1. Retomando.

Há muitas coisas que nós, humanos, compartilhamos com os animais. Na verdade não poderia ser diferente: somos animais também; o que nos distingue, portanto, não é a animalidade comum, mas a racionalidade própria. Logo, é de essencial importância determinar aquilo que temos em comum com os animais e aquilo que temos de próprio. Não há, aqui, nenhum especismo, como diriam alguns. Não se trata de criar artificialmente algum tipo de vantagem em favor dos seres humanos, para justificar o tratamento indigno aos outros animais. Nenhum tipo de característica própria dos humanos nos daria tal direito. Ao contrário, uma vez que a inteligência nos especifica, ela também nos responsabiliza. Como disse o próprio Senhor Jesus, a quem muito foi dado, muito será cobrado, ou ainda, aquele que quer ser o maior de todos seja aquele que mais serve.

Assim, é em nome do amor e da responsabilidade que precisamos identificar com muita justeza aquilo que temos em comum com os animais, no campo da sensibilidade. E isto envolve uma série de habilidades e potências que não se explicam apenas pelo uso dos sentidos externos. Eis, portanto, a importância de estudar os assim chamados “sentidos internos”. Vamos a eles.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

A resposta sintetizadora de Tomás parte de uma constatação, diríamos hoje, fenomenológica: observando a atuação dos animais, em especial daqueles que apresentam uma vida mais complexa, ou seja, os chamados “animais superiores”, percebemos que ela deve ter uma explicação natural. Assim, é preciso pleitear tantos princípios de natureza quantas sejam as atuações que identificamos. É por este método que Tomás pretende identificar os sentidos internos e suas funções. Identificada a função, necessário declarar a existência da respectiva capacidade ou potência para exercê-la. Uma capacidade ou potência da ama, diz Tomás, outra coisa não é senão o princípio próximo de operação daquele ser, por sua estrutura formal que chamamos de “alma”.

Há um primeiro fenômeno inegável na operação dos animais mais perfeitos, que é a capacidade de recorrer a uma informação, mesmo quando o estímulo já não está presente. Vemos que, por exemplo, os cães são capazes de perseguir uma presa numa trilha, apenas sentindo o seu cheiro em algum lugar. Eles recordam e associam aquele cheiro a um ser que já não está ausente. Há, portanto, uma capacidade de reter uma informação concreta, no animal, e ter acesso a ela mesmo quando o estímulo já não está presente, o que permite, por exemplo, a atividade de caça.

Ora, prossegue Tomás, a capacidade de perceber um estímulo, recebendo a informação, não é igual à capacidade de retê-la. Tomás dá um exemplo de seu tempo: vamos imaginar que queremos registrar as marcas dos nossos dedos. Será fácil impor os dedos numa superfície líquida: ela tem alta capacidade de receber a pressão dos dedos e amoldar-se a ela. Mas, quando retiramos os dedos, o líquido não retém a forma dos dedos, e volta para a sua forma anterior. Assim, a superfície líquida tem alto poder de recepção da informação e baixíssima, ou melhor, nenhuma capacidade de retenção da informação. Por outro lado, se tentarmos pressionar, com os dedos, uma superfície sólida, veremos que ela não cede à pressão, e portanto não se deixa moldar pelos nossos dedos. No entanto, as marcas que conseguirmos deixar ali permanecerão, como a impressão das nossas digitais, por muito tempo. Assim, a superfície sólida tem baixíssima capacidade de recepção da informação dos nossos dedos, mas tem alta capacidade de retenção desta informação. Portanto, diz Tomás, a capacidade de recepção da informação é diferente da capacidade de retenção. Hoje, poderíamos fazer uma comparação com um computador: os dispositivos de entrada e saída de informações, como o teclado ou a câmera, são diferentes dos dispositivos de memória, como os chips e discos.

Há, porém, ainda outra capacidade perceptível em todos os animais que têm uma sensibilidade aguçada e completa: a capacidade de reunir as informações obtidas por meio de cada sentido externo, compondo uma percepçãodaquilo que é informação indireta, a partir daquilo que é estímulo próprio de cada sentido. Se os olhos captam as cores, os ouvidos podem perceber as vibrações sonoras, o olfato percebe os odores e assim por diante, da união de todas estas informações o sujeito percebe que está diante de um ser volumoso e alongado, que se move. Nenhum sentido externo é capaz de lhe dar diretamente estas informações, pois não cabe ao sentido da visão lidar com odores, nem ao olfato lidar com texturas, e a nenhum deles perceber diretamente formatos e movimentos. Logo, é necessário admitir um sentido comum, capaz de reunir as informações sensíveis, compondo-as num só todo, de modo a discernir completamente o objeto da percepção. Este sentido comum será tratado com mais detalhes na resposta ao segundo argumento objetor, que veremos no próximo texto.

Há, além disso, a capacidade de formar uma verdadeira imagem integral do objeto da percepção.

Além disso, diz Tomás, há uma avaliação dos estímulos recebidos, compondo-o de forma a conhecê-lo em sua relação com o sujeito. A presa apreende o predador e compõe, em si, o quadro intencional de que aquele indivíduo, que tem aquelas características, quer a sua destruição. Semelhantemente, o predador é capaz de fazer esta avaliação da sua presa.

Ora, esta avaliação compõe um conhecimento sensível útil, de tal maneira que o sujeito pode prever seu valor e antecipar atitudes com vistas a esta avaliação. Esta previsão não depende somente dos estímulos presentes, nem somente da memória, mas envolve uma capacidade de antecipar, na prática, qual o próximo movimento, para atender às necessidades do sujeito. Assim, a ovelha foge, ao ver o lobo, porque é capaz de antecipar que o lobo pode atacá-la, antes mesmo que o lobo venha a fazê-lo. Ou o leão pode antecipar o movimento da presa, saltando para apanhá-la ali onde ela estará no próximo instante.

Ora, nem a ovelha está reagindo a um desprazer presente, nem o leão reage a um movimento da presa que já aconteceu. Portanto, as capacidades sensíveis são capazes de uma certa antecipação que determina um modo de agir consentâneo com aquilo que o sujeito é capaz de estimar do objeto. A relação, então, entre o objeto e seu valor prático para o sujeito, que permite a antecipação do seu modo de reagir, é relacionada a uma capacidade diversa dos sentidos externos, do sentido comum e da própria memória. Ela sopesa os estímulos presentes com a antecipação de acontecimentos que ainda não são factuais.

Assim Tomás chega a quatro sentidos internos: 1) O sentido comum, que compõe os estímulos próprios de cada sentido externo, apreendendo aquilo que não os estimula diretamente, mas apenas indiretamente; 2) A imaginação, que reúne e compõe estas informações compostas (Tomás chama a imaginação de “tesouro das formas recebidas”), pela qual, por exemplo, o cão pode compor em sua imaginação a unificação dos estímulos que recebe de seu dono, reunindo seu formato, seu tamanho, suas cores, seus cheiros, e, a partir daí, associar a este todo algum estímulo isolado, sendo capaz, por exemplo de encontrá-lo ao cheirar uma peça de roupa que lhe pertence. 3) A capacidade estimativa, que permite formar um julgamento concreto sobre esta imagem, de tal modo que a ovelha pode saber que o lobo é um predador, ou o leão possa saber que a gazela é uma presa, antes mesmo de predá-la. Trata-se de reter as chamadas “espécies intencionais concretas”, que leva os animais a ter um conhecimento que, de alguma maneira, ultrapassa o estímulo presente, já que a ovelha fugirá do lobo mesmo que este não esteja presentemente atacando. E, por fim, 4) A memória, que é a capacidade de guardar todo este conjunto de informações de uma maneira útil, utilizando-a para determinar a maneira concreta de agir perante um estímulo, mesmo ausente. Assim, a memória, mesmo a memória concreta, material, tem relação com o tempo: envolve guardar os estímulos passados, devidamente processados, para poder sopesar e antecipar o agir futuro.

3. Breve encerramento.

Os animais em geral possuem estas capacidades, que Tomás chama de “sentidos internos”. Mas, no ser humano, elas não podem funcionar de modo isolado da inteligência. Somos seres unitários. Assim, as capacidades sensíveis apresentam-se de um modo um pouco diferente, nos irracionais e no ser humano. É o que veremos no próximo texto.