1. Introdução.

No artigo anterior, ao longo de quatro textos estudamos os chamados sentidos externos, os cinco sentidos relacionados aos estímulos exteriores que os interpelam diretamente, os chamados “sensíveis próprios”; a cor para a visão, o som para a audição, o cheiro para o olfato, o sabor para o paladar e a textura, a temperatura e a densidade para o tato.

Mas isto não esgota as possibilidades de nossas capacidades sensoriais. Sabemos que os dados sensoriais não permanecem fragmentários e estranhos entre si, mas compõem, em nós, uma imagem sensorial concreta e empírica do objeto da percepção. Ademais, somos capazes de manter esta imagem em nós mesmo quando o objeto não estimula diretamente os sentidos; compartilhamos esta capacidade com os animais, já que sabemos, por observação, que os animais têm também a capacidade de resgatar informações de objetos que já não lhes estão presentes. Somos, além disso, capazes de comparar mentalmente as informações presentes com outras informações de objetos que experimentamos e, finalmente, somos capazes de projetar estimativas para o comportamento dos objetos: o cão vê a bola arremessada em sua direção e é capaz de pular no tempo certo para apanhá-la ali onde ela estará em seguida. Nenhuma dessas capacidades se esgota na recepção dos estímulos dos sensíveis próprios.

A questão que se põe, agora, é descobrir quais são os sentidos complementares, internos, e quais suas funções, de modo a identificar adequadamente quais capacidades ou potências estão no campo da sensibilidade. Este será um trabalho relevante para identificar adequadamente quais são propriamente as potências que compartilhamos com os animais, por serem especificamente sensíveis, e quais são as potências da inteligência, próprias do ser humano, que estudaremos na próxima questão da Suma. A pergunta, portanto, é sobre os sentidos internos, suas capacidades e seu número.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial é a de que as capacidades internas da sensibilidade não devem ser divididas em diversos sentidos internos; elas representariam, diz a hipótese, um aglomerado de capacidades que não podem ser rigorosamente classificadas como distintas. Há seis argumentos objetores, no sentido desta hipótese inicial.

3. Os argumentos objetores.

O primeiro argumento objetor.

No artigo anterior, deparamo-nos com uma classificação dos estímulos externos entre “sensíveis comuns” e “sensíveis próprios”. Mas esta classificação é imperfeita, propõe este primeiro argumento, e não poderia servir para imaginar que existe algum outro sentido humano, de funcionamento interno, diferente dos cinco sentidos externos, relacionado aos chamados “sensíveis comuns”.

Na verdade, diz o argumento, o que é comum não se opõe ao que é próprio. Poderíamos, por exemplo, colocar as potências vegetativas no grupo das “potências comuns” a todos os seres vivos, enquanto as potências intelectivas seriam classificadas como “potências próprias dos seres humanos”, que também possuem as comuns. Assim, não é adequado distinguir os chamados “sensíveis comuns” dos “sensíveis próprios” para afirmar que devem existir uma potência interna para lidar com os chamados “sensíveis comuns”, e que esta potência seria um verdadeiro “sentido” humano, diverso dos cinco sentidos externos. O argumento conclui, pois, que não existe algum “sentido comum interno” para lidar com as informações obtidas pelos sentidos externos em contato com os sensíveis próprios.

O segundo argumento objetor.

O segundo argumento objetor também quer questionar a existência de um sentido comum interno, que fosse capaz de compor um quadro mental, unindo os estímulos que cada sentido externo recebe dos seus sensíveis próprios.

Não se deve, diz o argumento, propor a existência de uma suposta capacidade humana adicional, quando as capacidades existentes são suficientes para explicar determinada atividade humana.

Ora, prossegue o argumento, a atividade dos sentidos externos, na percepção dos sensíveis próprios, seria suficiente para explicar a atividade sensorial humana completamente. Porque os sentidos externos são capazes de lidar com os seus sensíveis próprios de um modo completo e integral.

