1. Retomando.

Vimos, então, na análise dos dois primeiros argumentos objetores, uma forte relação entre os chamados “sensíveis”, ou seja, aqueles aspectos do mundo exterior que podem nos interpelar sensivelmente, e nossos próprios sentidos. De fato, existe uma profunda correlação entre nossos sentidos e as coisas a serem percebidas, o que demonstra a grande capacidade de relação que existe entre os seres vivos sensíveis e o ambiente que os cerca. A realidade material não é um mero acúmulo de acasos coincidentes, mas uma correlação delicada de seres que se interpelam e se percebem. Em tudo isto poderíamos ver traços da Trindade. Mas estamos tecendo digressoes novamente; voltemos ao artigo.

Neste texto, estudaremos os dois últimos argumentos objetores e as respostas maravilhosas e enriquecedoras que Tomás nos oferece.

2. Respondendo aos argumentos objetores iniciais.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento inicia afirmando que cada sentido se refere a um sensível próprio, que se manifesta como um espectro de contrários; ou seja, a visão é capaz de perceber as cres em todo o seu espectro,desde o preto até o branco. A audição identifica os sons, desde o mais vibrante e estridente até o quase silêncio sussurrado do vento.

Mas o tato não é assim. Ele não se refere apenas ao espectro de um determinado sensível próprio, mas é capaz de perceber vários tipos de estímulos diferentes, com espectros próprios. Assim, percebe a temperatura, desde o frio congelante ao calor escaldante; percebe a textura, desde a aspereza de uma lixa até a suavidade de um pêssego; percebe a consistência, desde um confeito gelatinoso até o duro mármore. Percebe a umidade, desde a superfície de um corpo d’água até a secura de um rochedo. Assim, tendo uma gama de estímulos diferentes, cada um com seu próprio espectro de extremos, não poderíamos considerar que o tato seja apenas um sentido externo, mas um conjunto, um aglomerado de vários sentidos. Assim sendo, o argumento conclui que não há apenas cinco sentidos externos, mas muitos mais.

A resposta de Tomás.

O tato é um sentido curioso, diz Tomás. Ele é apenas um, mas tem muitas propriedades, muitas capacidades. Poder-se-ia dizer que ele é um conjunto de sentidos agrupados numa capacidade genérica de percepção por toque; esta é a posição de Aristóteles, na obra “Da Alma”; o que chamamos de “tato” é, na verdade, a designação genérica de um grupo de capacidades de percepção pelo toque. Assim, as diferentes capacidades do tato (perceber o calor, a textura, a densidade, por exemplo) espalham-se pelo corpo todo. É por isto que elas não se distinguem, na prática, umas das outras, porque funcionam em conjunto, pelos mesmos órgãos, na mesma extensão. Nosso corpo inteiro é capaz de perceber estes estímulos aos quais responde este sentido chamado “tato”.

E para mostrar como isto é assim, tomemos o caso do paladar, que é outro sentido de contato. A língua é o órgão do paladar; mas a língua também tem tato, e por isto é capaz de perceber os mesmos estímulos que o resto do corpo. Ela percebe a textura, a temperatura e a densidade de alguma coisa que comemos. Mas, mesmo percebendo os mesmos estímulos que estão relacionados com o tato, ela é capaz de perceber o sabor do alimento, e esta é uma característica exclusiva da língua. Por isto, a língua tem tato e paladar, mas o resto do corpo só possui, de modo geral, o tato. É por isto que distinguimos o paladar como um sentido autônomo: por ser localizado na língua. Mas as outras capacidades de percepção, relacionadas com a temperatura, textura, densidade, não se apresentam separadamente em algum ponto específico do corpo. Funcionam sempre em conjunto, e por isto podemos dizer que são um só sentido. É por isto que, embora envolva diversas capacidades, o tato se constitui em apenas um sentido externo, e, portanto, temos cinco sentidos externos em nós.

O quarto argumento objetor.

O quarto argumento objetor também debate a relação entre o paladar e o tato. O tato é um conjunto de capacidades análogas; é, portanto, um verdadeiro gênero subdividido por espécies de sensibilidades afins, que envolvem o contato entre o corpo do sujeito e o objeto percebido. Ora, o gênero inclui em si todas as suas espécies, e as espécies não podem ser contadas à parte do gênero.

O paladar, prossegue o argumento, é uma das capacidades sensíveis que envolvem o contato entre o corpo do sujeito e o objeto percebido. O paladar é, portanto, uma espécie do gênero tato, diz o argumento. Logo, ele se inclui no tato, e não pode ser contado à parte. Logo, o argumento conclui que não há cinco, mas apenas quatro sentidos externos, porque o tato já inclui o paladar.

A resposta de Tomás.

O paladar, diz Tomás, não deixa de ser uma certa modalidade de tato; mas é um tipo de sensibilidade por contato que só existe na língua. Hoje, sabemos que grande parte dos estímulos do sabor nos chegam pelas narinas, e não exatamente pela língua; mas isto não muda o ponto que Tomás quer nos provar.

O fato é que o tato consegue interagir com muitos tipos diferentes de estímulos. Tanto que o próprio Aristóteles classificava o paladar como uma certa espécie de tato que só existe na língua. Assim, para o Filósofo, o paladar é um tipo de tato que tem uma localização corporal muito específica.

Para Tomás, no entanto, não é apenas em razão da localização que o paladar se distingue do tato. Há também uma diferença qualitativa.

Conforme a classificação que o próprio Tomás nos oferece na resposta sintetizadora, os sentidos sofrem modificações físicas e espirituais, isto é, funcionam por estimulação física dos órgãos, mas nem sempre as informações recebidas implicam uma modificação no próprio órgão do sentido, de modo a torná-lo materialmente semelhante ao estímulo recebido; em alguns casos, há apenas a obtenção da informação sensível pelo órgão do sentido. Deste modo, o olho recebe as cores por meio da luz, mas não se torna, ele mesmo, luminoso e colorido ao enxergar. O tato, porém, ao perceber o calor, torna-se quente, de tal modo que um estímulo forte de calor pode levar a uma queimadura da pele.

No caso do paladar, ele se assemelha ao tato no sentido de que é necessária uma interação física entre o órgão e o objeto; mas, no caso do paladar, não há a modificação física do órgão pelo estímulo: a língua não se torna, por exemplo, amarga ou salgada por ser estimulada por um alimento salgado ou amargo, como a pele se torna quente quando sofre um estímulo de calor. É por isto que podemos distinguir, diz Tomás, o paladar do tato. Mesmo a própria língua, que é o órgão principal do paladar, tem funções tácteis iguais às das outras áreas tácteis do corpo, mas tem a função específica de perceber o paladar, que envolve, diz Tomás, um estímulo que é físico no objeto, mas espiritual na língua. O estímulo do tato é, portanto, físico no objeto e físico na pele, ao tempo em que o estímulo do paladar é físico no objeto mas espiritual na língua.

É por isto que podemos tatear alguma coisa e sentir que ela é úmida, ao perceber que a nossa pele ficou molhada pelo contato. Mas somente o contato dessa umidade com a língua nos faria perceber o sabor daquilo.

Assim, apesar de reconhecer alguma similaridade entre o paladar e o tato, eles são sentidos externos diversos, conclui Tomás.

3. Conclusões.

Poderíamos desconsiderar as observações de Tomás por causa da aparente defasagem científica de suas observações. De fato, Tomás está lastreado na ciência do seu tempo, e não poderia ser diferente, já que ele viveu há quase oitocentos anos. Mas as suas observações são muito argutas, e correspondem, digamos assim, à fenomenologia dos sentidos: percebemos os estímulos tácteis por uma relação de contato físico, mas os sentidos da audição e da visão conseguem perceber seus objetos, de certo modo, à distância. Também é notável que, para ele, a visão, que não envolve a alteração do objeto, nem do órgão do sentido, para a obtenção da informação empírica, seja aquela sentido que nos fornece a terminologia para tratar do conhecimento intelectual. Assim, quando falamos do conhecimento intelectual, usamos termos como “ver”, “enxergar”, “olhar”, “iluminar”, que são retiradas do campo linguístico do sentido da visão. É, pois, coerente afirmar que a visão é o mais espiritual dos sentidos, porque é o mais análogo à inteligência. A intuição de Tomás continua válida, mesmo que a ciência natural em que se fundamenta esteja ultrapassada.