com os animais: o sentido comum, a imaginação, a estimativa e a memorativa, ou memória concreta.
No próximo texto, começaremos a estudar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que nos enriquecerão bastante neste assunto.
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