Assim, cada sentido é capaz de perceber seu próprio ato; o sentido da visão, por exemplo, é capaz de perceber que está vendo, Ver é o ato da visão, isto é, é sua plenitude e perfeição. Ora, o ato de ver é algo como um meio caminho entre a simples capacidade de ver, por um lado, e o objeto visto, por outro. Assim, quando meus olhos contemplam, digamos, uma árvore, eles não simplesmente enxergam uma série de estímulos luminosos que os atingem, mas podem perceber que estão vendo uma árvore, e não simplesmente um amontoado de cores. Ora, ver é próprio do sentido da visão. Assim, quando percebo que contemplo uma árvore, não preciso imaginar que exista um sentido interno que receba os estímulos visuais e os componha com os estímulos recebidos pelos outros sentidos, para compreender a situação como o ato de ver uma árvore. É o próprio sentido da visão que realiza esta interpretação. E, portanto, o argumento conclui que não há, em nós, algo como um sentido interno comum, para lidar com os sensíveis comuns.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento ataca as capacidades da memória e da imaginação (ou fantasia, como chamava Tomás). O argumento lembra que Aristóteles, na obra “Da Memória e Reminiscência”, afirma que a memória e a imaginação são paixões fundamentais da atividade sensorial. Ora, uma paixão é definida como algo que acontece a um sujeito, algo que ele recebe e reage. Ora, não se pode separar uma paixão do sujeito que a recebe. Assim, não se poderia separar, no sujeito, o sentido comum, que organiza aquilo que o sujeito recebe como estímulo externo, da capacidade de compor imagens e guardá-las, como seriam a imaginação e a memória; se elas são paixões primárias, confundem-se com o próprio sentido comum. Logo, não há diversos sentidos internos, diz o argumento, mas apenas um.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento propõe que a inteligência, como capacidade espiritual humana, é algo que está numa independência relativa dos sentidos; tanto assim que os animais têm os sentidos mas não têm a inteligência. E Aristóteles chega mesmo a afirmar, nos “Segundos Analíticos”, que, quando o ser humano não tem um dos sentidos, ele também não tem a plenitude da capacidade intelectual – por exemplo, um cego de nascença não conseguiria conceber as cores em sua inteligência.

Ora, prossegue o argumento, há quem proponha a existência de um sentido interno, nos animais e nos seres humanos, chamado de “estimativa”, pelo qual a sensibilidade seria capaz de antecipar os acontecimentos externos e agir na conformidade de tal antecipação, como o leão que pula para agarrar a ave em pleno voo, antecipando o lugar em que ela estará depois que ele pular.

Ora, se a inteligência, que é uma capacidade elevadíssima, não consegue formar conhecimento quando não recebe determinados estímulos empíricos, também não poderíamos admitir que haja um sentido interno capaz de fazer o animal agir em antecipação, realizando movimentos que não correspondem ainda a um estímulo sensorial atual, como é o caso da estimativa. Este sentido, se existisse, seria mais poderoso que a inteligência, porque seria capaz de antecipar o futuro sem ter estímulos externos; logo, não pode existir, diz o argumento, em conclusão.

O quinto argumento objetor.

O quinto argumento objetor introduz no debate duas outras capacidades (ou potências) humanas: a potência cogitativa e a potência de reminiscência. A potência ou capacidade cogitativa envolve comparar os conhecimentos, afirmando semelhanças ou reconhecendo diferenças; a potência de reminiscência consiste em combinar conhecimentos obtidos para chegar a uma conclusão que ainda não possuíamos, construindo raciocínios silogísticos.

Ora, se compararmos estas capacidades com a capacidade de memória e de estimativa, que compartilhamos com os animais e que nos permitem lembrar de coisas que já não estão presentes (memória) ou antecipar acontecimentos a partir de dados anteriores (estimativa), vemos que a distância entre a cogitação e a reminiscência, por um lado, e a memória e a estimativa, por outro, não é menor do que a distância entre a memória e a estimativa, de um lado, e a imaginação, por outro.

Ora, se é assim, e existe a mesma distância entre estas faculdades, então só nos restaria o seguinte:

1. Ou afirmamos que há outras capacidades sensoriais internas no ser humano, além da memória e da estimativa, que são a cogitação e a reminiscência,

2. Ou temos que afirmar que, se a cogitação e a reminiscência não são diferentes da memória e da estimativa, então a imaginação, que está à mesma distância delas, tampouco se constitui numa potência separada.

Disto tudo o argumento conclui que não é certo o número dos sentidos internos.

O sexto argumento objetor.

Por fim, o sexto argumento objetor cita Agostinho que no Comentário ao Gênesis afirma que temos três tipos de visão: a visão corpórea, que se dá pelos olhos, a visão imaterial, que depende da imaginação, e a visão intelectual, que se dá na inteligência. Ora, se é assim, existe apenas um sentido interno, intermediário entre os cinco sentidos externos e a inteligência; este sentido seria a imaginação, conclui o argumento, afirmando que a imaginação é o único sentido interno que possuímos.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra resgata um ensinamento do filósofo árabe Avicena, que afirma que há cinco sentidos internos: o sentido comum, a fantasia, a imaginação, a estimativa e a memória. Assim, o argumento conclui, com base nele, que se pode afirmar a existência de cinco sentidos internos.

5. Palavras de fechamento.

Este debate demonstra a profundidade e a perspicácia das observações psicológicas, desde a Grécia antiga até a época de Tomás e depois, com a Escolástica, em ensinamentos que não podemos desprezar. No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora.